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Moda Tradição
e transgressão Esse é o nome
perfeito da exposição que mostra como a Inglaterra concilia
o velho e o novíssimo
Fotos Richard Drew/AP
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longo desenhado por Worth no século XIX e os punks dos anos 70 (com
a jaqueta de Johnny Rotten ao fundo): a Inglaterra em dois tempos |  |
Pelas
janelas, dá para ver a chuva constante. Ao pé de uma escada palaciana,
uma aristocrata desfila a glória de um vestido que só muitos séculos
de nobreza (e de divisão de classes) podem acomodar. Ali do lado, a turma
punk rola pelo chão, literalmente. Um usa penteado moicano composto de
tampões higiênicos, o colar de outro traz um receptáculo de,
como dizer?, fluidos corporais masculinos. Onde estamos? Na Inglaterra, é
claro. Mas, embora todos os componentes sejam verdadeiros, é uma Inglaterra
fictícia. Os personagens são manequins, a chuva é projetada
eletronicamente e as cenas acontecem em Nova York. Tudo faz parte de uma das mais
instigantes exposições sobre moda já organizadas. AngloMania:
Tradição e Transgressão na Moda Britânica está
em cartaz desde a semana passada no Metropolitan Museum, dentro do espírito
provocante e altamente cenográfico que as exibições do gênero
têm no museu.
Stuart
Ramson/AP
 | | Gisele,
de Dior, na festa de abertura da exposição: ofuscante entre as estrelas
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Quem tiver tempo, fôlego ou
interesse por moda, mesmo que remoto, depois de enfrentar as intermináveis
exposições permanentes, certamente se surpreenderá com a
montagem. Quem não tem nada disso, mas é muito, muito importante,
já viu tudo: a noite de inauguração foi uma das festas mais
estreladas do ano em Nova York. Estavam lá desde as mulheres que todos
os estilistas sonham em vestir e os não-estilistas em despir ,
como as atrizes Sienna Miller, Scarlett Johansson e Sarah Jessica Parker, além
de uma inacreditavelmente deslumbrante Gisele Bündchen, até os próprios
autores das roupas esplendorosas que se revezavam dentro e fora da exposição.
Dispostos em cenários com manequins no conjunto de salas com pinturas e
mobiliário de época da Inglaterra, que fazem parte do acervo permanente
do museu, os modelos retratam à perfeição a dicotomia exposta
no título da exposição. "É uma mistura de passado
e presente. Acho que a energia criativa na Inglaterra é, em grande parte,
resultado do choque entre os dois. A transgressão só existe quando
há tradição contra a qual se rebelar", explica Andrew Bolton,
curador da exposição e diretor do Costume Institute, nicho de moda
do museu.
Do ponto de vista sociológico,
o encanto da exposição é justamente mostrar as contradições
de um país onde a alta moda jamais fincou pé, o vestuário
destinado às massas produziu algumas das roupas mais desenxabidas de todos
os tempos e, simultaneamente, nasceram modismos que fizeram história, desde
a minissaia até todas as variações conhecidas do estilo roqueiro.
Hoje, o maior celeiro de talentos que alimenta a moda em escala global está
na St. Martins School, de Londres, por onde passaram Alexander McQueen, John Galliano,
Stella McCartney, Phoebe Philo todos atuais ou ex-criadores das grandes
grifes de Paris, as quais desde sempre beberam no vigor e na ousadia libertária
dos britânicos para criar suas muito francesas obras-primas. "Eu resolvi
começar a parte moderna da mostra em 1976, ano oficial do nascimento do
punk, porque aí se deu uma virada na cultura", diz Bolton. Daí a
onipresença da veterana Vivienne Westwood, inventora do punk na moda, e
de McQueen, discípulo mais jovem e mais anárquico ainda. Os jovens,
ou já bem passados, adoradores dos Sex Pistols provavelmente se prostrarão
diante da jaqueta que Johnny Rotten usou na primeira turnê do grupo nos
Estados Unidos e agora doou ao museu ("Minha mulher achou em casa, cheia de buracos
de traça", disse Rotten, hoje de volta ao mais convencional Lydon). Fotos
Richard Drew/AP
 |  | | O
talento inglês conquista os ateliês de Paris: desenhos escuros no
branco de Worth, penas de corvo complementando o negro de Galliano para Dior |
Dividida em seis "cenários típicos", AngloMania, um termo
cunhado no século XVIII, quando a Europa continental se apaixonou por tudo
o que era inglês, mostra didaticamente o elo entre as mais tradicionais
criações do passado e as mais originais roupas do presente. Saltam
aos olhos, por exemplo, as similitudes entre Charles Frederick Worth, inglês
que se estabeleceu em Paris em meados do século XIX e ajudou a inventar
a haute couture, e John Galliano, o furacão criativo que revolucionou
a maison Dior. São de Worth dois dos vestidos de época mais magníficos
da exposição, um com motivos de folhagem e 3 metros de cauda
, o outro com arabescos bordados em seda preta sobre cetim branco. É
de Galliano o monumental vestido negro complementado por um arranjo de cabeça
em penas de corvo, ao som do crocitar do próprio. Vê-los juntos é
entender como a Inglaterra foi, é e provavelmente continuará sendo:
uma ilha de transgressão cercada de tradição por todos os
lados. Ou vice-versa. |