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Agricultura As
pragas do agronegócio Ferrugem asiática,
aftosa e gripe aviária são algumas
das razões da crise na agropecuária. Mas a maior delas é
a falta de visão dos produtores  José
Edward
Mario
Vilela
 | | Ferrugem
asiática: a praga provocou 7 bilhões de reais de prejuízos
na lavoura de soja |
As crises da agricultura brasileira
são cíclicas. Desde os anos 80, há duas delas por década.
A mais recente começou em meados de 2004. Até o fim deste ano, ela
imporá prejuízos de 30 bilhões de reais ao setor. As dívidas
dos fazendeiros ultrapassarão a casa dos 50 bilhões de reais. As
estimativas mais conservadoras indicam que 100.000 postos de trabalho no campo
devem desaparecer. Poucas vezes na história o setor sofreu danos tão
grandes, mas esse é apenas um dos aspectos singulares da crise atual. A
maior novidade é que, pela primeira vez, o governo é incapaz de
resolver o problema. Em abril, tentou um expediente desse tipo e liberou 17 bilhões
de reais para rolar as dívidas dos fazendeiros com os bancos oficiais.
Pouco adiantou, porque grande parte dos débitos dos agricultores foi contraída
junto às grandes tradings internacionais que exportam a produção
brasileira de grãos. Na última safra, que foi colhida até
abril, empresas como a Cargill, ADM e Bunge concederam cerca de 30 bilhões
de reais em financiamentos aos agricultores. Os analistas do setor estimam que
40% deles não terá como pagar os empréstimos.
A maior parte do calote deve vir dos produtores de soja, que impulsionou o saldo
da balança comercial brasileira nos últimos anos. O Brasil é
o segundo maior exportador do grão, um mercado que está em contínua
expansão desde 2000 por causa do aumento da demanda da China. Os preços
da commodity continuam altos, mas os negócios com soja sofreram duros reveses
a partir de 2004. O principal deles foi a desvalorização do dólar,
que reduziu a receita obtida com as exportações do grão.
A oscilação cambial surpreendeu os agricultores. A maioria dos grandes
produtores, no entanto, poderia ter evitado as perdas fazendo operações
de hedge cambial no mercado de futuros. Essas operações reduziriam
sua margem de lucro, mas também impediriam que as flutuações
do dólar pusessem seu negócio em risco. Em vez disso, optaram por
investir os lucros obtidos nos anos de vacas gordas na aquisição
de novas terras, tratores e insumos agrícolas. Neste ano, as perdas foram
agravadas pelo alastramento da ferrugem asiática, causada por um fungo
que reduz a produtividade da lavoura. A praga chegou ao Brasil em 2002. Poderia
ter sido controlada de duas formas, ambas onerosas. A primeira envolve o uso de
pesticidas, que são caros. A outra, com o cancelamento das safras de inverno
a irrigação, muito necessária nesse período,
facilita a proliferação do fungo. A doença já provocou
prejuízos de 7 bilhões de reais. "É uma praga devastadora
que pode inviabilizar a cultura da soja no país", afirma o agrônomo
André Pessôa, da Agroconsult. Ana
Araujo
 | PEQUENO
E FRÁGIL O avicultor Valdomiro Bernardi,
de Corbélia, no Paraná, montou uma granja para criar 9 000 frangos
por ano. Operava com toda a capacidade até janeiro. O vírus da gripe
aviária ainda não chegou ao Brasil, mas o medo dos consumidores
estrangeiros fez com que as exportações do país diminuíssem.
Os clientes da cooperativa Copacol, para a qual Bernardi vende sua produção,
passaram a cancelar pedidos de compra. A cooperativa comprava um lote de frangos
de Bernardi a cada 55 dias. Depois que a crise começou, o intervalo aumentou
dez dias e a produção da granja caiu 15%. Resultado: a renda de
Bernardi, que era de 19 000 reais por ano, diminuiu um quinto. |
No fim do ano passado, os produtores de soja começaram a parar de pagar
suas dívidas com as tradings internacionais que, com isso, acumulam
fortes prejuízos. Na última semana, a Bunge anunciou que seu lucro
mundial já caiu 41% neste ano por causa das perdas no agronegócio
brasileiro. O calote atual dificulta ainda mais a relação dos fazendeiros
com as tradings, que financiam 60% da lavoura de soja no país. Os problemas
tiveram início em 2004, quando fazendeiros de Goiás e do Paraná
recorreram à Justiça para quebrar os contratos que haviam firmado
com as exportadoras. Eles haviam se comprometido a vender a tonelada de soja por
10 dólares. Como o preço subiu para 17 dólares, recusaram-se
a cumprir o contrato. A quebra de contratos, uma das pragas do Terceiro Mundo,
ocasionou uma perda de 1,2 bilhão de reais para as tradings em 2004. No
ano passado, essas exportadoras obtiveram vitórias importantes nos tribunais.
