Brega, mas feliz
O cinema australiano não faz o menor
esforço
para agradar aos outros. Por isso dá certo
Isabela Boscov
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Os excêntricos Kerrigan,
de No Olho da Rua: sensação de
que eles estão de bem com a vida
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Em qualquer lugar do mundo, uma família como os
Kerrigan só poderia ser descrita como brega. Vejamos:
sua casa, colada à pista de um aeroporto, tem frisos
de plástico no telhado para dar ao lugar um ar "vitoriano".
A mesa de bilhar, construída por papai, não
só é completamente torta como mal pode ser
vista em meio à coleção de suvenires
que entope a sala. O orgulho do patriarca é sua filha,
única do clã a ter instrução
"terciária" ela é formada numa escola
de beleza. O filho mais velho está na prisão
por ter cometido o erro inocente de roubar um carro, e os
outros dois se viram descolando barganhas nos classificados.
O que torna os Kerrigan tão especiais é que
eles são objeto de graça, mas nunca de ridículo,
na comédia No Olho da Rua (The Castle,
Austrália, 1997), que estréia nesta sexta-feira
em São Paulo. Como eles têm a sorte de protagonizar
um filme australiano, sua breguice é mais do que
tolerada: é celebrada.
Australiano que é australiano não tem drama
de consciência ou dúvida existencial. Eles
falam o que querem, não ligam para a opinião
alheia e são capazes de contar piadas de fazer corar
um canguru. Formam, em suma, o que se poderia chamar de
tribo dos autênticos no universo anglo-saxão.
Essa generalização talvez ajude a explicar
por que os australianos se têm mantido impermeáveis
ao cinismo que assola as manifestações culturais
em outras latitudes. No Olho da Rua é um bom
exemplo disso. O filme prima pela ingenuidade. Tudo gira
em torno da alegria simples dos Kerrigan e de como ela é
abalada quando chega a notícia de que a família
será despejada por causa de uma obra no aeroporto.
Certo de que ninguém tem o direito de destruir assim
seu castelo, o chefe do clã leva o caso à
Justiça. Nada de grandioso acontece, a não
ser uma derrota aqui, uma vitória ali e mais demonstrações
de como os Kerrigan são felizes em seu mundinho insular.
Não há tensas cenas de tribunal, assédio
da mídia ou vilões inescrupulosos, como seria
inevitável num filme americano.
Divulgação
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Top Tape
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| Priscilla
e O Casamento de Muriel: filmes que gastam pouco
e apostam na esquisitice |
O cinema da Austrália vem se mostrando original
por apostar também na esquisitice. Basta lembrar
de O Casamento de Muriel, em que a protagonista gorducha
vira uma pessoa socialmente bem-sucedida ao se meter num
macacão justo e dublar uma canção do
cafonérrimo grupo Abba. Ou ainda do sucesso Priscilla
a Rainha do Deserto, no qual três drag
queens cruzam o sertão para fazer um show numa estação
de águas. Por último, o cinema australiano
chama a atenção pelo fato de suas produções
serem baratíssimas. No Olho da Rua foi rodado
em apenas onze dias. Dá para perceber. A fotografia
não é lá essas coisas, e a fita não
tem nem vestígio de pretensão artística.
Volta e meia, aliás, derrapa no piegas. Mas ganha
a platéia pela candura e por transmitir essa sensação
de que seus personagens estão de bem com a vida.
Mais australiano, impossível.