Edição 1 648 -10/5/2000

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Brega, mas feliz

O cinema australiano não faz o menor esforço
para agradar aos outros. Por isso dá certo

Isabela Boscov



Os excêntricos Kerrigan, de No Olho da Rua: sensação de que eles estão de bem com a vida

Em qualquer lugar do mundo, uma família como os Kerrigan só poderia ser descrita como brega. Vejamos: sua casa, colada à pista de um aeroporto, tem frisos de plástico no telhado para dar ao lugar um ar "vitoriano". A mesa de bilhar, construída por papai, não só é completamente torta como mal pode ser vista em meio à coleção de suvenires que entope a sala. O orgulho do patriarca é sua filha, única do clã a ter instrução "terciária" – ela é formada numa escola de beleza. O filho mais velho está na prisão por ter cometido o erro inocente de roubar um carro, e os outros dois se viram descolando barganhas nos classificados. O que torna os Kerrigan tão especiais é que eles são objeto de graça, mas nunca de ridículo, na comédia No Olho da Rua (The Castle, Austrália, 1997), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo. Como eles têm a sorte de protagonizar um filme australiano, sua breguice é mais do que tolerada: é celebrada.

Australiano que é australiano não tem drama de consciência ou dúvida existencial. Eles falam o que querem, não ligam para a opinião alheia e são capazes de contar piadas de fazer corar um canguru. Formam, em suma, o que se poderia chamar de tribo dos autênticos no universo anglo-saxão. Essa generalização talvez ajude a explicar por que os australianos se têm mantido impermeáveis ao cinismo que assola as manifestações culturais em outras latitudes. No Olho da Rua é um bom exemplo disso. O filme prima pela ingenuidade. Tudo gira em torno da alegria simples dos Kerrigan e de como ela é abalada quando chega a notícia de que a família será despejada por causa de uma obra no aeroporto. Certo de que ninguém tem o direito de destruir assim seu castelo, o chefe do clã leva o caso à Justiça. Nada de grandioso acontece, a não ser uma derrota aqui, uma vitória ali e mais demonstrações de como os Kerrigan são felizes em seu mundinho insular. Não há tensas cenas de tribunal, assédio da mídia ou vilões inescrupulosos, como seria inevitável num filme americano.

 
Divulgação
Top Tape
Priscilla e O Casamento de Muriel: filmes que gastam pouco e apostam na esquisitice

O cinema da Austrália vem se mostrando original por apostar também na esquisitice. Basta lembrar de O Casamento de Muriel, em que a protagonista gorducha vira uma pessoa socialmente bem-sucedida ao se meter num macacão justo e dublar uma canção do cafonérrimo grupo Abba. Ou ainda do sucesso Priscilla – a Rainha do Deserto, no qual três drag queens cruzam o sertão para fazer um show numa estação de águas. Por último, o cinema australiano chama a atenção pelo fato de suas produções serem baratíssimas. No Olho da Rua foi rodado em apenas onze dias. Dá para perceber. A fotografia não é lá essas coisas, e a fita não tem nem vestígio de pretensão artística. Volta e meia, aliás, derrapa no piegas. Mas ganha a platéia pela candura e por transmitir essa sensação de que seus personagens estão de bem com a vida. Mais australiano, impossível.