Um deles vai ouvir não
Como lidar com a frustração
de ser vetado
num teste de seleção para emprego
Tatiana Chiari
Antonio Milena
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| Modelos sendo selecionados pela
agência Marilyn: só uma minoria vai chegar
lá |
Quem procura o primeiro emprego ou uma vaga
de trainee numa grande empresa depara logo com uma realidade:
sempre há mais candidatos que vagas. Na Coca-Cola,
existem cerca de 230 aspirantes brigando por apenas uma
vaga. A Rhodia, uma das maiores empresas no ramo da química
e farmacêutica, abriu em 1999 trinta vagas e houve
7.000 candidatos interessados.
Só nos últimos quatro meses, a empresa aérea
TAM já recebeu 10.000
currículos para ser analisados e, anualmente, chegam
à AmBev 29.000. Em todos
os casos, a quantidade de vagas é sempre inferior
a 1% da de candidatos. Os números mostram de forma
irrefutável que a possibilidade de um candidato ser
rejeitado é muito maior que a de ser aprovado nos
exames de seleção. Seja na vida pessoal, seja
no campo profissional, ninguém aprecia a sensação
de ser confrontado com os próprios limites. Muitas
vezes, o desgosto é profundo. Segundo os especialistas
em recursos humanos, a melhor maneira de enfrentar o problema
é preparar-se para esse momento tão desagradável
quanto provável. É preciso aprender a lidar
com o não.
"Ninguém deve achar que o não é
o final do mundo", diz Renato Guimarães Ferreira,
professor de recursos humanos da Fundação
Getúlio Vargas. O especialista explica que as seleções
hoje estão extremamente rigorosas e subjetivas. Durante
um processo de escolha, o candidato precisa provar que tem
boa formação, atitudes de liderança,
capacidade de trabalhar em equipe, habilidade para negociar
e versatilidade, entre outras competências. "Com o
excesso de candidatos, critérios confusos e o pouco
tempo para análise, é preciso deixar claro
ao entrevistador que você é diferente dos demais",
afirma Ferreira.
A primeira providência que o candidato deve tomar
é fazer o possível para diminuir a possibilidade
de ouvir um não, selecionando de forma criteriosa
os empregos a que vai concorrer. Para diminuir o risco de
rejeição, a prudência recomenda que
ele procure vagas compatíveis com seu currículo.
Apresentado desse modo, parece um conselho tolo, mas não
adianta ficar animado com a possibilidade de abiscoitar
aquele cargo sensacional. É preciso descobrir quais
são suas chances reais de vencer, e a melhor maneira
de conseguir isso é obter informações
sobre o perfil dos demais pretendentes. Se uma empresa quer
candidatos com nível superior, tem mais possibilidade
de obter o emprego quem tem mestrado ou doutorado. Se a
vaga requer inglês fluente, leva vantagem quem fala
também francês. Quanto maior for a diferença
entre a qualificação do candidato e a que
é exigida nas provas de seleção, maior
sua chance. A maioria dos concorrentes tem o grau de formação
básico exigido para o emprego.
Outro cuidado é preparar-se para as entrevistas
com o rigor de quem vai prestar vestibular. Os entrevistadores
das empresas observam todos os detalhes, mas alguns merecem
mais atenção do que outros. A firmeza do candidato
ao responder às perguntas conta mais pontos do que
se imagina. Tolera-se uma resposta errada, mas rejeita-se
a indecisão. É ou não é irritante
imaginar que aquele emprego bacana foi para o beleléu
por uma hesitação, não por falta de
talento?
Nenhum desses cuidados garante o emprego, claro, apenas
aumenta as chances de sucesso. Se ainda assim o candidato
ouvir um não e a auto-estima for parar no
pé, os psicólogos informam que o amor-próprio
retorna mais rápido se o jovem tiver o devido equilíbrio
para interpretar o que aconteceu. O não raramente
é definitivo, ainda que assim pareça a quem
o escutou. "Já vi muitas garotas e rapazes desistirem
da carreira de modelo por causa das seguidas recusas", conta
Analu Oliveira, diretora da agência de modelos Marilyn,
de São Paulo. "Para conseguir um lugar nesse meio
é preciso estar preparado para ouvir seguidos não
e aproveitar os raros sim", diz. Ao contrário
do que as pessoas possam ser levadas a pensar, o não
muitas vezes serve de estímulo. Será que um
estagiário recusado após a entrevista realmente
estava preparado para aquela vaga que pretendia disputar?
Será que, se fosse aprovado e começasse a
trabalhar, não correria o risco de ter sua carreira
abortada mais adiante? De mais a mais, é de se perguntar
também se ele não poderá disputar novo
emprego em alguns meses. Claro que sim.
Depois que recebem a negativa, é normal que as
pessoas se dêem o direito de passar dias indagando
o que deu errado. Há candidatos que culpam a roupa
que usavam na entrevista. Outros lamentam a frase inoportuna
dita ao chefe do departamento de recursos humanos. Alguns
jovens ficam tão abalados que demoram bom tempo até
procurar uma nova vaga. E há os que não contam
à família o que aconteceu com medo de serem
vistos pelos mais próximos como perdedores. São
reações normais de quem se sente rejeitado.
Passado o choque inicial, é hora de começar
tudo outra vez. E atenção ao que dizem os
especialistas: é melhor sofrer uma frustração
no começo da carreira. O tombo é menor.
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