Edição 1955 . 10 de maio de 2006

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Psicologia
Silêncio que preocupa

Crianças que quase não falam
podem ser vítimas de um distúrbio
pouco conhecido: o mutismo seletivo


Érica Chaves

 

Lailson Santos
Tayná: antes da recuperação, dificuldade até para pedir um copo d'água


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Mutismo seletivo

Crianças muito quietas, que na escola falam pouco com os colegas e têm dificuldade para responder às perguntas do professor, costumam ser classificadas de tímidas. Estudos na área da psicologia infantil mostram que crianças com esse perfil podem, na verdade, sofrer de um distúrbio de fundo emocional: o mutismo seletivo. Em geral, a criança acometida desse transtorno comporta-se de maneira contraditória. Em casa, conversa normalmente com os pais e brinca com os irmãos, mas, quando um adulto de fora do círculo familiar – incluindo professores – ou uma criança que não conhece lhe dirige a palavra, ela permanece muda, demonstrando ansiedade, nervosismo ou, em certas ocasiões, pânico. Na escola, às vezes não consegue sequer pedir para ir ao banheiro e em alguns casos se comunica apenas por gestos. Até há pouco tempo, pensava-se que esse distúrbio atingia uma em cada 1 000 crianças. Recentemente, um estudo desenvolvido pela American Academy of Child and Adolescent Psychiatry mostrou que essa proporção é de sete para 1 000, o que torna o mutismo seletivo duas vezes mais freqüente do que o autismo.

Segundo psiquiatras e psicólogos, o mutismo seletivo surge da conjunção de vários fatores. Quase sempre ele é deflagrado por uma experiência negativa pela qual a criança passou – uma violência física ou verbal, ou uma grande decepção. A genética também conta: estatísticas mostram que 70% das crianças afetadas pelo transtorno têm um parente próximo com histórico de perturbações psicológicas. A observação do comportamento dos pais no trato com outras pessoas e suas alterações de humor podem dar à criança impressões falsas sobre o relacionamento humano, gerando um comportamento fóbico. Por fim, o próprio temperamento da criança concorre para o aparecimento do distúrbio. "Nem sempre é fácil chegar ao diagnóstico de mutismo seletivo", diz Rinaldo Voltolini, professor de psicologia da educação da Universidade de São Paulo. "Ao contrário da criança hiperativa, cujo comportamento agitado chama a atenção de todo mundo, a criança com mutismo seletivo não perturba ninguém e passa por quietinha", ele completa.

A menina paulista Tayná Wilde de Moraes, de 11 anos, foi diagnosticada com mutismo seletivo aos 7. A família notava que ela apresentava dificuldades em falar com adultos. Em situações banais, como agradecer um presente que recebia ou pedir um copo d'água na casa de outras pessoas, as palavras não lhe saíam da garganta. Quando Tayná mudou de escola para cursar a 1ª série, não conseguiu fazer amigos nem respondia às professoras. "Ela estava sofrendo muito, não tinha sociabilidade alguma e não aprendia as lições", conta a mãe de Tayná, Ita Perla Wilde. Quando a menina repetiu o ano, Ita teve certeza de que algo estava errado com a filha. Depois de consultas a psiquiatras e neurologistas, Tayná se submeteu ao tratamento mais freqüente para o mutismo seletivo: remédios antidepressivos e ludoterapia. Hoje está praticamente recuperada. "Os pais precisam estar atentos para o fato de que atrás da aparente timidez pode haver um problema mais sério", alerta o psiquiatra Marcelino Bandim, professor da Universidade Federal de Pernambuco. "Na dúvida, o melhor é encaminhar a criança a um especialista."

 
 
 
 
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