|
|
Brasil Adeus,
candidatura Em greve de fome, Garotinho
mostra que não tem estatura para ser candidato a presidente
 Ronaldo
França e Ronaldo Soares Marco
Antonio Teixeira/Ag. O Globo
 | | Garotinho
em greve: circo para não ter de rebater acusações |
A
pré-candidatura de Anthony Garotinho à Presidência da República
começou a definhar, na semana passada, no mesmo ritmo da greve de fome
que o ex-governador do Rio de Janeiro se impôs. Acossado por uma série
de denúncias de irregularidades em sua pré-campanha e no governo
de sua mulher, Rosinha, Garotinho optou pelo dramalhão. Em vez de se explicar
convincentemente, preferiu armar um circo. Postou-se na frente de uma porta de
vidro, numa sala adaptada para essa finalidade na sede do PMDB fluminense, e ali
deu início a seu protesto. Diante das câmeras, aninhou-se nos braços
da mulher, foi confortado pelos filhos, recebeu acompanhamento médico e
atendeu os poucos aliados que foram lhe prestar solidariedade. Até a sexta-feira
passada, o pré-candidato já havia emagrecido 2,6 quilos. Sua perda
maior, no entanto, se deu no campo político. O presidente do PMDB, Michel
Temer, desaprovou o gesto. Foi seguido por lideranças como o ex-governador
de Pernambuco Jarbas Vasconcelos, para quem o ato expôs o partido ao ridículo.
A greve de fome é uma atitude
extrema. É arma preferencial de presos políticos e de ativistas
sem outra forma de chamar atenção para sua causa desde que o advogado
Mohandas Gandhi recorreu a ela no século passado para expulsar os ingleses
da Índia. O regime de privação de calorias e proteínas
de Garotinho não merecia sequer ser chamado de greve de fome. O político
carioca preferiu recorrer a ele antes de queimar todas as etapas de defesa amplamente
abertas a ele pela democracia brasileira. Com isso, apenas contribuiu para desmoralizar
a arma de protesto dos bravos. Para voltar a comer, Garotinho fez exigências
descabidas, entre elas o acompanhamento internacional do processo eleitoral brasileiro,
considerado hoje um dos mais transparentes e eficientes do mundo. Simone
Marinho/Ag. O Globo
 | | Rosinha
abraça o marido: melodrama mexicano em meio às denúncias
|
O ex-governador também
pediu que os veículos de comunicação que publicaram denúncias
de irregularidades lhe dêem o mesmo espaço para exercer seu direito
de resposta. No caso de VEJA, entre as várias denúncias, ele contestou
as informações sobre o uso em sua pré-campanha de um jatinho
do ex-policial civil João Arcanjo Ribeiro, o "Comendador", preso em Mato
Grosso. Os advogados de Garotinho afirmam que os bens de Arcanjo foram arrestados
e que o avião foi entregue ao administrador judicial Francisco Bomfim,
que o arrendou à empresa Construfert Ambiental. VEJA já dera essa
mesma informação em sua última edição, não
havendo, portanto, o que corrigir. O que existe é algo a acrescentar. O
PMDB informa, em sua prestação de contas e na nota de seus advogados,
que o avião foi alugado diretamente da empresa Suprema Comércio
e Serviços Aeronáuticos. O dono da Suprema, Roberto Squitino, afirmou
a VEJA que nunca alugou avião para o PMDB ou para Garotinho. Já
a Construfert informou à revista ter feito negócio com uma terceira
empresa, a Extra Locação, que não aparece na nota dos advogados
nem sequer na prestação de contas do partido. A empresa foi citada
na nota oficial divulgada por Garotinho na quarta-feira passada, mas logo em seguida
desapareceu das explicações públicas do partido. A Extra
admite que prestou serviços ao PMDB e informa que o fez atendendo a pedido
da Suprema, que, lembrando, é aquela que nunca prestou serviços
ao pré-candidato a não ser, pelo que parece, por ter fornecido
uma nota fiscal. As datas dos vôos não conferem, conforme mostra
a apuração dos repórteres de VEJA. Portanto, quem ainda deve
explicações sobre o uso do avião do bandido é Garotinho.
Se para Garotinho as denúncias
foram motivo de greve de fome, para as autoridades elas foram um prato cheio.
