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Livros Comércio
sagrado Novo romance de Moacyr Scliar reabilita
os vendilhões escorraçados do Templo por Jesus 
Jerônimo Teixeira
Liane Neves  |
| Scliar: tema bíblico para tratar de assuntos contemporâneos
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Os mercadores estão entre
os vilões dos Evangelhos. Um Jesus enfurecido expulsa os cambistas e vendedores
de pombos do Templo, acusando-os de transformar uma casa de oração
em "covil de ladrões". Em Os Vendilhões do Templo
(Companhia das Letras; 296 páginas; 43 reais), o escritor gaúcho
Moacyr Scliar tenta recuperar a dignidade desses comerciantes anônimos.
Em três episódios que se desenrolam em épocas diferentes
na Jerusalém do Novo Testamento, no Brasil colônia e no fim do século
XX , o romance promove uma investigação ficcional sobre a
figura deles. É uma empreitada ambiciosa: Scliar, afinal, está absolvendo
os vendilhões do Templo da condenação cristã.
Aos 69 anos, Moacyr Scliar é um dos mais prolíficos escritores brasileiros,
com mais de sete dezenas de títulos em sua bibliografia. De certo modo,
Os Vendilhões do Templo concentra e aprimora algumas das linhas
centrais de sua ficção. A revisão de temas bíblicos,
por exemplo, já apareceu antes no romance A Mulher que Escreveu a Bíblia
e no belo conto As Pragas. O primeiro episódio do novo romance
reconta a diatribe de Jesus contra os mercadores sob a perspectiva de uma de suas
vítimas. O personagem nem ganha um nome: é chamado apenas de "o
vendilhão". Agricultor falido, ele se muda para Jerusalém em busca
de uma nova oportunidade de vida para sua família. E a encontra, vendendo
animais e trocando moedas no Templo, até ser perturbado pela irrupção
de um líder religioso que poucos dias depois morreria na cruz. Na sua reconstituição
da Jerusalém antiga, Scliar está sempre de olho no mundo contemporâneo
quando era agricultor, o vendilhão se imaginava uma vítima
do que hoje chamaríamos de globalização: ressentia-se da
livre concorrência com o trigo barato importado do Egito.
No segundo episódio, o tema é reeditado no Brasil do século
XVII. O viés aqui é o do estranhamento cultural: um jesuíta
que não entende guarani se vê diante de um velho índio que
oferece toscas imagens religiosas em frente à igreja. Séculos depois,
o pequeno povoado indígena se transforma em uma florescente cidade do interior,
a fictícia São Nicolau do Oeste. É lá, em 1996, que
tem lugar o último episódio, narrado em primeira pessoa por um jornalista
que trabalha como assessor de imprensa da prefeitura. O vendilhão ressurge
em um esquete teatral que os personagens centrais montaram na adolescência,
num colégio católico. A condição judaica, assunto
fundamental da obra de Scliar, aparece aqui como uma sombra sutil. A idéia
que um dos garotos faz do vendilhão é a do estereótipo anti-semita:
dedos em garra, nariz adunco, olhos que brilham quando avistam dinheiro.
À luz dos fatos mais recentes, a caracterização
que Scliar faz do partido de esquerda que toma a prefeitura de São Nicolau
do Oeste um grupo de gente idealista, um tanto ridícula em seu dogmatismo,
mas no fundo honesta pode soar ingênua. De qualquer forma, a intenção
do romance não é comentar a política do momento. Os Vendilhões
do Templo mira mais longe: é uma crítica às condenações
que os fundamentalismos de todos os naipes erguem contra o dinheiro. O comércio
aparece no livro como um empreendimento inovador, libertário uma
das grandes aventuras humanas. Não por acaso, um dos heróis do romance
será um simples camelô.
| A IRA DIVINA
"O homem, com surpreendente força, pegou a mesa e virou-a, derrubando
no chão as gaiolas de pombos e as moedas. E em seguida, sacando de sob
a túnica uma espécie de chicote, pôs-se a distribuir golpes
a torto e a direito. Quando o vendilhão do Templo conseguiu enfim se recuperar
da surpresa, já o homem e seus acompanhantes tinham deixado o pátio.
(...) Pelo menos não havia prejuízo maior, pensou mas estava
enganado: ao erguer a pesada mesa, constatou que sob o tampo jazia um pombo. Um
dos melhores e mais bonitos pombos esmagado, transformado numa pasta sangrenta."
Trecho de Os Vendilhões do Templo
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