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Brasil
A micareta picareta
Marcelo Déda, do PT de
Sergipe, desviou dinheiro
público para animar sua
campanha a governador

Fábio Portela
A maioria das capitais brasileiras
instituiu um Carnaval temporão, a micareta. Aracaju é
um caso à parte. Só neste ano, a capital de Sergipe
já teve duas micaretas, ambas financiadas com recursos públicos.
Em janeiro, o Pré-Caju, o nome de uma delas, abriu as comemorações
do Carnaval. No fim de março, a prefeitura organizou outra,
que ganhou o apelido de PTcaju. A festa serviu para lançar
a campanha do prefeito petista Marcelo Déda a governador
do estado. A folia começou no aniversário de Aracaju,
17 de março, com uma apresentação da cantora
Ana Carolina. Até o fim daquele mês, revezaram-se em
palcos montados pela cidade artistas de fama nacional. Fábio
Jr., Dudu Nobre, Agnaldo Timóteo, Luiz Caldas, Daniel e o
conjunto Exaltasamba embalaram os festejos. A prefeitura não
deixa dúvida sobre as intenções eleitorais
do PT: Déda promoveu os espetáculos para divulgar
explicitamente suas obras antes de deixar o cargo. A micareta eleitoral
consumiu 700.000 reais da prefeitura. A contabilidade do município
registra que esses recursos foram gastos com o pagamento do cachê
dos artistas. Há sinais, no entanto, de que parte do dinheiro
pode ter sido desviada.
As suspeitas se fundam no fato
de que os artistas receberam muito menos do que mostram os registros
financeiros da prefeitura. A contabilidade municipal indica, por
exemplo, que Daniel recebeu 271.500 reais por fazer um show no qual
Déda celebrou a pavimentação de uma rua. O
cantor afirma que seu cachê não chegou à metade
desse valor: "Foi só 103.000 reais". De acordo com os empenhos
do município, o cantor Luiz Caldas teria recebido 42.600
reais para cantar axé em outra rua recém-asfaltada,
mas ele afirma ter cobrado apenas 20.000 reais pelo espetáculo.
A prefeitura também informa que pagou 31.300 reais para que
Agnaldo Timóteo abrilhantasse a inauguração
da canalização de um córrego. "Só recebi
15.000", refuta Timóteo. Há outro mistério
na contabilidade da prefeitura. Os dados mostram que o dinheiro
passou por uma empresa chamada Divaldo Santos antes de chegar aos
artistas. Essa empresa, sediada num endereço fantasma em
Simão Dias, a cidade natal de Marcelo Déda, é
desconhecida no mundo artístico. Seu representante, um funcionário
público do estado, garante que contratou os cantores, mas
os cantores contam outra história.
Agnaldo Timóteo relata
que foi orientado pelo ex-prefeito a negociar o cachê de sua
apresentação diretamente com a secretaria municipal
de Cultura. Já Ana Carolina fechou contrato com a Quanta
Música e Produções Artísticas. O cantor
Daniel recebeu seu pagamento da Tear Produções. A
folia de Déda chamou a atenção do Tribunal
de Contas de Sergipe. No mês passado, o procurador do tribunal,
Carlos Waldemar Machado, abriu uma auditoria de emergência
para investigar os gastos da prefeitura no PTcaju. Questionado pelo
tribunal, Marcelo Déda nega que tenha desviado dinheiro para
um caixa dois. Segundo o petista, a diferença entre os valores
pagos aos artistas e os registrados na contabilidade oficial pode
ser explicada por outros custos dos shows, como palco, som e iluminação.
O ex-prefeito, no entanto, ainda não apresentou notas fiscais
que amparassem sua justificativa. Nesta semana, a prefeitura será
instada formalmente a entregar cópias das notas fiscais ao
procurador.
As investigações
do tribunal descobriram outro problema na contabilidade do PTcaju.
Os shows do sambista Dudu Nobre, dos pagodeiros do Exaltasamba e
do romântico Fábio Jr. foram pagos com recursos da
Secretaria Municipal da Saúde. Pois é. O dinheiro,
que deveria ser aplicado na compra de remédios e para garantir
atendimento médico à população, foi
usado para embalar a campanha de Marcelo Déda. Aparentemente,
só há uma relação entre os músicos
e a saúde dos sergipanos: os espetáculos animaram
a inauguração de prontos-socorros. O Tribunal de Contas
também exigirá que a prefeitura explique por que o
dinheiro da saúde foi parar nos showmícios. Como o
caixa da Secretaria da Saúde também é abastecido
por recursos federais, o tribunal apura, agora, se o dinheiro usado
por Déda foi enviado por seus companheiros do PT em Brasília
para financiar sua campanha.
Com essas estripulias, Marcelo
Déda consolidou seu favoritismo para o governo do estado.
Ele é líder isolado nas pesquisas eleitorais. Se o
pleito fosse hoje, o petista ganharia já no primeiro turno.
A legislação eleitoral ajuda Déda a se livrar
de problemas mesmo que o Tribunal de Contas confirme suas suspeitas.
Ele só se torna inelegível se o tribunal rejeitar
suas contas, mas essa análise só será feita
em 2007. Também é difícil que Déda seja
punido pela lei eleitoral, porque, oficialmente, ainda não
é candidato a nada. Só agora começa a fazer
sentido o slogan da gestão petista na capital sergipana:
"Aracaju: deu certo para todos". No caso, para todos os companheiros
de Déda.
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