Edição 1 648 -10/5/2000

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Bolsas

O mar está bravo até
para tubarão

Grandes administradores de fundos
de investimento desistem de entender
o jogo do mercado de ações

César Nogueira

 
Reuters

Soros (à dir.) e Druckenmiller: prejuízo e retirada do mercado de risco

A instabilidade dos mercados de ações é naturalmente um enigma para os investidores novos que, aos milhões em todo o mundo, estão comprando ações, muitos deles pela internet. Mas o que pensar quando os maiores administradores de fundos de investimento do planeta admitem que já não estão entendendo o que acontece e batem em retirada? Em março, Julian Robertson, o piloto do fundo Tiger, segundo maior no ranking internacional, fechou seu balcão e retirou-se dos negócios. "Perdi o toque. Não sei quando as coisas vão melhorar, mas acho que posso ficar gordo, velho e feliz antes que isso aconteça", disse ele.

Agora foi a vez de ninguém menos que George Soros, o megainvestidor internacionalmente conhecido por ter apostado contra o banco central da Inglaterra, forçando-o a desvalorizar a libra esterlina em 1992. Atribui-se a ele, injustamente, o desencadeamento da onda de desequilíbrios financeiros que culminou na crise da Ásia de 1997. Seu fundo de investimento, o Quantum, teve rendimento médio anual de 32% durante três décadas. Um espanto. Entre março e abril deste ano a maré virou e o fundo perdeu 25%. A queda de rendimento foi brusca e levou consigo dois dos principais administradores de George Soros. Stanley Druckenmiller, que foi o menino prodígio de Soros, e Nicholas Roditi pediram as contas e anunciaram que estão se aposentando. Muita gente que tem dinheiro aplicado no Quantum já avisou que vai sacar. O fundo, que tem um estoque de 14 bilhões de dólares, calcula que perderá de imediato 3 bilhões. Não é o fim do mundo, mas Soros sentiu o golpe. Anunciou que vai reformular o Quantum para que ele se torne mais conservador. "O mercado está ficando arriscado demais para mim", explicou.

 
Reuters

Bolsa de Tóquio: o sonho do mercado global é real

Até o legendário investidor americano Warren Buffet, chamado de o "Oráculo de Omaha", que administra o fundo Berkshire Hathaway, recordista em lucratividade nos últimos anos, está achando o mar muito encapelado mesmo para seu fundo de calado oceânico. Buffet é um hábil investidor. Uma vez por ano uma multidão de pequenos investidores se reúne num estádio para ouvir seus conselhos. Mesmo com toda a experiência e sabedoria, Buffet perdeu 27% do valor de seu patrimônio em ações no ano passado. Buffet é conservador e, embora seja amigo íntimo de Bill Gates, dono da Microsoft, tem horror a ações de alta tecnologia, que são os papéis mais promissores do momento. "O mundo está maluco", disse.

Cuidado redobrado – As bolsas de valores nunca foram ambiente para principiantes, mas agora estão dando vertigens até em profissionais do ramo. Se os três tubarões acima estão pasmos com o que vem acontecendo no mercado de ações, é sinal de que o investidor pequeno, inexperiente, que está chegando agora às bolsas, tem de tomar cuidado redobrado. A Nasdaq, a bolsa que lida com ações de empresas de alta tecnologia, fechou em alta de 2,6% na sexta-feira passada. O índice Dow Jones, que dá conta da valorização das ações de empresas da economia tradicional, também fechou em ligeira alta. Foi uma semana excepcionalmente calma para o mercado. A regra tem sido flutuações abruptas, com reflexos negativos sobre o Brasil. "O mercado acionário brasileiro acumula fortes perdas acompanhando a sistemática volatilidade do Dow Jones e do mercado de alto risco da Nasdaq", escreveu o economista Geraldo Langoni no "Aide Memoire", a newsletter que faz um balanço semanal da economia brasileira. "Muita gente está esperando os preços das ações se recuperarem para depois vender", diz Luiz Antônio Vaz das Neves, diretor de investimentos da Planner, corretora de São Paulo.

