Edição 1955 . 10 de maio de 2006

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História
Sob o império da dúvida

Carta atribuída à princesa Isabel fala
em reforma agrária e voto feminino
e cria polêmica entre especialistas


Lucila Soares

 

NA BERLINDA
A carta da princesa Isabel : temas avançados para seu tempo em carta na qual dom Pedro II é "papai". A saudação final era usada só para mulheres, e a assinatura foge ao padrão utilizado pela princesa durante o Império

A princesa Isabel é personagem dos mais interessantes da história do Brasil. Mulher e segunda na linha de sucessão do imperador dom Pedro II, dificilmente teria lugar de destaque na posteridade. No entanto, acabou protagonista da abolição da escravatura. Na semana passada, uma carta a ela atribuída pareceu trazer revelações sobre a princesa, mostrando-a como uma mulher politizada e à frente de seu tempo. Dirigida ao visconde de Santa Victoria, a carta é datada de 11 de agosto de 1889. Nela, Isabel agradece "o envio dos fundos de seo Banco em forma de doação como indenização aos ex-escravos libertos em 13 de Maio". A idéia, de acordo com o texto divulgado pela revista Nossa História e mostrado pelo Fantástico no domingo passado, era "collocar esses ex-escravos, agora livres, em terras suas próprias trabalhando na agricultura e na pecuária e dellas tirando seos próprios proventos".

Figuras de proa do movimento abolicionista, como André Rebouças e Joaquim Nabuco, defendiam a doação de terras a ex-escravos, como parte de um conjunto de medidas compensatórias. Mas não se tinha notícia de que a princesa compartilhava essas preocupações. Tampouco se sabia que Isabel era defensora do voto feminino e pretendia dedicar-se a "libertar as mulheres dos grilhões do captiveiro domestico". Essa é uma formulação de espantosa contemporaneidade, mesmo na avaliação de estudiosos que atribuem à princesa papel mais relevante que o de mera sancionadora da Lei Áurea, como o professor Humberto Fernandes Machado, da Universidade Federal Fluminense.

A carta foge aos padrões da correspondência da princesa. O documento, que pertence ao Memorial Visconde de Mauá, acervo privado dos descendentes de Mauá e Santa Victoria, causou estranheza. Em correspondência formal, na qual se dirige ao destinatário como "Caro Snr.Visconde de Santa Victoria", a princesa refere-se a dom Pedro II como "papai". A forma usual seria "o Imperador". Na avaliação do embaixador João Hermes Pereira de Araújo, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e ex-diretor do Museu Histórico e Diplomático do Itamaraty, o documento precisa ser mais bem entendido antes de ser dado como legítimo. "Se utilizasse a referência familiar, Isabel usaria Papae, com inicial maiúscula e 'e' final", diz o embaixador. Fátima Argon, chefe do Arquivo Histórico do Museu Imperial de Petrópolis, também estranhou o uso de "papai" pela princesa. Mas ressalva que a correspondência dela, ao contrário do que dizem outros especialistas, não segue um padrão rígido.

A assinatura "Isabel" também é intrigante. Mesmo em cartas a amigas próximas e a seus pais, depois de casada e enquanto durou o Império, a princesa assinou-se "Isabel Condessa d'Eu". "Isabel" aparece em sua correspondência com o marido e os filhos e no exílio, depois da proclamação da República – caso da carta dirigida ao papa Leão XIII por ocasião da morte de dom Pedro II, que está no Museu Imperial. Outro ponto obscuro é a saudação "Muito do coração". No arquivo de Petrópolis, Fátima Argon só localizou cartas com esse tipo de despedida dirigidas a amigas da princesa. Quando dirigidas a homens, há mais formalidade – "Creia-me sempre sua amiga" (ao visconde de Santa Isabel). Diz Fátima Argon: "O documento traz muito mais indagações do que respostas".

 
 
 
 
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