|
|
Psicologia Silêncio
que preocupa Crianças que quase
não falam podem ser vítimas de um distúrbio pouco
conhecido: o mutismo seletivo  Érica
Chaves
Lailson
Santos
 | | Tayná:
antes da recuperação, dificuldade até para pedir um copo
d'água |
Crianças muito quietas, que
na escola falam pouco com os colegas e têm dificuldade para responder às
perguntas do professor, costumam ser classificadas de tímidas. Estudos
na área da psicologia infantil mostram que crianças com esse perfil
podem, na verdade, sofrer de um distúrbio de fundo emocional: o mutismo
seletivo. Em geral, a criança acometida desse transtorno comporta-se de
maneira contraditória. Em casa, conversa normalmente com os pais e brinca
com os irmãos, mas, quando um adulto de fora do círculo familiar
incluindo professores ou uma criança que não conhece
lhe dirige a palavra, ela permanece muda, demonstrando ansiedade, nervosismo ou,
em certas ocasiões, pânico. Na escola, às vezes não
consegue sequer pedir para ir ao banheiro e em alguns casos se comunica apenas
por gestos. Até há pouco tempo, pensava-se que esse distúrbio
atingia uma em cada 1 000 crianças. Recentemente, um estudo desenvolvido
pela American Academy of Child and Adolescent Psychiatry mostrou que essa proporção
é de sete para 1 000, o que torna o mutismo seletivo duas vezes mais freqüente
do que o autismo. Segundo psiquiatras
e psicólogos, o mutismo seletivo surge da conjunção de vários
fatores. Quase sempre ele é deflagrado por uma experiência negativa
pela qual a criança passou uma violência física ou
verbal, ou uma grande decepção. A genética também
conta: estatísticas mostram que 70% das crianças afetadas pelo transtorno
têm um parente próximo com histórico de perturbações
psicológicas. A observação do comportamento dos pais no trato
com outras pessoas e suas alterações de humor podem dar à
criança impressões falsas sobre o relacionamento humano, gerando
um comportamento fóbico. Por fim, o próprio temperamento da criança
concorre para o aparecimento do distúrbio. "Nem sempre é fácil
chegar ao diagnóstico de mutismo seletivo", diz Rinaldo Voltolini, professor
de psicologia da educação da Universidade de São Paulo. "Ao
contrário da criança hiperativa, cujo comportamento agitado chama
a atenção de todo mundo, a criança com mutismo seletivo não
perturba ninguém e passa por quietinha", ele completa.
A menina paulista Tayná Wilde de Moraes, de 11 anos, foi diagnosticada
com mutismo seletivo aos 7. A família notava que ela apresentava dificuldades
em falar com adultos. Em situações banais, como agradecer um presente
que recebia ou pedir um copo d'água na casa de outras pessoas, as palavras
não lhe saíam da garganta. Quando Tayná mudou de escola para
cursar a 1ª série, não conseguiu fazer amigos nem respondia
às professoras. "Ela estava sofrendo muito, não tinha sociabilidade
alguma e não aprendia as lições", conta a mãe de Tayná,
Ita Perla Wilde. Quando a menina repetiu o ano, Ita teve certeza de que algo estava
errado com a filha. Depois de consultas a psiquiatras e neurologistas, Tayná
se submeteu ao tratamento mais freqüente para o mutismo seletivo: remédios
antidepressivos e ludoterapia. Hoje está praticamente recuperada. "Os pais
precisam estar atentos para o fato de que atrás da aparente timidez pode
haver um problema mais sério", alerta o psiquiatra Marcelino Bandim, professor
da Universidade Federal de Pernambuco. "Na dúvida, o melhor é encaminhar
a criança a um especialista." |