Há fatores a considerar nesse fenômeno todo. Um deles é que os grandes investidores são homens de certa idade. Soros e Buffet têm 69 anos. Robertson tem 67. Eles cresceram, montaram seus negócios e enriqueceram num mundo que tinha regras mais ou menos claras e estáveis. Empresas eram avaliadas por seu patrimônio, por sua capacidade de produção e pela lucratividade. Investidores aplicavam dinheiro de verdade em ações. Nos últimos tempos, surgiu um instrumento que pareceu capaz de tornar a aventura de investir num passeio turístico. É o chamado hedge, um sistema pelo qual a pessoa faz uma série de aplicações especialmente no mercado futuro – em juros, câmbio, índice de bolsas –, umas compensando as outras. O hedge foi um estouro no princípio. Parecia que era um pára-quedas infalível contra perdas no mercado. Soros e Robertson usaram e abusaram dele. Ocorre que a euforia em torno da novidade foi tamanha que as pessoas começaram a investir dinheiro emprestado, apostando papéis contra papéis, em progressão geométrica. Nesse mundo, quem ganha enriquece muito rapidamente. Quem perde, perde o que não tem. Quando se acrescenta ao hedge a volatilidade dos mercados de alta tecnologia, ele se torna um esporte muito radical. Soros já avisou que está lento demais para as manobras que o mercado exige.

Efeito gangorra – Recentemente até posições sólidas como a da poderosa Microsoft sofreram baques. Processada na Justiça americana, acusada de monopólio e abuso de poder econômico, a empresa de Gates terá um mar encapelado pela frente nos próximos anos. Quem estava acostumado ao desempenho estelar dessas companhias frustrou-se. "As pessoas perderam a capacidade de calcular com exatidão o valor dos papéis", diz Rodrigo Fonseca, analista do banco Opportunity. A nova economia está se mostrando um desafio maior do que o normal para os grandes investidores tradicionais. Desde 1995, quando a Netscape Communications assinalou o início da revolução da internet, muitos jovens entraram no mercado e enriqueceram numa velocidade nunca vista. Não havia como escapar à tentação de aproveitar essa onda. Como se fossem jovens afoitos, Soros e Robertson aplicaram fortunas. No ano passado, quando as ações de internet e de biotecnologia dispararam, ninguém diria que eles estavam errados. Mas o tempo mostrou que seus investimentos foram mal feitos. Nos últimos meses, as empresas que fazem pesquisas na área de biotecnologia, mapeando o DNA ou produzindo alimentos geneticamente modificados, andam sendo foco de polêmicas. Afinal, ainda não produziram remédios ou terapias para os grandes males que afligem a humanidade, o câncer e o ataque cardíaco. A volatilidade das ações de biotecnologia é mais alta ainda do que as de internet.

Os analistas mais otimistas acreditam que as oscilações verificadas até agora não devem repetir-se até o final do ano. O argumento desses analistas é de que a valorização excessiva das bolsas já perdeu fôlego com as quedas recentes e agora a tendência é de estabilidade. Eles imaginam um cenário em que as empresas de tecnologia de boa qualidade consigam firmar-se e produzir os grandes lucros esperados pelos investidores. Não é uma aposta completamente fora da realidade. Afinal, a internet e a nova economia são duas novidades que vieram para ficar. O comportamento positivo das bolsas americanas na semana passada levou oxigênio aos otimistas. As empresas da nova economia terminaram a semana com a cabeça acima da linha d'água mesmo com a divulgação de indicadores que, em outras circunstâncias, seriam mais do que suficientes para empurrá-las para o território do prejuízo. Na quinta-feira, descobriu-se que a produtividade da economia americana cresceu apenas 2,4%, quando se esperava mais do que o dobro. No dia seguinte, saiu o índice de desemprego e o da média salarial. Revelou-se então que a economia dos Estados Unidos está mais perto do que nunca do pleno emprego, enquanto os salários apontam para cima. Sabe-se que esses índices podem ser prenúncio de inflação. Com alta dos preços sempre vêm juros mais elevados e um resfriamento da economia. Portanto, não haveria razão para otimismo nas bolsas. Ainda assim, houve mais gente comprando do que vendendo ações. "Parece que os investidores descobriram uma maneira de contrabalançar as incertezas. O que se tem visto é que, quando a bolsa de ações tradicionais cai, sobe a de ações de alta tecnologia. Enquanto esse efeito balança perdurar as pessoas não verão motivo para vender a qualquer preço", diz o americano Robert Shiller, especialista no mercado de ações e professor de economia da Universidade de Yale.

