Edição 1 648 -10/5/2000

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Na literatura médica, para cada vinte páginas sobre os dissabores sexuais masculinos há duas apenas sobre os femininos. Não se trata de um processo perverso da ciência contra as mulheres. Tampouco significa que elas sejam mais felizes na cama do que eles. Ao contrário, pesquisas mostram que seis de cada dez brasileiras não sentem prazer nas relações sexuais. Entre os homens, três em dez. Por muito tempo, acreditava-se que os problemas sexuais femininos só poderiam ser resolvidos no divã do psicanalista. Não é mais assim. Avanços no conhecimento da sexualidade humana revelaram que o mecanismo fisiológico das disfunções sexuais de homens e mulheres é bastante parecido. Isso permitiu a pesquisa de produtos capazes de conceder à sexualidade feminina o tipo de ajuda que o Viagra dá à masculina. Na semana passada, o FDA, o departamento do governo americano que fiscaliza alimentos e remédios, aprovou a venda do primeiro dispositivo para mulheres com disfunção sexual. Trata-se de um aparelhinho muito parecido com o que já existe há pelo menos duas décadas para os homens.

Batizada de Eros, em homenagem ao deus grego do amor, a engenhoca é fabricada pela empresa UroMetrics. Trata-se de uma bomba a vácuo, eletrônica, com uma espécie de dedal na ponta – pequena o suficiente para caber na palma da mão. Acoplado ao clitóris por alguns minutos, o aparelho facilita a irrigação sanguínea do órgão. No homem, o aporte de sangue em direção ao pênis provoca a ereção. Na mulher, leva ao intumescimento do clitóris e à lubrificação da vagina. Só há quatro décadas os cientistas perceberam que o orgasmo feminino depende da tumescência do clitóris. O prazer proporcionado pelo Eros tem hora e tempo marcados. Se não houver intimidade entre o casal, a geringonça pode anular o romantismo do encontro amoroso. Primeiro, porque a mulher precisa planejar com antecedência o momento em que ocorrerá o sexo. Além disso, o efeito do Eros dura menos de uma hora. "A mulher pode não se sentir à vontade em usá-lo na frente do parceiro", diz a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade, da Universidade de São Paulo.

Os estudos feitos com a bomba a vácuo, sobre os quais se baseou o o.k. do FDA, mostram que, apesar de todas as inconveniências, o Eros funciona. Das quinze mulheres tratadas, todas ficaram sexualmente excitadas (veja quadro). A bombinha será especialmente útil para quem está se aproximando da menopausa ou já passou por essa fase, em que cessa a produção hormonal e diminui o apetite sexual. Doenças típicas da velhice, como diabetes e aterosclerose, também dificultam a chegada de sangue ao órgão genital. A única alternativa conhecida eram doses extras de hormônio, terapia associada ao risco de câncer. Enquanto não é inventado o Viagra feminino, Eros pode ser a solução.

 

 
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