Na literatura médica, para cada vinte páginas
sobre os dissabores sexuais masculinos há duas apenas
sobre os femininos. Não se trata de um processo perverso
da ciência contra as mulheres. Tampouco significa
que elas sejam mais felizes na cama do que eles. Ao contrário,
pesquisas mostram que seis de cada dez brasileiras não
sentem prazer nas relações sexuais. Entre
os homens, três em dez. Por muito tempo, acreditava-se
que os problemas sexuais femininos só poderiam ser
resolvidos no divã do psicanalista. Não é
mais assim. Avanços no conhecimento da sexualidade
humana revelaram que o mecanismo fisiológico das
disfunções sexuais de homens e mulheres é
bastante parecido. Isso permitiu a pesquisa de produtos
capazes de conceder à sexualidade feminina o tipo
de ajuda que o Viagra dá à masculina. Na semana
passada, o FDA, o departamento do governo americano que
fiscaliza alimentos e remédios, aprovou a venda do
primeiro dispositivo para mulheres com disfunção
sexual. Trata-se de um aparelhinho muito parecido com o
que já existe há pelo menos duas décadas
para os homens.
Batizada de Eros, em homenagem ao deus grego do amor,
a engenhoca é fabricada pela empresa UroMetrics.
Trata-se de uma bomba a vácuo, eletrônica,
com uma espécie de dedal na ponta pequena o suficiente
para caber na palma da mão. Acoplado ao clitóris
por alguns minutos, o aparelho facilita a irrigação
sanguínea do órgão. No homem, o aporte
de sangue em direção ao pênis provoca
a ereção. Na mulher, leva ao intumescimento
do clitóris e à lubrificação
da vagina. Só há quatro décadas os
cientistas perceberam que o orgasmo feminino depende da
tumescência do clitóris. O prazer proporcionado
pelo Eros tem hora e tempo marcados. Se não houver
intimidade entre o casal, a geringonça pode anular
o romantismo do encontro amoroso. Primeiro, porque a mulher
precisa planejar com antecedência o momento em que
ocorrerá o sexo. Além disso, o efeito do Eros
dura menos de uma hora. "A mulher pode não se sentir
à vontade em usá-lo na frente do parceiro",
diz a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade,
da Universidade de São Paulo.
Os estudos feitos com a bomba a vácuo, sobre os
quais se baseou o o.k. do FDA, mostram que, apesar de todas
as inconveniências, o Eros funciona. Das quinze mulheres
tratadas, todas ficaram sexualmente excitadas (veja
quadro). A bombinha será especialmente útil
para quem está se aproximando da menopausa ou já
passou por essa fase, em que cessa a produção
hormonal e diminui o apetite sexual. Doenças típicas
da velhice, como diabetes e aterosclerose, também
dificultam a chegada de sangue ao órgão genital.
A única alternativa conhecida eram doses extras de
hormônio, terapia associada ao risco de câncer.
Enquanto não é inventado o Viagra feminino,
Eros pode ser a solução.
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