 

Um pregão que nunca dorme

AP

Bolsa de Frankfurt: mercado de ações europeu rumo à união


Os cavaleiros da nova economia, organizados sob a bandeira da Nasdaq – a bolsa americana que negocia os papéis das empresas de tecnologia e internet –, estão bem perto de realizar um dos sonhos da globalização completa: transformar seu pregão num empreendimento de dimensões planetárias, em que os negócios com ações possam rodar 24 horas por dia. O primeiro passo para a criação dessa superbolsa foi dado na semana passada, aproveitando o embalo da fusão entre as bolsas de Frankfurt e de Londres, que deu origem à iX (abreviatura de international exchanges). Pois bem, ao mesmo tempo que se apresentava ao mundo como a segunda maior bolsa de valores do globo, a iX assinava um acordo com a Nasdaq para criar uma bolsa única na Europa com papéis de empresas de alta tecnologia. Acordos semelhantes estão sendo costurados com Japão, Coréia do Sul e Canadá. Se eles se concretizarem, o sol não vai se pôr nos mercados operados pela Nasdaq. Em algum lugar do mundo, sempre haverá gente comprando e vendendo ações nos pregões eletrônicos. "Estamos realizando nossa visão global", diz Frank Zarb, executivo-chefe da Nasdaq.

O impulso que leva as bolsas a se unir e expandir mercados é o mesmo que age sobre as empresas. Em sua maioria, elas são sociedades mantidas por corretoras de valores e vivem da intermediação da compra e venda de ações. "As bolsas disputam mercado como empresas de serviços", diz o economista Carlos Antonio Roca. Essa lógica de mercado é o que explica o sucesso do modelo da Nasdaq. Ao contrário das bolsas tradicionais, a Nasdaq nasceu com uma estrutura simples de funcionamento, com operações automatizadas e uma burocracia muito mais leve e mais barata. Isso fez com que ela fosse a preferida das empresas que surgiram na onda da internet. Quando o mercado dessas companhias disparou, a bolsa tornou-se a grande estrela da economia. Agora é também a que tem maior facilidade para se expandir.

A tendência à globalização não se restringe ao mercado de ações da nova economia. As bolsas tradicionais também procuram unir-se para reduzir os custos e atrair mais investidores. No Brasil, foi o que ocorreu com a absorção da Bolsa do Rio de Janeiro pela Bolsa de São Paulo. No Mercosul, um dos temas em pauta é a formação de um mercado de capitais conjunto. No continente europeu, a iX está articulando acordos com as bolsas de Milão e Madri. Pensando em isolar a forte concorrência alemã, os franceses tentaram atrair os ingleses para a Euronext, que reúne as bolsas de Paris, Bruxelas e Amsterdã. Foram passados para trás com a criação da anglo-teutônica iX. A nova bolsa deverá adotar o euro como moeda e o inglês como língua oficial. É provável que todas elas caminhem para a integração, no âmbito do mercado europeu.

Para o Brasil, esse processo de fusões soa como um alarme. Nas economias desenvolvidas, as bolsas funcionam como um instrumento para captar dinheiro de investidores e transferi-lo para empresas. São esses recursos que financiam negócios. Com mercados fortíssimos se armando no exterior, a capacidade da bolsa brasileira de atrair investidores diminui. Ela tende a ficar mais anêmica. "Temos de reformar rapidamente nosso mercado de capitais", diz Roca.

 
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