Edição 1 648 -10/5/2000

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Um deles vai ouvir não

Como lidar com a frustração de ser vetado
num teste de seleção para emprego

Tatiana Chiari

Antonio Milena
Modelos sendo selecionados pela agência Marilyn: só uma minoria vai chegar lá

Quem procura o primeiro emprego ou uma vaga de trainee numa grande empresa depara logo com uma realidade: sempre há mais candidatos que vagas. Na Coca-Cola, existem cerca de 230 aspirantes brigando por apenas uma vaga. A Rhodia, uma das maiores empresas no ramo da química e farmacêutica, abriu em 1999 trinta vagas e houve 7.000 candidatos interessados. Só nos últimos quatro meses, a empresa aérea TAM já recebeu 10.000 currículos para ser analisados e, anualmente, chegam à AmBev 29.000. Em todos os casos, a quantidade de vagas é sempre inferior a 1% da de candidatos. Os números mostram de forma irrefutável que a possibilidade de um candidato ser rejeitado é muito maior que a de ser aprovado nos exames de seleção. Seja na vida pessoal, seja no campo profissional, ninguém aprecia a sensação de ser confrontado com os próprios limites. Muitas vezes, o desgosto é profundo. Segundo os especialistas em recursos humanos, a melhor maneira de enfrentar o problema é preparar-se para esse momento tão desagradável quanto provável. É preciso aprender a lidar com o não.

"Ninguém deve achar que o não é o final do mundo", diz Renato Guimarães Ferreira, professor de recursos humanos da Fundação Getúlio Vargas. O especialista explica que as seleções hoje estão extremamente rigorosas e subjetivas. Durante um processo de escolha, o candidato precisa provar que tem boa formação, atitudes de liderança, capacidade de trabalhar em equipe, habilidade para negociar e versatilidade, entre outras competências. "Com o excesso de candidatos, critérios confusos e o pouco tempo para análise, é preciso deixar claro ao entrevistador que você é diferente dos demais", afirma Ferreira.

A primeira providência que o candidato deve tomar é fazer o possível para diminuir a possibilidade de ouvir um não, selecionando de forma criteriosa os empregos a que vai concorrer. Para diminuir o risco de rejeição, a prudência recomenda que ele procure vagas compatíveis com seu currículo. Apresentado desse modo, parece um conselho tolo, mas não adianta ficar animado com a possibilidade de abiscoitar aquele cargo sensacional. É preciso descobrir quais são suas chances reais de vencer, e a melhor maneira de conseguir isso é obter informações sobre o perfil dos demais pretendentes. Se uma empresa quer candidatos com nível superior, tem mais possibilidade de obter o emprego quem tem mestrado ou doutorado. Se a vaga requer inglês fluente, leva vantagem quem fala também francês. Quanto maior for a diferença entre a qualificação do candidato e a que é exigida nas provas de seleção, maior sua chance. A maioria dos concorrentes tem o grau de formação básico exigido para o emprego.

Outro cuidado é preparar-se para as entrevistas com o rigor de quem vai prestar vestibular. Os entrevistadores das empresas observam todos os detalhes, mas alguns merecem mais atenção do que outros. A firmeza do candidato ao responder às perguntas conta mais pontos do que se imagina. Tolera-se uma resposta errada, mas rejeita-se a indecisão. É ou não é irritante imaginar que aquele emprego bacana foi para o beleléu por uma hesitação, não por falta de talento?

Nenhum desses cuidados garante o emprego, claro, apenas aumenta as chances de sucesso. Se ainda assim o candidato ouvir um não e a auto-estima for parar no pé, os psicólogos informam que o amor-próprio retorna mais rápido se o jovem tiver o devido equilíbrio para interpretar o que aconteceu. O não raramente é definitivo, ainda que assim pareça a quem o escutou. "Já vi muitas garotas e rapazes desistirem da carreira de modelo por causa das seguidas recusas", conta Analu Oliveira, diretora da agência de modelos Marilyn, de São Paulo. "Para conseguir um lugar nesse meio é preciso estar preparado para ouvir seguidos não e aproveitar os raros sim", diz. Ao contrário do que as pessoas possam ser levadas a pensar, o não muitas vezes serve de estímulo. Será que um estagiário recusado após a entrevista realmente estava preparado para aquela vaga que pretendia disputar? Será que, se fosse aprovado e começasse a trabalhar, não correria o risco de ter sua carreira abortada mais adiante? De mais a mais, é de se perguntar também se ele não poderá disputar novo emprego em alguns meses. Claro que sim.

Depois que recebem a negativa, é normal que as pessoas se dêem o direito de passar dias indagando o que deu errado. Há candidatos que culpam a roupa que usavam na entrevista. Outros lamentam a frase inoportuna dita ao chefe do departamento de recursos humanos. Alguns jovens ficam tão abalados que demoram bom tempo até procurar uma nova vaga. E há os que não contam à família o que aconteceu com medo de serem vistos pelos mais próximos como perdedores. São reações normais de quem se sente rejeitado. Passado o choque inicial, é hora de começar tudo outra vez. E atenção ao que dizem os especialistas: é melhor sofrer uma frustração no começo da carreira. O tombo é menor.

 
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