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Especial
Os líderes e o liderado
A
nacionalização do gás boliviano mostra que Chávez
é o líder da América Latina. E Lula? Ele não conseguiu
entender sequer quais são os interesses brasileiros no caso 
Diogo Schelp
Adalberto Roque/AFP  | Celso
Junior/AE  |
LOS TRES AMIGOS
Chávez, Fidel Castro e Morales reúnem-se em Cuba dois dias
antes de o boliviano decretar a nacionalização do gás no
país: Lula, que se considera da turma, foi o último a saber |
O Brasil levou um chute no traseiro dado por Hugo
Chávez e seu fantoche boliviano, Evo Morales. Antes, foram ambos a Cuba
pedir a bênção do patriarca Fidel Castro para o que planejavam
fazer. Nenhum desses companheiros se deu à delicadeza de avisar o ocupante
do Palácio do Planalto, que se julgava um líder regional com estofo
até para ser líder mundial. Pobre Lula. Foi o último a saber
que o presidente Morales iria se apossar de propriedades brasileiras na Bolívia
e colocar em risco o abastecimento nacional de gás natural. A reação
do presidente Lula foi ainda mais constrangedora: engoliu o desaforo e ainda se
solidarizou com o agressor, a Bolívia. Para
ampliar o efeito pirotécnico, Evo Morales escolheu o Dia do Trabalho, 100º
de sua posse na Presidência, e comandou pessoalmente as tropas que tomaram
a refinaria da Petrobras em San Alberto, o maior campo de extração
de gás natural da Bolívia. Lá, de capacete de petroleiro
na cabeça, o presidente leu os nove pontos do "Decreto Supremo" que passou
para o controle do Estado boliviano toda a indústria do gás e do
petróleo. O documento não fala em indenizar as empresas estatizadas.
As vinte companhias estrangeiras atingidas pelo decreto investiram, ao todo, 3,5
bilhões de dólares na Bolívia mas o prejuízo
maior é da Petrobras, que aplicou 1 bilhão de dólares na
extração e refino e outros 2 bilhões de dólares na
construção do gasoduto que leva o produto até São
Paulo. A intenção de
nacionalizar as riquezas do subsolo era uma promessa de campanha de Morales e
foi preparada nos bastidores com a ajuda de um pelotão de técnicos
e advogados venezuelanos enviados por Chávez. Apesar de todos esses indícios
prévios, o governo brasileiro foi pego de surpresa e se apressou em declarar
que a Bolívia tem direito às riquezas de seu subsolo. Isso é
inegável. A soberania permanente de um país sobre seus recursos
naturais é reconhecida pela ONU desde 1962. O ponto é que Morales
expropriou ativos que pertencem ao povo brasileiro e rasgou, como se não
valessem nada, tratados negociados de Estado para Estado nos últimos trinta
anos. A ocupação de modo hostil, com o uso de tropas e sem conversações
prévias, contraria o estabelecido no direito internacional e também
as regras mínimas de convivência entre dois países que tradicionalmente
são bons vizinhos.
Evaristo Sa/AFP  | Abi/AFP
 | MUCHAS
GRACIAS,
LULA
Morales recebeu o apoio de Lula quando estava em campanha (à esq., em
visita a Brasília, em novembro) e lhe passou a perna no poder (à
dir., expropriando instalações da Petrobras, na Bolívia)
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O próximo passo, já
avisou o governo boliviano, é aumentar os preços do gás natural
fornecido ao Brasil. A ameaça é tremenda e pode se transformar num
beco sem saída se o governo brasileiro não negociar com firmeza.
Com o aumento do preço do produto, o prejuízo ultrapassaria as perdas
diretas da Petrobras e atingiria diretamente a indústria paulista, que
nos últimos anos foi incentivada a investir no uso do gás natural
como fonte energética. O produto extraído na Bolívia responde
por metade do consumo brasileiro e a reconversão das fábricas ou
a descoberta de fontes alternativas podem levar anos. Nem assim Lula reagiu. "O
governo deveria ter saído imediatamente na defesa dos interesses nacionais",
diz Rubens Barbosa, ex-embaixador brasileiro em Washington. "Depois de anunciar
a determinação de defender os interesses nacionais, deveria questionar
a quebra de contrato e avisar que pediria indenização pela expropriação.
Também deveria ter deixado claro que não aceitaria modificação
unilateral no preço do gás."
