Os bem-aventurados
Estudo mostra quem são, onde estão,
quanto
têm e o que querem os mais ricos do planeta
Eliana Giannella Simonetti
O que não falta são informações
detalhadas sobre a miséria que resiste à modernização
e teima em existir em todos os cantos do mundo. Raros são
os estudos sobre a propagação da riqueza.
É justamente o tema de um trabalho feito pela Merrill
Lynch e pela Gemini Consulting, duas empresas sérias,
com escritórios espalhados por diversos países,
que há quatro anos dedicam parte do tempo a descobrir
quem são os ricos, onde eles estão, quanto
dinheiro têm e quais são suas aspirações.
O objetivo do estudo é pragmático: quem conhece
os ricos tem mais chance de atraí-los, atendê-los
melhor e assim lucrar mais. O trabalho feito pelos dois
grupos é uma peça raríssima pela precisão
e ausência de ranço político ou ideológico.
Suas últimas estatísticas, divulgadas na semana
passada, revelam que o número de milionários
está aumentando rapidamente no planeta e que as fortunas
estão mais bem distribuídas. De acordo com
suas previsões, o número de milionários
crescerá a uma taxa média de 12% ao ano nos
próximos cinco anos e a riqueza acumulada nas mãos
dos afortunados atingirá 45 trilhões de dólares
em 2004.

Com dados fornecidos por fontes como o Banco Mundial,
o Fundo Monetário Internacional, institutos oficiais
de pesquisa e bolsas de valores, a Merrill Lynch e a Gemini
montaram uma equação que permite até
mesmo estimar fortunas não declaradas e investimentos
feitos em paraísos fiscais. Suas principais constatações
são as seguintes:
Há hoje, no mundo, 7 milhões
de pessoas com mais de 1 milhão de dólares
aplicados em bancos. Só no ano passado surgiu 1 milhão
de novos milionários. A maioria desses novos ricos
é composta de empresários ligados a negócios
de alta tecnologia e à internet. Mas muitos enriquecem
vendendo empresas familiares a fundos de investimento.
Os supermilionários, felizardos
que possuem mais de 30 milhões de dólares,
são 55.400 (veja
quadro). Nesse clube estão tipos tão
diversos como o nerd americano Bill Gates, dono da
Microsoft, com estimados 54 bilhões de dólares,
e o banqueiro brasileiro Aloysio Faria, dono do Banco Alfa
e de cerca de 2 bilhões de reais.
A riqueza está concentrada
nos Estados Unidos. Há 2,5 milhões de milionários
americanos. Mas quem está ganhando a corrida da fortuna
são os asiáticos. Com crise financeira e tudo,
o número de ricos asiáticos cresceu 46% entre
1997 e 1999. Eles eram 1,7 milhão no ano passado.
O número de milionários
na América Latina não se tem alterado. São
200.000 desde 1997. E sua riqueza,
somada, saltou de 2 trilhões de dólares em
1997 para 3 trilhões no ano passado.
Embora a distância entre os
países ricos e pobres esteja aumentando, a riqueza
vem sendo mais bem distribuída. Houve uma queda de
6% na fortuna média dos ultra-ricos nos últimos
quatro anos.
Descobre-se na pesquisa, também, que a riqueza
proveniente de heranças vem perdendo peso no universo
dos milionários. E negócios tradicionais como
imóveis, comércio e petróleo têm
tido sua importância reduzida na geração
de fortunas. Os novos milionários atuam em áreas
de alta tecnologia. Internet, computação e
telecomunicações são as minas do momento.
Primeiro, por serem áreas ainda jovens, que permitem
que desbravadores construam fortunas do dia para a noite.
E depois porque há um otimismo generalizado em relação
ao futuro de empresas ligadas a esses setores, o que valoriza
suas ações nas bolsas.
Os analistas que realizaram o trabalho, denominado "World
wealth report 2000" (relatório sobre a riqueza mundial
2000, em português), dizem que o salto no número
de milionários se deve a duas razões principais.
A primeira é o crescimento da economia mundial. Novas
técnicas de produção e administração
e a abertura comercial permitiram que se produzisse mais
riqueza com menos esforço e investimento. A segunda
razão é a agitação no mercado
de ações. Há muitas empresas abrindo
capital e cada vez mais gente investe em papéis de
companhias privadas. Somente no último ano o mercado
de ações cresceu 50% na França, 30%
na Alemanha e 26% no Leste Europeu. Calcula-se que, nos
próximos três anos, um quarto das empresas
americanas de porte médio com valor variando entre
80 milhões de dólares e 250 milhões
de dólares será vendido. Os vendedores
formarão um novo batalhão de milionários.
Os milionários são consumidores exigentes.
Querem ser servidos com presteza e qualidade. Mas há
novidades também nessa área. Os novos ricos
descobertos na pesquisa não fazem muita questão
de esconder suas fortunas. Não fogem para paraísos
fiscais. Ao contrário, preferem investir em seus
próprios países. Também não
temem arriscar grandes somas de dinheiro numa única
aposta. Mas fazem questão de ter informações
rápidas e eficientes de quem lhes presta serviços.
E isso não apenas no que diz respeito ao dinheiro.
Querem ter conselheiros até para a educação
dos filhos, para escolher o melhor atendimento médico
e alternativas de lazer. "As exigências estão
ficando cada dia mais requintadas", diz Winthrop Smith Jr.,
presidente do segmento da Merrill Lynch que administra fortunas
pessoais. "Quem for capaz de atendê-las ganhará
muito dinheiro." O conselho está dado. E de graça.
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