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Brasil O
primado absoluto da impunidade No
início, parecia que a Câmara só puniria os mensaleiros
confessos. Engano. Eles se salvam sem risco  Julia
Duailibi
Beto
Barata/AE
 | | Em
plenário, deputados repudiam o voto secreto |
Na
semana passada, o deputado Josias Gomes, do PT da Bahia, escapou de ser cassado
por seus pares. Eram necessários 257 votos para a cassação,
mas apenas 228 parlamentares votaram pela perda de seu mandato. Pilhado embolsando
100.000 reais do valerioduto, Gomes é o décimo mensaleiro inocentado
pelos colegas. No mesmo dia, o Conselho de Ética da Câmara, desidratado
pela renúncia de cinco deputados irritados com o festival de impunidade,
absolveu o deputado Vadão Gomes, do PP de São Paulo. Vadão
Gomes embolsou 3,7 milhões de reais do valerioduto, mas deverá ser
igualmente inocentado em plenário. Será o 11º alforriado. Se
tudo correr pela receita da impunidade, José Janene, do PP do Paraná,
o último mensaleiro a ser julgado, também ganhará seu salvo-conduto.
Será o 12º liberto. Se os prognósticos se confirmarem, dos
dezenove mensaleiros, três terão sido cassados, quatro terão
renunciado para fugir da cassação e doze terão sido inocentados.
Um saldo solidamente vergonhoso.
Quando
as votações começaram, a Câmara pareceu obedecer a
uma certa lógica, tratando de maneira desigual réus desiguais. Assim,
parlamentares como Roberto Jefferson e José Dirceu, habitantes do epicentro
do mensalão, seriam cassados. E foram. Já deputados cuja participação
era nebulosa, como Sandro Mabel, do PL de Goiás, seriam absolvidos. E foram.
Em dezembro passado, porém, o ventou virou. Quarto nome a ser julgado,
o deputado Romeu Queiroz, do PTB de Minas Gerais, ficou impune apesar de confessadamente
ter recebido 453.000 reais do valerioduto. Daí em diante, desapareceu qualquer
aparência de lógica e cristalizou-se a certeza de que a idéia
era apenas absolver quem quer que fosse. O auge ocorreu na absolvição
de João Paulo Cunha, do PT paulista, em abril passado. O deputado mandou
sua mulher apanhar 50.000 reais no valerioduto, mas, ao ser pilhado, aliou a esse
crime outra agressão ao decoro: mentiu abertamente, dizendo que sua mulher
fora ao banco pagar uma conta de TV a cabo...
Adriano
Machado/AE
 | Josias
Gomes, o último absolvido: 100 000 reais |
O
ânimo da atual legislatura para punir seus pares é o pior da história
recente da Câmara dos Deputados. Em 1994, os parlamentares foram muito mais
duros com os anões do Orçamento, assim chamados porque eram todos
de baixa estatura e foram descobertos desviando dinheiro do Orçamento da
União. Dos dezoito parlamentares denunciados, seis foram cassados. O voto
secreto tem sido um dos principais combustíveis para a impunidade. O ex-presidente
Fernando Collor foi cassado em sessão com voto aberto, anunciado ao microfone.
Recentemente, a Câmara desengavetou uma proposta de emenda constitucional
que pretende acabar com o voto secreto em sessões de cassação
de mandato. Assim, os parlamentares continuarão podendo produzir pizzas
em série, mas pelo menos os pizzaiolos poderão ser punidos por seus
eleitores na urnas. O projeto está aguardando na fila para ser votado.
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