Lula não fez nada disso. Na quinta-feira passada, o presidente brasileiro
foi discutir a crise numa reunião em Puerto Iguazú, na Argentina,
à qual compareceram Evo Morales, o argentino Néstor Kirchner e o
ubíquo Chávez. A presença da Argentina se entende, pois o
país também compra gás da Bolívia, mas por que a Venezuela?
A resposta possível: Chávez foi falar em nome de Morales, seu discípulo,
e deixar claro quem dá as cartas na nova geografia do populismo latino-americano.
Lula saiu da reunião desenxabido e, como de praxe, confundiu conceitos.
No seu entender, manifestar solidariedade à Bolívia, mesmo quando
ela se apossa de um patrimônio que é de todos os brasileiros, significa
emitir um sinal positivo de solidariedade continental. A reafirmação
da unidade sul-americana, explicou, tranqüiliza os investidores estrangeiros.
Seria mais sensato esperar o efeito totalmente inverso.
O incidente expõe as fraturas regionais e deixa explícito o vigor
do novo ciclo de populismo na América Latina, que tem Hugo Chávez
e Evo Morales como expoentes. A influência de Chávez na decisão
boliviana de nacionalizar o gás já está provocando instabilidade
política e econômica. Começa com a saída da Venezuela
do Pacto Andino, o que estremeceu as relações entre Caracas e Bogotá.
Devido à intromissão de Chávez nas eleições
peruanas, Lima retirou seu embaixador da Venezuela. Agora, Chávez arruinou
as relações entre o Brasil e a Bolívia. O que ficará
na memória dos investidores internacionais é o alerta para evitar
uma região sem lei e sem ordem, onde os contratos são desrespeitados.
Isso é fácil de fazer, pois não faltam, do outro lado do
planeta, oportunidades de investimentos em países sérios e estáveis.
A desimportância crescente da América Latina no panorama mundial
torna as coisas ainda piores: ninguém no Primeiro Mundo liga mais para
as estripulias cometidas por aqui.
Jorge Araujo/Folha Imagem  |
SOLDADOS CONTRA A FORTALEZA
DA PETROBRAS Soldados e funcionários bolivianos na refinaria
da Petrobras em Santa Cruz, ocupada pelo Exército de Morales, na quarta-feira,
dois dias depois do decreto de nacionalização, recebido com júbilo
por uma multidão em La Paz (abaixo) | Jose
Luis Quintana/Reuters  |
A economia da Bolívia, o país
mais pobre da América do Sul, caberia com folga dentro do orçamento
da cidade de São Paulo. Sem capital nem tecnologia, não há
jeito de o Estado boliviano realizar os grandes investimentos necessários
para tirar e processar o gás natural. Evo Morales sentiu-se à vontade
para tomar as refinarias confiando em duas coisas. A primeira é o fato
de o Brasil ser freguês cativo do gás boliviano. A segunda é
a ajuda de Hugo Chávez. A estatal de petróleo da Venezuela, a PDVSA,
prepara-se, nas sombras, para assumir os campos de gás que venham a ser
abandonados por empresas estrangeiras. Chávez também já acertou
o fornecimento de todo o óleo diesel que a Bolívia necessitar em
troca de soja boliviana. Trata-se de uma política consistente do venezuelano
para ocupar espaço no continente e influenciar países. Desde que
assumiu a Presidência, em 1999, Chávez já gastou 25 bilhões
de dólares em subsídios e doações a países
latino-americanos. Com seu sistema
de apadrinhamento comercial, ele está tentando criar uma versão
latinizada do antigo Comecon, o sistema comercial entre os países do bloco
soviético. Dadas a fragilidade das economias comunistas e a infinita superioridade
material da União Soviética, os preços internos do Comecon
não correspondiam aos custos de produção e eram decididos
de acordo com critérios políticos. Alguns países, como Cuba
e Mongólia, dependiam inteiramente desse sistema para sobreviver. Com o
barril do petróleo a 70 dólares, Chávez tem cacife para substituir
a União Soviética como provedor de Cuba. Estima-se que a Venezuela
esteja injetando na ilha de Fidel Castro, a fundo perdido, o equivalente a 20%
de todo o dinheiro que entra no país. A Venezuela também compra
produtos cubanos que não têm mercado no exterior e, em troca, recebe
médicos e outros serviços de Fidel Castro. O presidente venezuelano
já comprou 1 bilhão de dólares em títulos do governo
argentino e 250 milhões de dólares da dívida externa equatoriana.
