Edição 1 648 -10/5/2000

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Os bem-aventurados

Estudo mostra quem são, onde estão, quanto
têm e o que querem os mais ricos do planeta

Eliana Giannella Simonetti

O que não falta são informações detalhadas sobre a miséria que resiste à modernização e teima em existir em todos os cantos do mundo. Raros são os estudos sobre a propagação da riqueza. É justamente o tema de um trabalho feito pela Merrill Lynch e pela Gemini Consulting, duas empresas sérias, com escritórios espalhados por diversos países, que há quatro anos dedicam parte do tempo a descobrir quem são os ricos, onde eles estão, quanto dinheiro têm e quais são suas aspirações. O objetivo do estudo é pragmático: quem conhece os ricos tem mais chance de atraí-los, atendê-los melhor e assim lucrar mais. O trabalho feito pelos dois grupos é uma peça raríssima pela precisão e ausência de ranço político ou ideológico. Suas últimas estatísticas, divulgadas na semana passada, revelam que o número de milionários está aumentando rapidamente no planeta e que as fortunas estão mais bem distribuídas. De acordo com suas previsões, o número de milionários crescerá a uma taxa média de 12% ao ano nos próximos cinco anos e a riqueza acumulada nas mãos dos afortunados atingirá 45 trilhões de dólares em 2004.

 




Com dados fornecidos por fontes como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, institutos oficiais de pesquisa e bolsas de valores, a Merrill Lynch e a Gemini montaram uma equação que permite até mesmo estimar fortunas não declaradas e investimentos feitos em paraísos fiscais. Suas principais constatações são as seguintes:

Há hoje, no mundo, 7 milhões de pessoas com mais de 1 milhão de dólares aplicados em bancos. Só no ano passado surgiu 1 milhão de novos milionários. A maioria desses novos ricos é composta de empresários ligados a negócios de alta tecnologia e à internet. Mas muitos enriquecem vendendo empresas familiares a fundos de investimento.

Os supermilionários, felizardos que possuem mais de 30 milhões de dólares, são 55.400 (veja quadro). Nesse clube estão tipos tão diversos como o nerd americano Bill Gates, dono da Microsoft, com estimados 54 bilhões de dólares, e o banqueiro brasileiro Aloysio Faria, dono do Banco Alfa e de cerca de 2 bilhões de reais.

A riqueza está concentrada nos Estados Unidos. Há 2,5 milhões de milionários americanos. Mas quem está ganhando a corrida da fortuna são os asiáticos. Com crise financeira e tudo, o número de ricos asiáticos cresceu 46% entre 1997 e 1999. Eles eram 1,7 milhão no ano passado.

O número de milionários na América Latina não se tem alterado. São 200.000 desde 1997. E sua riqueza, somada, saltou de 2 trilhões de dólares em 1997 para 3 trilhões no ano passado.

Embora a distância entre os países ricos e pobres esteja aumentando, a riqueza vem sendo mais bem distribuída. Houve uma queda de 6% na fortuna média dos ultra-ricos nos últimos quatro anos.

Descobre-se na pesquisa, também, que a riqueza proveniente de heranças vem perdendo peso no universo dos milionários. E negócios tradicionais como imóveis, comércio e petróleo têm tido sua importância reduzida na geração de fortunas. Os novos milionários atuam em áreas de alta tecnologia. Internet, computação e telecomunicações são as minas do momento. Primeiro, por serem áreas ainda jovens, que permitem que desbravadores construam fortunas do dia para a noite. E depois porque há um otimismo generalizado em relação ao futuro de empresas ligadas a esses setores, o que valoriza suas ações nas bolsas.

Os analistas que realizaram o trabalho, denominado "World wealth report 2000" (relatório sobre a riqueza mundial 2000, em português), dizem que o salto no número de milionários se deve a duas razões principais. A primeira é o crescimento da economia mundial. Novas técnicas de produção e administração e a abertura comercial permitiram que se produzisse mais riqueza com menos esforço e investimento. A segunda razão é a agitação no mercado de ações. Há muitas empresas abrindo capital e cada vez mais gente investe em papéis de companhias privadas. Somente no último ano o mercado de ações cresceu 50% na França, 30% na Alemanha e 26% no Leste Europeu. Calcula-se que, nos próximos três anos, um quarto das empresas americanas de porte médio – com valor variando entre 80 milhões de dólares e 250 milhões de dólares – será vendido. Os vendedores formarão um novo batalhão de milionários.

Os milionários são consumidores exigentes. Querem ser servidos com presteza e qualidade. Mas há novidades também nessa área. Os novos ricos descobertos na pesquisa não fazem muita questão de esconder suas fortunas. Não fogem para paraísos fiscais. Ao contrário, preferem investir em seus próprios países. Também não temem arriscar grandes somas de dinheiro numa única aposta. Mas fazem questão de ter informações rápidas e eficientes de quem lhes presta serviços. E isso não apenas no que diz respeito ao dinheiro. Querem ter conselheiros até para a educação dos filhos, para escolher o melhor atendimento médico e alternativas de lazer. "As exigências estão ficando cada dia mais requintadas", diz Winthrop Smith Jr., presidente do segmento da Merrill Lynch que administra fortunas pessoais. "Quem for capaz de atendê-las ganhará muito dinheiro." O conselho está dado. E de graça.

 
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