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Imigração Ulalá,
um país com empregos Sem oportunidades
na França, jovens qualificados vão viver na Inglaterra,
onde há fartura de trabalho e bons salários
 Ruth
Costas A França é um país
ensolarado, com boas praias e excelente culinária. Na Inglaterra chove
demais, as praias são horríveis e a comida, insípida. Ainda
assim, a cada ano, 15.000 franceses vão viver e trabalhar na ilha chuvosa.
Na direção contrária, 10.000 ingleses vão morar em
solo francês. Os dois grupos de emigrantes têm características
diversas. Os que deixam a ilha são em geral aposentados à procura
de um lugar calmo e de temperatura amena para aproveitar a velhice. Os franceses
são principalmente profissionais bem qualificados em início de carreira.
Engenheiros, matemáticos, economistas e administradores, eles estão
cansados da escassez de empregos e da falta de oportunidades na terra natal. Dois
em cada três têm menos de 36 anos e metade deles encontra emprego
em instituições financeiras, principalmente em Londres.
Vivem hoje na Inglaterra 400.000 franceses. Podem até não gostar
do clima chuvoso e do insípido peixe com batatas fritas consumido às
pressas nas ruas londrinas, mas eles têm ao menos dois bons motivos para
a mudança. O principal é a facilidade de encontrar trabalho. Na
Inglaterra, o índice de desemprego é de 12% entre os jovens e de
5% na população em geral em ambos os casos, metade da média
francesa. Os encargos trabalhistas ingleses são quase 30% mais baixos que
os da França, o que estimula as empresas a contratar mais funcionários.
O segundo motivo do êxodo francês é que os salários
oferecidos pelas companhias inglesas são mais altos. "A diferença
compensa mesmo se levarmos em conta que o custo de vida em Londres é mais
alto que em Paris", explica o economista Vladimir Cordier, francês que vive
há oito anos na Inglaterra. Recentemente ele lançou o livro Enfim
um Trabalho!, no qual dá dicas para os compatriotas interessados numa
carreira profissional na Inglaterra. "Uma diferença entre os dois países
é que na Inglaterra as promoções dependem muito mais da eficiência
de um funcionário que do seu tempo de serviço, o que faz os ambientes
de trabalho ser mais desafiadores e estimulantes", diz Cordier.
O irônico da situação é que o sucesso da economia da
ilha, hoje o principal chamariz para essa juventude promissora, é fruto
de reformas estruturais no mercado de trabalho que muitos franceses, talvez a
maioria, rejeitam. Para os sindicatos, trabalhadores com emprego estável
e estudantes universitários que sonham com cargos públicos vitalícios
os mesmos segmentos sociais que recentemente saíram às ruas
para forçar o governo da França a revogar uma lei que permitiria
contratar jovens em regime temporário , a Inglaterra representa o
que há de mais abominável em termos de modelo econômico. "Num
momento em que a globalização derruba fronteiras econômicas
entre as nações, esses franceses se apegam à proteção
do Estado para se defender de um futuro de incertezas", disse a VEJA o publicitário
francês Christophe Lambert, autor do livro A Sociedade do Medo. Sua
tese é que seu país, que já foi a terra da esperança,
hoje está paralisado pelo medo da perda do emprego, da União Européia,
do imigrante, e assim por diante.
Na Inglaterra, as mudanças econômicas começaram na década
de 80, quando a primeira-ministra Margaret Thatcher tomou medidas para quebrar
o poder dos sindicatos, diminuir os impostos e permitir que os termos dos contratos
de trabalho fossem livremente negociados entre patrões e empregados. Como
resultado, nos últimos vinte anos os ingleses conseguiram reduzir o desemprego
à metade. Sua economia, que em 1980 era menor que a da França, hoje
só perde para a da Alemanha entre os países da Europa. Para completar,
a ilha lidera o ranking de atração dos investimentos externos no
mundo na frente dos Estados Unidos e da China. Até os empresários
franceses já perceberam as vantagens de apostar em um país onde
os encargos sociais são menores e os impostos, mais baixos. No total, 1.700
companhias francesas estão hoje instaladas na Inglaterra. Junto com alguns
artistas famosos e profissionais liberais, os empresários formam outro
grupo que nos últimos anos decidiu fazer as malas para aproveitar a liberalidade
econômica do vizinho. Há também os milionários que
com a troca de país evitam os altos impostos que incidem sobre os rendimentos
na França. Apesar de esses emigrantes endinheirados serem bem menos numerosos
que os jovens qualificados, sua fuga também preocupa as autoridades francesas.
Não apenas por eles levarem consigo grandes fortunas, mas também
por uma questão simbólica. Seis anos atrás, a França
entrou em surto quando a modelo Laetitia Casta se mudou oficialmente para a Inglaterra.
Se ficasse na França, o Fisco poderia reter 60% de seus rendimentos anuais,
estimados em 3 milhões de dólares. Com a mudança, ela ficou
sujeita ao máximo de 40% de impostos. Pouco antes de se bandear para o
outro lado do Canal da Mancha, ela havia sido escolhida para um papel que já
pertencera a Brigitte Bardot e Catherine Deneuve: o de modelo para o busto de
Marianne, símbolo da República exposto nos prédios oficiais
de toda a França. Alguns prefeitos a acusaram de "traição
à pátria" e de "envergonhar a França". Em socorro da moça,
a diva Brigitte Bardot falou o que muitos de seus conterrâneos não
queriam ouvir: "Se eu tivesse 21 anos, faria a mesma coisa".
15 000 franceses mudam para a Inglaterra por
ano QUEM SÃO Profissionais
jovens e bem qualificados, na maioria PARA
ONDE VÃO 70% deles para Londres O
QUE QUEREM Empregos na área financeira ou de alta tecnologia
10 000 ingleses mudam para a França
por ano QUEM SÃO Na maioria aposentados
PARA ONDE VÃO Dispersam-se
pelo país O QUE QUEREM Um
lugar tranqüilo para aproveitar a velhice | |
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