"A estratégia de Chávez é exercer influência sobre
quatro pequenos países, Nicarágua, Bolívia, Equador e Peru,
para disputar poder com México, Chile e Brasil", disse a VEJA Jorge Quiroga,
presidente boliviano entre 2001 e 2002, e hoje líder da oposição
a Morales. Estabeleceu-se uma divisão
na América Latina e ela nada tem a ver com o velho confronto entre esquerda
e direita. O que existe é uma linha entre governos responsáveis
e populistas. México, Chile e Brasil estão no primeiro grupo. Uma
característica comum aos populistas Chávez, Morales e, em
menor medida, Néstor Kirchner é revestir o discurso com retórica
de esquerda. Na verdade, os contornos ideológicos do populismo são
difusos e vão sendo moldados de acordo com as circunstâncias. A revolução
bolivariana e o socialismo do século XXI de Chávez são uma
demonstração disso. Nem Chávez sabe do que se trata. O que
importa para esse tipo de líder é criar argumentos e mecanismos
para se perpetuar no poder. Por isso, costuma-se dizer que uma das características
do déspota latino-americano é o voluntarismo, doutrina que atribui
à determinação do líder o poder de mudar a realidade
a seu bel-prazer. A atitude de Morales na Bolívia obedece ao padrão.
"A nacionalização é o grande símbolo do populismo
latino-americano", disse a VEJA o historiador peruano Alvaro Vargas Llosa. "Infelizmente,
as pessoas rapidamente esquecem que todas as estatizações fracassaram
de modo catastrófico." Essa é a terceira vez que a Bolívia
estatiza seus recursos fósseis e minerais. Nas duas anteriores, em 1937
e 1969, a intervenção não ajudou o país a amenizar
a miséria de seu povo e, por isso, acabou sendo revertida.
Antonio Scorza/AFP  |
ESFORÇO INÚTIL
Kirchner, Morales, Lula e Chávez em reunião em Puerto Iguazú,
na Argentina, para discutir a nacionalização boliviana: o que Chávez,
que não compra gás da Bolívia, foi fazer lá? |
O sociólogo alemão Franz
Oppenheimer, morto em 1943, dizia que há duas formas de uma nação
acumular riqueza: de maneira racional, através da produção,
ou de maneira violenta, por meio da expropriação. Apenas a primeira
forma pode ser duradoura. O presidente Evo Morales escolheu a segunda ao nacionalizar
a exploração e comercialização do gás e do
petróleo por decreto. No imaginário popular boliviano do
qual Morales compartilha e se aproveita politicamente , a riqueza oculta
do gás vai sanar a miséria e o atraso do país. Um estudo
da ONU publicado no ano passado, com o título "A economia boliviana além
do gás", diz que o maior erro da Bolívia é apostar em um
padrão de desenvolvimento monoprodutor. "A tendência mundial é
de diversificar os mercados, multiplicando os setores produtivos e passando de
uma economia de base estreita para uma de base mais ampla", sentencia o estudo,
de autoria do economista boliviano George Gray Molina. O mundo é pródigo
em exemplos de como a simples existência de uma riqueza natural não
basta para garantir bem-estar à população. A Venezuela, com
as maiores reservas de petróleo fora do Oriente Médio, tem metade
da população vivendo na pobreza. Angola, um dos maiores produtores
de diamante de alta qualidade do mundo, tem um terço da renda per capita
do Brasil. Golda Meir, a primeira-ministra
de Israel entre 1969 e 1974, contava, em tom de anedota, que Moisés guiou
os judeus durante quarenta anos pelo deserto para levá-los justamente ao
único pedaço de areia do Oriente Médio onde não havia
petróleo. Completava, em tom mais severo, que não se tratou de maldição,
mas de uma bênção. "Nossas vitórias não poderiam
existir sem uma economia de base sólida, um padrão educacional de
alto nível entre soldados e civis e a alta capacitação tecnológica
dos trabalhadores em todos os setores", explicava. A estadista israelense tocou
naquelas que são as duas principais riquezas de um povo: a educação
e o conhecimento tecnológico. "Para ser rico, um país precisa investir
em ciência e tecnologia. É dessa forma que se consegue elevar a capacidade
das indústrias de produzir melhor e ser mais competitivo no mercado mundial",
diz Roberto Romano, professor de ética e política na Universidade
Estadual de Campinas. "Foi esse o modelo adotado por Inglaterra, França,
Itália, Alemanha, Japão e Estados Unidos países que
têm a riqueza mais bem distribuída entre a população."
