Edição 1 648 -10/5/2000

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Só por prazer

A maior crítica americana ensina que
filme não pode chatear

Isabela Boscov

Oliver Stone a considera venenosa. Já Quentin Tarantino lamenta que ela não estivesse mais na ativa quando ele começou a filmar. Morgan Freeman lhe reserva um lugar especial no coração: ela se encantou tanto com seu talento que se perguntou se Freeman não seria o maior dos atores americanos. Afetos ou desafetos, no entanto, têm de concordar que nenhum crítico de cinema foi mais influente nos Estados Unidos do que a veterana Pauline Kael, hoje octogenária e aposentada desde 1991. Uma pequena amostra de suas opiniões fortes, mas não raro surpreendentemente generosas, estão em Criando Kane e Outros Ensaios (tradução de Marcos Santarrita; Record; 364 páginas; 35 reais), que reúne onze textos escritos entre 1964 e 1980.

Pauline é mais conhecida pelas resenhas que publicava regularmente na revista The New Yorker. Vez por outra, porém, formulava escritos que dessem conta de temas mais abrangentes. A amostra contida no livro é variada. No ensaio que dá nome ao volume, a autora discute a importância do roteirista Herman Mankiewicz no clássico Cidadão Kane, de Orson Welles. Ressaltar o papel dos roteiristas no momento em que se dava todo o crédito aos diretores era uma grande e justa preocupação de Pauline. Mas não a única. Ela tinha uma severa implicância com aquele tipo de filme feito para ser "artístico" ou com consciência social. Vê-los é tão virtuoso e tão chato quanto visitar um velho amigo surdo da família, comparou. "A pessoa culta que se interessou pelo cinema como forma de arte com Bergman, Fellini ou Resnais é uma estranha para mim (e minha mente fica vazia, de hostilidade e indiferença, quando ela começa a falar)", dispara ela no ensaio Filmes na Televisão. Irreverente como sempre, vai mais além, assegurando que o lixo cinematográfico "provavelmente nos ensinou mais sobre o mundo, e mesmo sobre os valores, do que nossa educação".

Esse tipo de provocação costumava deixar de cabelo em pé os colegas de ofício de Pauline. E ela era igualmente impiedosa com eles, por considerá-los em geral pedantes e obtusos. Irritava-se com sua mania de encontrar "denúncias" e "significados" onde eles não existiam, e diverte-se selecionando pérolas de presunção no ensaio sobre o filme O Indomado, estrelado por Paul Newman em 1963. "Com aquele tino para entender tudo ao contrário que o torna inestimável, [Bosley] Crowther pôs o dedo na ferida", é como ela esculacha, por exemplo, o então crítico do jornal The New York Times. Da mesma forma, Pauline não tinha paciência com os produtos caros, luxuosos e vazios que os estúdios de Hollywood regurgitavam aos montes, e lamentava a influência da televisão sobre o cinema. Não porque ela iria roubar seu público, como ingenuamente se propalava, mas porque os diretores que iam migrando da telinha para a telona estavam transformando a câmara num "aparelho para gravar a ação encenada".

"O grande lixo" – É fácil, contudo, descobrir do que Pauline gostava: de cinema. Desde que fosse vivo, vibrante, em comunhão com a platéia. "A arte do cinema não é o oposto do que sempre gostamos nele; é o que sempre achamos bom no cinema, só que mais ainda. É o gesto subversivo levado adiante, os momentos de emoção mantidos por mais tempo", defendeu no ensaio Lixo, Arte e o Cinema. Nele, Pauline comemora o espírito livre dos autênticos filmes americanos, aqueles que não se deixavam contaminar pelo esnobismo europeu. Criada no interior da Califórnia, Pauline teve desde a infância uma ligação visceral com o cinema. Dela, trouxe a crença de que os filmes servem para dar prazer. Sem ele, nada feito. Por isso era capaz de se divertir com filmes B "pavorosos em quase todos os aspectos", dos quais os críticos que se davam ares tratavam de fugir, ou apreciar as inovações narrativas do diretor Robert Altman. E por isso também era uma entusiasta do trabalho dos atores, que desde sempre foram a ponte mais curta entre o público e os filmes.

Como ninguém é perfeito, Pauline podia ser bastante autoritária: chegou a desdenhar 2001 – Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, como uma bobagem moderninha. Também escrevia pelos cotovelos. Isso atrapalha quem vai ler Criando Kane sem ter uma lembrança razoável das fitas em questão – é difícil acompanhar páginas a fio de pormenores. Vale dizer, aliás, que a tradução do livro não ajuda muito, já que às vezes soa tão dura e esquisita quanto uma legenda de filme. As qualidades de Pauline, contudo, superam com folga seus defeitos. Talvez a mais visível delas seja o destemor com que dizia o que pensava. A mais crucial, porém, é sua defesa obstinada do cinema como um veículo popular, mágico justamente porque não tem de ser levado a sério. "O cinema é tão raramente grande arte que, se não pudermos apreciar o grande lixo, temos muito poucos motivos para nos interessar por ele", observou em 1964.

 

A farsa da "cultura"

"Os americanos são muito vulneráveis, muito confusos e defensivos em relação à prosperidade – e em nenhum outro lugar como em Hollywood, onde julgam que podem limpá-la, justificar seu direito a ela, dourando-a com a 'cultura', como se dissessem: veja, não somos materialistas, apreciamos as coisas mais finas. (...) Os que vivem de fazer filmes e exibem um estilo de vida luxuoso se preocupam com a 'imagem' americana no exterior. Mas, como a economia da produção cinematográfica é o que é, de um modo geral tudo o que os produtores fazem a respeito é preocupar-se – o que talvez seja melhor, pois os filmes feitos com consciência social dão habitualmente uma visão ainda mais distorcida dos Estados Unidos do que os feitos com sentido comercial, e são muito menos divertidos."

Trecho do ensaio sobre O Indomado, publicado em 1964