Edição 1955 . 10 de maio de 2006

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Comércio sagrado

Novo romance de Moacyr Scliar reabilita os
vendilhões escorraçados do Templo por Jesus


Jerônimo Teixeira


Liane Neves
Scliar: tema bíblico para tratar de assuntos contemporâneos

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Trecho do livro

Os mercadores estão entre os vilões dos Evangelhos. Um Jesus enfurecido expulsa os cambistas e vendedores de pombos do Templo, acusando-os de transformar uma casa de oração em "covil de ladrões". Em Os Vendilhões do Templo (Companhia das Letras; 296 páginas; 43 reais), o escritor gaúcho Moacyr Scliar tenta recuperar a dignidade desses comerciantes anônimos. Em três episódios que se desenrolam em épocas diferentes – na Jerusalém do Novo Testamento, no Brasil colônia e no fim do século XX –, o romance promove uma investigação ficcional sobre a figura deles. É uma empreitada ambiciosa: Scliar, afinal, está absolvendo os vendilhões do Templo da condenação cristã.

Aos 69 anos, Moacyr Scliar é um dos mais prolíficos escritores brasileiros, com mais de sete dezenas de títulos em sua bibliografia. De certo modo, Os Vendilhões do Templo concentra e aprimora algumas das linhas centrais de sua ficção. A revisão de temas bíblicos, por exemplo, já apareceu antes no romance A Mulher que Escreveu a Bíblia e no belo conto As Pragas. O primeiro episódio do novo romance reconta a diatribe de Jesus contra os mercadores sob a perspectiva de uma de suas vítimas. O personagem nem ganha um nome: é chamado apenas de "o vendilhão". Agricultor falido, ele se muda para Jerusalém em busca de uma nova oportunidade de vida para sua família. E a encontra, vendendo animais e trocando moedas no Templo, até ser perturbado pela irrupção de um líder religioso que poucos dias depois morreria na cruz. Na sua reconstituição da Jerusalém antiga, Scliar está sempre de olho no mundo contemporâneo – quando era agricultor, o vendilhão se imaginava uma vítima do que hoje chamaríamos de globalização: ressentia-se da livre concorrência com o trigo barato importado do Egito.

No segundo episódio, o tema é reeditado no Brasil do século XVII. O viés aqui é o do estranhamento cultural: um jesuíta que não entende guarani se vê diante de um velho índio que oferece toscas imagens religiosas em frente à igreja. Séculos depois, o pequeno povoado indígena se transforma em uma florescente cidade do interior, a fictícia São Nicolau do Oeste. É lá, em 1996, que tem lugar o último episódio, narrado em primeira pessoa por um jornalista que trabalha como assessor de imprensa da prefeitura. O vendilhão ressurge em um esquete teatral que os personagens centrais montaram na adolescência, num colégio católico. A condição judaica, assunto fundamental da obra de Scliar, aparece aqui como uma sombra sutil. A idéia que um dos garotos faz do vendilhão é a do estereótipo anti-semita: dedos em garra, nariz adunco, olhos que brilham quando avistam dinheiro.

À luz dos fatos mais recentes, a caracterização que Scliar faz do partido de esquerda que toma a prefeitura de São Nicolau do Oeste – um grupo de gente idealista, um tanto ridícula em seu dogmatismo, mas no fundo honesta – pode soar ingênua. De qualquer forma, a intenção do romance não é comentar a política do momento. Os Vendilhões do Templo mira mais longe: é uma crítica às condenações que os fundamentalismos de todos os naipes erguem contra o dinheiro. O comércio aparece no livro como um empreendimento inovador, libertário – uma das grandes aventuras humanas. Não por acaso, um dos heróis do romance será um simples camelô.

 

A IRA DIVINA

"O homem, com surpreendente força, pegou a mesa e virou-a, derrubando no chão as gaiolas de pombos e as moedas. E em seguida, sacando de sob a túnica uma espécie de chicote, pôs-se a distribuir golpes a torto e a direito. Quando o vendilhão do Templo conseguiu enfim se recuperar da surpresa, já o homem e seus acompanhantes tinham deixado o pátio. (...) Pelo menos não havia prejuízo maior, pensou – mas estava enganado: ao erguer a pesada mesa, constatou que sob o tampo jazia um pombo. Um dos melhores e mais bonitos pombos – esmagado, transformado numa pasta sangrenta."

Trecho de Os Vendilhões do Templo

 

 
 
 
 
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