Edição 1955 . 10 de maio de 2006

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Moda
Tradição e transgressão

Esse é o nome – perfeito – da exposição
que mostra como a Inglaterra concilia
o velho e o novíssimo

 
Fotos Richard Drew/AP
O longo desenhado por Worth no século XIX e os punks dos anos 70 (com a jaqueta de Johnny Rotten ao fundo): a Inglaterra em dois tempos

Pelas janelas, dá para ver a chuva constante. Ao pé de uma escada palaciana, uma aristocrata desfila a glória de um vestido que só muitos séculos de nobreza (e de divisão de classes) podem acomodar. Ali do lado, a turma punk rola pelo chão, literalmente. Um usa penteado moicano composto de tampões higiênicos, o colar de outro traz um receptáculo de, como dizer?, fluidos corporais masculinos. Onde estamos? Na Inglaterra, é claro. Mas, embora todos os componentes sejam verdadeiros, é uma Inglaterra fictícia. Os personagens são manequins, a chuva é projetada eletronicamente e as cenas acontecem em Nova York. Tudo faz parte de uma das mais instigantes exposições sobre moda já organizadas. AngloMania: Tradição e Transgressão na Moda Britânica está em cartaz desde a semana passada no Metropolitan Museum, dentro do espírito provocante e altamente cenográfico que as exibições do gênero têm no museu.

Stuart Ramson/AP
Gisele, de Dior, na festa de abertura da exposição: ofuscante entre as estrelas


Quem tiver tempo, fôlego ou interesse por moda, mesmo que remoto, depois de enfrentar as intermináveis exposições permanentes, certamente se surpreenderá com a montagem. Quem não tem nada disso, mas é muito, muito importante, já viu tudo: a noite de inauguração foi uma das festas mais estreladas do ano em Nova York. Estavam lá desde as mulheres que todos os estilistas sonham em vestir – e os não-estilistas em despir –, como as atrizes Sienna Miller, Scarlett Johansson e Sarah Jessica Parker, além de uma inacreditavelmente deslumbrante Gisele Bündchen, até os próprios autores das roupas esplendorosas que se revezavam dentro e fora da exposição. Dispostos em cenários com manequins no conjunto de salas com pinturas e mobiliário de época da Inglaterra, que fazem parte do acervo permanente do museu, os modelos retratam à perfeição a dicotomia exposta no título da exposição. "É uma mistura de passado e presente. Acho que a energia criativa na Inglaterra é, em grande parte, resultado do choque entre os dois. A transgressão só existe quando há tradição contra a qual se rebelar", explica Andrew Bolton, curador da exposição e diretor do Costume Institute, nicho de moda do museu.

Do ponto de vista sociológico, o encanto da exposição é justamente mostrar as contradições de um país onde a alta moda jamais fincou pé, o vestuário destinado às massas produziu algumas das roupas mais desenxabidas de todos os tempos e, simultaneamente, nasceram modismos que fizeram história, desde a minissaia até todas as variações conhecidas do estilo roqueiro. Hoje, o maior celeiro de talentos que alimenta a moda em escala global está na St. Martins School, de Londres, por onde passaram Alexander McQueen, John Galliano, Stella McCartney, Phoebe Philo – todos atuais ou ex-criadores das grandes grifes de Paris, as quais desde sempre beberam no vigor e na ousadia libertária dos britânicos para criar suas muito francesas obras-primas. "Eu resolvi começar a parte moderna da mostra em 1976, ano oficial do nascimento do punk, porque aí se deu uma virada na cultura", diz Bolton. Daí a onipresença da veterana Vivienne Westwood, inventora do punk na moda, e de McQueen, discípulo mais jovem e mais anárquico ainda. Os jovens, ou já bem passados, adoradores dos Sex Pistols provavelmente se prostrarão diante da jaqueta que Johnny Rotten usou na primeira turnê do grupo nos Estados Unidos e agora doou ao museu ("Minha mulher achou em casa, cheia de buracos de traça", disse Rotten, hoje de volta ao mais convencional Lydon).

 
Fotos Richard Drew/AP
O talento inglês conquista os ateliês de Paris: desenhos escuros no branco de Worth, penas de corvo complementando o negro de Galliano para Dior

Dividida em seis "cenários típicos", AngloMania, um termo cunhado no século XVIII, quando a Europa continental se apaixonou por tudo o que era inglês, mostra didaticamente o elo entre as mais tradicionais criações do passado e as mais originais roupas do presente. Saltam aos olhos, por exemplo, as similitudes entre Charles Frederick Worth, inglês que se estabeleceu em Paris em meados do século XIX e ajudou a inventar a haute couture, e John Galliano, o furacão criativo que revolucionou a maison Dior. São de Worth dois dos vestidos de época mais magníficos da exposição, um com motivos de folhagem – e 3 metros de cauda –, o outro com arabescos bordados em seda preta sobre cetim branco. É de Galliano o monumental vestido negro complementado por um arranjo de cabeça em penas de corvo, ao som do crocitar do próprio. Vê-los juntos é entender como a Inglaterra foi, é e provavelmente continuará sendo: uma ilha de transgressão cercada de tradição por todos os lados. Ou vice-versa.

 
 
 
 
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