A Polícia Federal vai ouvir sócios de empresas de fachada que fizeram
doações à pré-campanha. Já o Ministério
Público resolveu investigar ONGs que receberam de um órgão
estadual a Fundação Escola de Serviço Público
recursos milionários liberados, na maior parte dos casos, sem licitação,
segundo o jornal O Globo. Em algumas dessas ONGs os sócios são
os mesmos de empresas que doaram dinheiro à pré-campanha de Garotinho.
O Tribunal de Contas do Estado também abriu uma frente de investigação
e está analisando os contratos com as ONGs. Para completar, uma CPI deve
ser instalada na Assembléia Legislativa fluminense. Enquanto isso, surgem
novas denúncias. Na semana passada, veio à tona um caso que mostra
que não é novidade a administração estadual tratar
generosamente quem apóia campanhas do ex-governador. Nas eleições
de 2002, a Associação de Homens de Negócio do Evangelho Pleno
(Adhonep) custeou algumas despesas de viagem e hospedagem de Garotinho. A entidade
tem como vice-presidente Altomir Regis da Cunha, homem de confiança do
casal Garotinho no empresariado evangélico e dono da empresa Aloés
& Aloés, que possui contratos de mais de 10 milhões de reais
para fornecimento de fraldas geriátricas a um órgão estadual.
Cunha agora está diversificando os negócios. Criou uma usina de
açúcar e álcool em Campos, reduto do casal Garotinho no norte
fluminense, projeto que prevê investimento de 300 milhões de reais.
Para que o projeto decole, o empresário solicitou mais uma ajudinha do
estado na forma de incentivos fiscais. A assessoria do governo informou que o
pedido ainda está sendo estudado. Espera-se que nessa avaliação
seja levado em conta que Cunha está na mira da Polícia Federal,
já que seu nome aparece na base de dados da força-tarefa das contas
CC5, em que estão listados contribuintes que enviaram dinheiro ao exterior
irregularmente. Os registros de operações bancárias em nome
de Cunha no exterior totalizam 2,35 milhões de dólares, em instituições
financeiras investigadas nos Estados Unidos por lavagem de dinheiro, como o banco
MTB/Hudson e a empresa Beacon Hill, já fechada. Na Beacon Hill, aliás,
a subconta utilizada em uma das operações foi a Midler, a mesma
usada pela JetSul Linhas Aéreas, empresa que alugou jatinhos para a campanha
de Garotinho e está respondendo a inquérito por evasão de
divisas. O PT aproveitou para tirar
uma casquinha da agora esquelética candidatura do ex-governador e ofereceu
ao PMDB a vaga de vice de Lula na próxima eleição. Para piorar,
o partido resolveu antecipar para o próximo sábado a convenção
em que vai decidir se terá ou não candidato próprio, gesto
que deixou Garotinho ainda mais desanimado. Ao que tudo indica, o PMDB, que fez
pouco-caso de sua greve de fome, também não vai alimentar o sonho
de Garotinho de chegar à Presidência.
UM FLASH DO ESCÂNDALO GAROTINHO Nicolas
Eveleigh/Getty Images
 |
A
divulgação das contas da pré-campanha do ex-governador do
Rio de Janeiro Anthony Garotinho ajudou a desvendar um esquema milionário
de circulação de dinheiro entre fornecedores estaduais e ONGs no
governo de Rosinha Garotinho. Eis alguns exemplos de impropriedades:
O governo
do estado abastecia empresas e ONGs com contratos milionários que desde
2003 já somam pelo menos 338 milhões de reais. As ONGs não
sabem dizer o que fazem e alguns secretários e gestores estaduais afirmam
desconhecer a relação com as supostas prestadoras de serviço.
Divulgadas as contas da pré-campanha de Garotinho, descobriu-se
que, entre essas ONGs, pelo menos três têm entre seus diretores pessoas
cujos nomes aparecem na composição societária das empresas
que fizeram doações de 650 000 reais ao candidato
Somente
essas ONGs ligadas às empresas doadoras receberam 112 milhões de
reais da Fundação Escola de Serviço Público, entre
2003 e 2006. As empresas não funcionam nos endereços declarados
e algumas estão em nome de pessoas que confessaram ser laranjas dos empresários.
Também se descobriu que o governo estadual mantém entre
seus fornecedores empresas de peemedebistas como o deputado federal Paulo
Lima, de São Paulo, que tem um contrato de 33 milhões de reais com
a Secretaria Estadual de Educação sem que o secretário
ou o ex-secretário tivessem conhecimento. | |
|