Só por prazer
A maior crítica americana ensina
que
filme não pode chatear
Isabela Boscov
Oliver Stone a considera venenosa. Já Quentin Tarantino
lamenta que ela não estivesse mais na ativa quando
ele começou a filmar. Morgan Freeman lhe reserva
um lugar especial no coração: ela se encantou
tanto com seu talento que se perguntou se Freeman não
seria o maior dos atores americanos. Afetos ou desafetos,
no entanto, têm de concordar que nenhum crítico
de cinema foi mais influente nos Estados Unidos do que a
veterana Pauline Kael, hoje octogenária e aposentada
desde 1991. Uma pequena amostra de suas opiniões
fortes, mas não raro surpreendentemente generosas,
estão em Criando Kane e Outros Ensaios
(tradução de Marcos Santarrita; Record; 364
páginas; 35 reais), que reúne onze textos
escritos entre 1964 e 1980.
Pauline
é mais conhecida pelas resenhas que publicava regularmente
na revista The New Yorker. Vez por outra, porém,
formulava escritos que dessem conta de temas mais abrangentes.
A amostra contida no livro é variada. No ensaio que
dá nome ao volume, a autora discute a importância
do roteirista Herman Mankiewicz no clássico Cidadão
Kane, de Orson Welles. Ressaltar o papel dos roteiristas
no momento em que se dava todo o crédito aos diretores
era uma grande e justa preocupação de Pauline.
Mas não a única. Ela tinha uma severa implicância
com aquele tipo de filme feito para ser "artístico"
ou com consciência social. Vê-los é tão
virtuoso e tão chato quanto visitar um velho amigo
surdo da família, comparou. "A pessoa culta que se
interessou pelo cinema como forma de arte com Bergman, Fellini
ou Resnais é uma estranha para mim (e minha mente
fica vazia, de hostilidade e indiferença, quando
ela começa a falar)", dispara ela no ensaio Filmes
na Televisão. Irreverente como sempre, vai mais
além, assegurando que o lixo cinematográfico
"provavelmente nos ensinou mais sobre o mundo, e mesmo sobre
os valores, do que nossa educação".
Esse tipo de provocação costumava deixar
de cabelo em pé os colegas de ofício de Pauline.
E ela era igualmente impiedosa com eles, por considerá-los
em geral pedantes e obtusos. Irritava-se com sua mania de
encontrar "denúncias" e "significados" onde eles
não existiam, e diverte-se selecionando pérolas
de presunção no ensaio sobre o filme O
Indomado, estrelado por Paul Newman em 1963. "Com aquele
tino para entender tudo ao contrário que o torna
inestimável, [Bosley] Crowther pôs o
dedo na ferida", é como ela esculacha, por exemplo,
o então crítico do jornal The New York
Times. Da mesma forma, Pauline não tinha paciência
com os produtos caros, luxuosos e vazios que os estúdios
de Hollywood regurgitavam aos montes, e lamentava a influência
da televisão sobre o cinema. Não porque ela
iria roubar seu público, como ingenuamente se propalava,
mas porque os diretores que iam migrando da telinha para
a telona estavam transformando a câmara num "aparelho
para gravar a ação encenada".
"O grande lixo" É fácil, contudo,
descobrir do que Pauline gostava: de cinema. Desde que fosse
vivo, vibrante, em comunhão com a platéia.
"A arte do cinema não é o oposto do que sempre
gostamos nele; é o que sempre achamos bom no cinema,
só que mais ainda. É o gesto subversivo levado
adiante, os momentos de emoção mantidos por
mais tempo", defendeu no ensaio Lixo, Arte e o Cinema.
Nele, Pauline comemora o espírito livre dos autênticos
filmes americanos, aqueles que não se deixavam contaminar
pelo esnobismo europeu. Criada no interior da Califórnia,
Pauline teve desde a infância uma ligação
visceral com o cinema. Dela, trouxe a crença de que
os filmes servem para dar prazer. Sem ele, nada feito. Por
isso era capaz de se divertir com filmes B "pavorosos em
quase todos os aspectos", dos quais os críticos que
se davam ares tratavam de fugir, ou apreciar as inovações
narrativas do diretor Robert Altman. E por isso também
era uma entusiasta do trabalho dos atores, que desde sempre
foram a ponte mais curta entre o público e os filmes.
Como ninguém é perfeito, Pauline podia ser
bastante autoritária: chegou a desdenhar 2001
Uma Odisséia no Espaço, de Stanley
Kubrick, como uma bobagem moderninha. Também escrevia
pelos cotovelos. Isso atrapalha quem vai ler Criando
Kane sem ter uma lembrança razoável das
fitas em questão é difícil acompanhar
páginas a fio de pormenores. Vale dizer, aliás,
que a tradução do livro não ajuda muito,
já que às vezes soa tão dura e esquisita
quanto uma legenda de filme. As qualidades de Pauline, contudo,
superam com folga seus defeitos. Talvez a mais visível
delas seja o destemor com que dizia o que pensava. A mais
crucial, porém, é sua defesa obstinada do
cinema como um veículo popular, mágico justamente
porque não tem de ser levado a sério. "O cinema
é tão raramente grande arte que, se não
pudermos apreciar o grande lixo, temos muito poucos
motivos para nos interessar por ele", observou em 1964.
A farsa da "cultura"
"Os americanos são muito vulneráveis,
muito confusos e defensivos em relação
à prosperidade e em nenhum outro lugar
como em Hollywood, onde julgam que podem limpá-la,
justificar seu direito a ela, dourando-a com a 'cultura',
como se dissessem: veja, não somos materialistas,
apreciamos as coisas mais finas. (...) Os que vivem
de fazer filmes e exibem um estilo de vida luxuoso
se preocupam com a 'imagem' americana no exterior.
Mas, como a economia da produção cinematográfica
é o que é, de um modo geral tudo o que
os produtores fazem a respeito é preocupar-se
o que talvez seja melhor, pois os filmes feitos
com consciência social dão habitualmente
uma visão ainda mais distorcida dos Estados
Unidos do que os feitos com sentido comercial, e são
muito menos divertidos."
Trecho do ensaio sobre O Indomado,
publicado em 1964
|