Edição 1955 . 10 de maio de 2006

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Brasil
A micareta picareta

Marcelo Déda, do PT de
Sergipe, desviou dinheiro
público para animar sua
campanha a governador


Fábio Portela

NESTA REPORTAGEM
Quadro: O trio dos sem-remédio

A maioria das capitais brasileiras instituiu um Carnaval temporão, a micareta. Aracaju é um caso à parte. Só neste ano, a capital de Sergipe já teve duas micaretas, ambas financiadas com recursos públicos. Em janeiro, o Pré-Caju, o nome de uma delas, abriu as comemorações do Carnaval. No fim de março, a prefeitura organizou outra, que ganhou o apelido de PTcaju. A festa serviu para lançar a campanha do prefeito petista Marcelo Déda a governador do estado. A folia começou no aniversário de Aracaju, 17 de março, com uma apresentação da cantora Ana Carolina. Até o fim daquele mês, revezaram-se em palcos montados pela cidade artistas de fama nacional. Fábio Jr., Dudu Nobre, Agnaldo Timóteo, Luiz Caldas, Daniel e o conjunto Exaltasamba embalaram os festejos. A prefeitura não deixa dúvida sobre as intenções eleitorais do PT: Déda promoveu os espetáculos para divulgar explicitamente suas obras antes de deixar o cargo. A micareta eleitoral consumiu 700.000 reais da prefeitura. A contabilidade do município registra que esses recursos foram gastos com o pagamento do cachê dos artistas. Há sinais, no entanto, de que parte do dinheiro pode ter sido desviada.

As suspeitas se fundam no fato de que os artistas receberam muito menos do que mostram os registros financeiros da prefeitura. A contabilidade municipal indica, por exemplo, que Daniel recebeu 271.500 reais por fazer um show no qual Déda celebrou a pavimentação de uma rua. O cantor afirma que seu cachê não chegou à metade desse valor: "Foi só 103.000 reais". De acordo com os empenhos do município, o cantor Luiz Caldas teria recebido 42.600 reais para cantar axé em outra rua recém-asfaltada, mas ele afirma ter cobrado apenas 20.000 reais pelo espetáculo. A prefeitura também informa que pagou 31.300 reais para que Agnaldo Timóteo abrilhantasse a inauguração da canalização de um córrego. "Só recebi 15.000", refuta Timóteo. Há outro mistério na contabilidade da prefeitura. Os dados mostram que o dinheiro passou por uma empresa chamada Divaldo Santos antes de chegar aos artistas. Essa empresa, sediada num endereço fantasma em Simão Dias, a cidade natal de Marcelo Déda, é desconhecida no mundo artístico. Seu representante, um funcionário público do estado, garante que contratou os cantores, mas os cantores contam outra história.

Agnaldo Timóteo relata que foi orientado pelo ex-prefeito a negociar o cachê de sua apresentação diretamente com a secretaria municipal de Cultura. Já Ana Carolina fechou contrato com a Quanta Música e Produções Artísticas. O cantor Daniel recebeu seu pagamento da Tear Produções. A folia de Déda chamou a atenção do Tribunal de Contas de Sergipe. No mês passado, o procurador do tribunal, Carlos Waldemar Machado, abriu uma auditoria de emergência para investigar os gastos da prefeitura no PTcaju. Questionado pelo tribunal, Marcelo Déda nega que tenha desviado dinheiro para um caixa dois. Segundo o petista, a diferença entre os valores pagos aos artistas e os registrados na contabilidade oficial pode ser explicada por outros custos dos shows, como palco, som e iluminação. O ex-prefeito, no entanto, ainda não apresentou notas fiscais que amparassem sua justificativa. Nesta semana, a prefeitura será instada formalmente a entregar cópias das notas fiscais ao procurador.

As investigações do tribunal descobriram outro problema na contabilidade do PTcaju. Os shows do sambista Dudu Nobre, dos pagodeiros do Exaltasamba e do romântico Fábio Jr. foram pagos com recursos da Secretaria Municipal da Saúde. Pois é. O dinheiro, que deveria ser aplicado na compra de remédios e para garantir atendimento médico à população, foi usado para embalar a campanha de Marcelo Déda. Aparentemente, só há uma relação entre os músicos e a saúde dos sergipanos: os espetáculos animaram a inauguração de prontos-socorros. O Tribunal de Contas também exigirá que a prefeitura explique por que o dinheiro da saúde foi parar nos showmícios. Como o caixa da Secretaria da Saúde também é abastecido por recursos federais, o tribunal apura, agora, se o dinheiro usado por Déda foi enviado por seus companheiros do PT em Brasília para financiar sua campanha.

Com essas estripulias, Marcelo Déda consolidou seu favoritismo para o governo do estado. Ele é líder isolado nas pesquisas eleitorais. Se o pleito fosse hoje, o petista ganharia já no primeiro turno. A legislação eleitoral ajuda Déda a se livrar de problemas mesmo que o Tribunal de Contas confirme suas suspeitas. Ele só se torna inelegível se o tribunal rejeitar suas contas, mas essa análise só será feita em 2007. Também é difícil que Déda seja punido pela lei eleitoral, porque, oficialmente, ainda não é candidato a nada. Só agora começa a fazer sentido o slogan da gestão petista na capital sergipana: "Aracaju: deu certo para todos". No caso, para todos os companheiros de Déda.

 
 
 
 
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