Só que, escaldadas, elas passaram a exigir que as safras, os equipamentos
e as terras dos agricultores fossem dados em garantia aos contratos. Por isso,
quem der calote desta vez corre o risco de perder o patrimônio. Ana
Araujo
 | GRANDE
E IMPREVIDENTE No tempo das vacas gordas,
o produtor de soja Roque Lázari, de Primavera do Leste, em Mato Grosso,
investiu todo o lucro na compra de novas terras, máquinas e insumos agrícolas.
Imprudente, contraiu empréstimos com juros altos e não fez nenhum
seguro para se proteger das oscilações do mercado. A queda do dólar
abalou sua capacidade de pagar as dívidas e, no ano passado, sua fazenda
foi contaminada pela ferrugem asiática. Lázari perdeu 2 milhões
de reais em dois anos. Afogado em dívidas, já demitiu trinta empregados
e entregou aos credores três tratores e 5 000 hectares de terra. "Sou bom
para plantar e colher, mas não sei fazer comércio", diz. |
A conjunção de fatores negativos sobre a soja não causará
danos intransponíveis à balança comercial neste ano. Apesar
dos problemas cambiais, o endividamento e a ferrugem asiática, a safra
nacional de grãos deverá saltar de 114 milhões de toneladas
no ano passado para 122 milhões de toneladas em 2006. O impacto da crise
só terá efeito no comércio exterior em 2007, porque as tradings
já avisaram que reduzirão os empréstimos para plantio e colheita
de soja. "Na melhor das hipóteses, as multinacionais vão aumentar
o custo dos financiamentos da próxima safra e o governo tem poucos instrumentos
para resolver esse problema", afirma o economista Guilherme Dias, que elaborou
a política agrícola no governo Fernando Henrique Cardoso.
A crise também atingiu os exportadores de carne bovina e de frango, setores
em que o Brasil também lidera as exportações mundiais. No
caso da carne bovina, os prejuízos foram causados pelo aparecimento, no
ano passado, de focos de febre aftosa em Mato Grosso do Sul e no Paraná.
Em conseqüência da contaminação do gado, 56 países
suspenderam as importações do Brasil, provocando prejuízos
estimados em 3 bilhões de reais. A nova epidemia foi decorrência
de um misto de incompetência do governo e malandragem dos criadores. Brasília
afrouxou o controle sanitário feito sobre as fazendas para garantir a vacinação
do gado. Os criadores, por sua vez, aproveitaram a brecha para fingir que tinham
vacinado seu rebanho. Alguns assumiram riscos ainda maiores importando gado do
Paraguai, que não exerce nenhum controle sobre a saúde do seu rebanho.
Já os produtores de frango foram vítimas do acaso. Estão
entre os mais eficientes do mundo, mas foram atingidos pelo temor da gripe aviária.
O Brasil está fora da rota da doença e, até agora, não
foi identificado nenhum sinal do vírus H5N1 em território nacional.
Apesar disso, a queda no consumo de frango no mundo todo fez com que as exportações
caíssem 20%. Os exportadores resolveram compensar as perdas reduzindo as
compras de animais das granjas. Como a mercadoria que seria exportada foi destinada
ao mercado interno, isso derrubou o preço do produto. Guilherme
Filho/SECOM-MT
 | | Infra-estrutura
precária: os ganhos de produtividade se perdem no caminho |
Mais uma vez, os agricultores dos setores atingidos pela crise reclamam ajuda
oficial para sair do buraco. Nas últimas semanas, tornaram-se freqüentes
as cenas de interdição de rodovias e queima de bandeiras nacionais
e de tratores em frente a agências do Banco do Brasil. São manifestações
anacrônicas. O governo não pode saldar a dívida dos produtores
de soja com as tradings nem obrigar outros países a comprar carne e frango
brasileiros. Tem dificuldade até para ajudar diretamente os produtores.
Há vinte anos, por falta de dinheiro, o Brasil começou a reduzir
os subsídios concedidos à agricultura. No fim dos anos 80, eles
alcançavam 20% do PIB agrícola. Hoje, não ultrapassam 3%.
É um dos menores do mundo, e é bom que seja assim por uma questão
de responsabilidade fiscal. Só para efeito de comparação,
esses subsídios chegam a 17% nos Estados Unidos e a 34% na União
Européia taxas absurdas, pagas pelos contribuintes americanos e
europeus e que prejudicam o livre-comércio internacional. Apesar de reconhecer
que tem pouco espaço de manobra, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues,
ainda prometia no fim da semana passada um novo pacote de auxílio aos agricultores.
Mas o que eles precisam mesmo é de mais visão o que inclui
exigir com firmeza do governo a melhoria da infra-estrutura brasileira, cuja precariedade
é um ralo pelo qual se perdem os ganhos de produtividade. Se a agricultura
é uma atividade de grande risco, por contar com uma série de fatores
imponderáveis, cabe aos produtores precaver-se permanentemente. Mesmo que
isso signifique diminuir suas margens de lucro nos períodos de abundância.
Não se é capitalista privatizando os ganhos e socializando os prejuízos.
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