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História Sob
o império da dúvida Carta
atribuída à princesa Isabel fala em reforma agrária e
voto feminino e cria polêmica entre especialistas  Lucila
Soares
 | NA
BERLINDA A carta da princesa Isabel : temas avançados
para seu tempo em carta na qual dom Pedro II é "papai". A saudação
final era usada só para mulheres, e a assinatura foge ao padrão
utilizado pela princesa durante o Império |
A princesa Isabel é personagem dos mais interessantes da história
do Brasil. Mulher e segunda na linha de sucessão do imperador dom Pedro
II, dificilmente teria lugar de destaque na posteridade. No entanto, acabou protagonista
da abolição da escravatura. Na semana passada, uma carta a ela atribuída
pareceu trazer revelações sobre a princesa, mostrando-a como uma
mulher politizada e à frente de seu tempo. Dirigida ao visconde de Santa
Victoria, a carta é datada de 11 de agosto de 1889. Nela, Isabel agradece
"o envio dos fundos de seo Banco em forma de doação como indenização
aos ex-escravos libertos em 13 de Maio". A idéia, de acordo com o texto
divulgado pela revista Nossa História e mostrado pelo Fantástico
no domingo passado, era "collocar esses ex-escravos, agora livres, em terras
suas próprias trabalhando na agricultura e na pecuária e dellas
tirando seos próprios proventos".
Figuras de proa do movimento abolicionista, como André Rebouças
e Joaquim Nabuco, defendiam a doação de terras a ex-escravos, como
parte de um conjunto de medidas compensatórias. Mas não se tinha
notícia de que a princesa compartilhava essas preocupações.
Tampouco se sabia que Isabel era defensora do voto feminino e pretendia dedicar-se
a "libertar as mulheres dos grilhões do captiveiro domestico". Essa
é uma formulação de espantosa contemporaneidade, mesmo na
avaliação de estudiosos que atribuem à princesa papel mais
relevante que o de mera sancionadora da Lei Áurea, como o professor Humberto
Fernandes Machado, da Universidade Federal Fluminense.
A carta foge aos padrões da correspondência da princesa. O documento,
que pertence ao Memorial Visconde de Mauá, acervo privado dos descendentes
de Mauá e Santa Victoria, causou estranheza. Em correspondência formal,
na qual se dirige ao destinatário como "Caro Snr.Visconde de Santa Victoria",
a princesa refere-se a dom Pedro II como "papai". A forma usual seria "o Imperador".
Na avaliação do embaixador João Hermes Pereira de Araújo,
do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e ex-diretor do Museu
Histórico e Diplomático do Itamaraty, o documento precisa ser mais
bem entendido antes de ser dado como legítimo. "Se utilizasse a referência
familiar, Isabel usaria Papae, com inicial maiúscula e 'e' final",
diz o embaixador. Fátima Argon, chefe do Arquivo Histórico do Museu
Imperial de Petrópolis, também estranhou o uso de "papai" pela princesa.
Mas ressalva que a correspondência dela, ao contrário do que dizem
outros especialistas, não segue um padrão rígido.
A assinatura "Isabel" também é intrigante. Mesmo em cartas a amigas
próximas e a seus pais, depois de casada e enquanto durou o Império,
a princesa assinou-se "Isabel Condessa d'Eu". "Isabel" aparece em sua correspondência
com o marido e os filhos e no exílio, depois da proclamação
da República caso da carta dirigida ao papa Leão XIII por
ocasião da morte de dom Pedro II, que está no Museu Imperial. Outro
ponto obscuro é a saudação "Muito do coração".
No arquivo de Petrópolis, Fátima Argon só localizou cartas
com esse tipo de despedida dirigidas a amigas da princesa. Quando dirigidas a
homens, há mais formalidade "Creia-me sempre sua amiga" (ao
visconde de Santa Isabel). Diz Fátima Argon: "O documento traz muito mais
indagações do que respostas". |