Por que a América Latina não consegue imitar essa fórmula
comprovada para o desenvolvimento? "Vivemos obcecados com a discussão sobre
se o livre-mercado é bom ou não, em vez de nos preocuparmos em ser
mais competitivos", disse a VEJA o argentino Andrés Oppenheimer, autor
do livro Lorotas Chinesas . O Engano de Washington, a Mentira Populista
e a Esperança na América Latina", best-seller na Argentina e
no México, publicado no ano passado.
Reuters  |
SOLIZ, O BOCA DE POÇO
Ministro de Hidrocarbonetos boliviano, Andrés Soliz Rada: anos
de campanha contra a Petrobras |
A América Latina continua a ser exportadora de matéria-prima, enquanto
no mundo de hoje o que conta é o valor do conhecimento embutido em um produto.
Morales, na Bolívia, tem outra explicação para a pobreza:
a culpa é do imperialismo. Surpreende bastante, mas ele está falando
dos brasileiros. Entre os bolivianos comuns há uma forte aversão
ao "imperialismo" do Brasil. É possível que isso seja simplesmente
um reflexo do gigantismo brasileiro, que suscita temor entre vizinhos menores.
"Quem dorme ao lado do elefante teme ser pisoteado", diz um diplomata brasileiro.
De forma um tanto obtusa, a Petrobras acabou se convertendo, na cabeça
dos bolivianos, no protótipo da empresa exploradora dos recursos que deveriam
salvá-los da miséria. O ministro de Hidrocarbonetos, Andrés
Soliz Rada, apelidado pelos bolivianos de Boca de Poço, chama atenção
pelos dentes desproporcionalmente grandes e pelo modo furioso como se refere à
Petrobras. Jornalista antes de ser ministro, sempre escreveu sobre os recursos
naturais bolivianos e pregou a urgência em expulsar a empresa brasileira.
Seria mais sensato e honesto se agradecesse a contribuição da Petrobras
ao desenvolvimento boliviano. A empresa extrai 57% do gás produzido pela
Bolívia, contribui com 24% da arrecadação de impostos e tem
sua bandeira em um em cada quatro postos de gasolina no país.
A opção brasileira pelo gás natural foi estratégica.
O plano era reduzir a dependência que o Brasil possui em relação
ao petróleo e à energia produzida pelas usinas hidrelétricas.
O gasoduto BolíviaBrasil entrou em operação em 1999.
Tem capacidade para transportar 30 milhões de metros cúbicos por
dia, mas, até recentemente, operava com grande ociosidade. Contratualmente,
o Brasil era obrigado a pagar aos bolivianos por um gás que não
estava utilizando. Houve várias negociações, com diferentes
governantes do país vizinho, para que o preço fosse reduzido, mas
a Bolívia, escorando-se nos contratos firmados bilateralmente, permaneceu
irredutível. Agora que finalmente o Brasil precisa do gasoduto em plena
força, a Bolívia joga os contratos na lata do lixo aqueles
mesmos que defendia com tanta veemência e resolução.
O gás natural como opção
energética ganhou força com o racionamento de energia, em 2001,
que lançou incertezas sobre a disponibilidade de eletricidade. Com o gás,
as empresas podem produzir a própria eletricidade, utilizando para isso
geradores especiais. Outro fator que impulsionou a vendagem do gás natural
foi a escalada no preço do petróleo. O gás liquefeito de
petróleo (GLP), o popular gás de botijão, é um derivado
do petróleo e chega a custar 80% mais do que o natural. Houve também
um forte avanço na utilização automotiva. A frota nacional
de carros convertidos para rodar com o gás natural veicular (GNV), um combustível
bem mais em conta do que a gasolina, já passa de 1 milhão. Em 2000,
o Brasil consumiu 16 milhões de metros cúbicos por dia. No ano passado,
o total atingiu 40 milhões de metros cúbicos, sendo quase a metade
originária da Bolívia. Hoje, o gás natural responde por 8%
da matriz energética brasileira. Qualquer alteração nas relações
atuais será imediatamente repassada ao consumidor. As indústrias
seriam incapazes de absorver um aumento nos preços desse combustível.
Se o pior ocorrer, mais uma vez quem pagará a conta será a população
brasileira.
 
Foto Sergio Castro/AE |
Com reportagem de José Eduardo Barella,
de La Paz, Giuliano Guandalini, Leoleli Camargo, Renata Leão, Duda
Teixeira e Thomaz Favaro
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