Edição 1955 . 10 de maio de 2006

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Imigração
Ulalá, um país com empregos

Sem oportunidades na França,
jovens qualificados vão viver na
Inglaterra, onde há fartura
de trabalho e bons salários


Ruth Costas

A França é um país ensolarado, com boas praias e excelente culinária. Na Inglaterra chove demais, as praias são horríveis e a comida, insípida. Ainda assim, a cada ano, 15.000 franceses vão viver e trabalhar na ilha chuvosa. Na direção contrária, 10.000 ingleses vão morar em solo francês. Os dois grupos de emigrantes têm características diversas. Os que deixam a ilha são em geral aposentados à procura de um lugar calmo e de temperatura amena para aproveitar a velhice. Os franceses são principalmente profissionais bem qualificados em início de carreira. Engenheiros, matemáticos, economistas e administradores, eles estão cansados da escassez de empregos e da falta de oportunidades na terra natal. Dois em cada três têm menos de 36 anos e metade deles encontra emprego em instituições financeiras, principalmente em Londres.

Vivem hoje na Inglaterra 400.000 franceses. Podem até não gostar do clima chuvoso e do insípido peixe com batatas fritas consumido às pressas nas ruas londrinas, mas eles têm ao menos dois bons motivos para a mudança. O principal é a facilidade de encontrar trabalho. Na Inglaterra, o índice de desemprego é de 12% entre os jovens e de 5% na população em geral – em ambos os casos, metade da média francesa. Os encargos trabalhistas ingleses são quase 30% mais baixos que os da França, o que estimula as empresas a contratar mais funcionários. O segundo motivo do êxodo francês é que os salários oferecidos pelas companhias inglesas são mais altos. "A diferença compensa mesmo se levarmos em conta que o custo de vida em Londres é mais alto que em Paris", explica o economista Vladimir Cordier, francês que vive há oito anos na Inglaterra. Recentemente ele lançou o livro Enfim um Trabalho!, no qual dá dicas para os compatriotas interessados numa carreira profissional na Inglaterra. "Uma diferença entre os dois países é que na Inglaterra as promoções dependem muito mais da eficiência de um funcionário que do seu tempo de serviço, o que faz os ambientes de trabalho ser mais desafiadores e estimulantes", diz Cordier.

O irônico da situação é que o sucesso da economia da ilha, hoje o principal chamariz para essa juventude promissora, é fruto de reformas estruturais no mercado de trabalho que muitos franceses, talvez a maioria, rejeitam. Para os sindicatos, trabalhadores com emprego estável e estudantes universitários que sonham com cargos públicos vitalícios – os mesmos segmentos sociais que recentemente saíram às ruas para forçar o governo da França a revogar uma lei que permitiria contratar jovens em regime temporário –, a Inglaterra representa o que há de mais abominável em termos de modelo econômico. "Num momento em que a globalização derruba fronteiras econômicas entre as nações, esses franceses se apegam à proteção do Estado para se defender de um futuro de incertezas", disse a VEJA o publicitário francês Christophe Lambert, autor do livro A Sociedade do Medo. Sua tese é que seu país, que já foi a terra da esperança, hoje está paralisado pelo medo da perda do emprego, da União Européia, do imigrante, e assim por diante.

Na Inglaterra, as mudanças econômicas começaram na década de 80, quando a primeira-ministra Margaret Thatcher tomou medidas para quebrar o poder dos sindicatos, diminuir os impostos e permitir que os termos dos contratos de trabalho fossem livremente negociados entre patrões e empregados. Como resultado, nos últimos vinte anos os ingleses conseguiram reduzir o desemprego à metade. Sua economia, que em 1980 era menor que a da França, hoje só perde para a da Alemanha entre os países da Europa. Para completar, a ilha lidera o ranking de atração dos investimentos externos no mundo – na frente dos Estados Unidos e da China. Até os empresários franceses já perceberam as vantagens de apostar em um país onde os encargos sociais são menores e os impostos, mais baixos. No total, 1.700 companhias francesas estão hoje instaladas na Inglaterra. Junto com alguns artistas famosos e profissionais liberais, os empresários formam outro grupo que nos últimos anos decidiu fazer as malas para aproveitar a liberalidade econômica do vizinho. Há também os milionários que com a troca de país evitam os altos impostos que incidem sobre os rendimentos na França. Apesar de esses emigrantes endinheirados serem bem menos numerosos que os jovens qualificados, sua fuga também preocupa as autoridades francesas. Não apenas por eles levarem consigo grandes fortunas, mas também por uma questão simbólica. Seis anos atrás, a França entrou em surto quando a modelo Laetitia Casta se mudou oficialmente para a Inglaterra. Se ficasse na França, o Fisco poderia reter 60% de seus rendimentos anuais, estimados em 3 milhões de dólares. Com a mudança, ela ficou sujeita ao máximo de 40% de impostos. Pouco antes de se bandear para o outro lado do Canal da Mancha, ela havia sido escolhida para um papel que já pertencera a Brigitte Bardot e Catherine Deneuve: o de modelo para o busto de Marianne, símbolo da República exposto nos prédios oficiais de toda a França. Alguns prefeitos a acusaram de "traição à pátria" e de "envergonhar a França". Em socorro da moça, a diva Brigitte Bardot falou o que muitos de seus conterrâneos não queriam ouvir: "Se eu tivesse 21 anos, faria a mesma coisa".

 

15 000 franceses mudam
para a Inglaterra por ano  

QUEM SÃO
Profissionais jovens e bem qualificados, na maioria  

PARA ONDE VÃO
70% deles para Londres

O QUE QUEREM
Empregos na área financeira ou de alta tecnologia  

 

10 000 ingleses mudam
para a França por ano  

QUEM SÃO
Na maioria aposentados  

PARA ONDE VÃO
Dispersam-se pelo país  

O QUE QUEREM
Um lugar tranqüilo para aproveitar a velhice

 
 
 
 
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