Edição 1 648 -10/5/2000

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O vírus do amor

A rapidez com que o ILOVEYOU se espalhou
obriga os especialistas a repensar a segurança na rede

Roberta Paduan

 

Microsoft / Rich Andrews


O vírus atingiu os computadores de grandes empresas, como a Microsoft, e paralisou por alguns instantes as máquinas de repartições importantes do governo americano, como a CIA

Pouca gente deixaria de abrir um e-mail que chegasse ao computador e se apresentasse como uma mensagem de amor. Pois foi justamente sob a aparência inofensiva de uma declaração de carinho que um vírus batizado de ILOVEYOU se espalhou pela internet na quinta-feira da semana passada e provocou um estrago enorme ao redor do mundo. Estima-se que, em apenas 24 horas, 45 milhões de usuários da internet tenham recebido o e-mail. Nos Estados Unidos, grandes empresas, como a Ford e a Microsoft, e repartições estratégicas do governo, como o Exército e a Marinha, foram atacadas e tiveram de desativar seu sistema de correio eletrônico para que os técnicos pudessem combater o vírus. Os computadores da agência espacial americana, a Nasa, e da CIA, a central de inteligência, também ficaram algum tempo fora do ar. O ILOVEYOU provocou estragos na Europa, na Ásia e em todos os lugares por onde passou, inclusive o Brasil. Os 3.000 computadores do Senado, em Brasília, ficaram sem correio eletrônico na quinta-feira. A empresa de telefonia Vésper foi atacada. Os servidores do portal Globo.com ficaram parados durante cinco horas, e os usuários receberam mensagens advertindo para o risco de abrir a correspondência ILOVEYOU.

 
AP
Técnico do provedor filipino SKYInternet explica como o vírus partiu de suas máquinas para o resto do planeta

"Foi o pior ataque ocorrido até hoje, se levarmos em conta a velocidade de multiplicação", afirma Daniel Nausbaum, gerente de engenharia de sistemas da filial brasileira da Network Associates, uma firma de segurança em rede. Conforme os cálculos da ICSA.net, uma conceituada empresa americana especializada em segurança de internet, o ataque provocou apenas na quinta-feira nos Estados Unidos prejuízos da ordem de 100 milhões de dólares. Considerando-se que o ILOVEYOU chegou a outros países e continuou a produzir estragos, a ICSA estima que as perdas podem ultrapassar 1 bilhão de dólares. É um valor mais do que expressivo para apenas dois dias de confusão.

Durante todo o ano passado, os gastos provocados por vírus somaram 12 bilhões de dólares, conforme uma estimativa da Computer Economics, uma firma de consultoria especializada em negócios digitais. Até a infecção da semana passada, a epidemia mais letal da rede era o vírus Melissa, de março de 1999, o primeiro que desenvolveu a capacidade de se multiplicar na internet em grande escala. O ILOVEYOU, uma cópia aperfeiçoada do Melissa, baseou-se na boa-fé dos usuários de internet para se alastrar. A parte mais engenhosa do plano foi justamente dar ao lobo o aspecto de cordeiro. A pessoa recebia uma mensagem aparentemente amistosa e, ao abri-la, encontrava um pedido carinhoso para que abrisse um arquivo anexo, chamado Carta de Amor para Você. (Em inglês, LOVE-LETTER-FOR.YOU.TXT.) Era nesse ponto que o vírus se hospedava.

O ILOVEYOU é programado para atacar e destruir alguns arquivos selecionados, entre eles os de imagens digitais e os de música em formato MP3. Essa é a primeira frente de ataque. Uma segunda linha de fogo atinge os usuários do Outlook, o programa de correio eletrônico desenvolvido pela Microsoft e instalado em mais ou menos 70% dos computadores do mundo inteiro. O ILOVEYOU é programado para ler todos os endereços de e-mail armazenados no Outlook e seguir imediatamente em direção a eles. Ali eles repetem o estrago nos arquivos e mais uma vez seguem em direção aos endereços armazenados. Aqui está seu poder destrutivo. O Melissa tinha uma função semelhante, mas escolhia apenas cinqüenta endereços. O ILOVEYOU envia mensagens para todos os endereços arquivados, criando uma progressão geométrica assustadora e de alto poder destrutivo. Na sexta-feita, sete outras versões do vírus, desenvolvidas provavelmente por vários baderneiros virtuais que gostaram da idéia e resolveram copiá-la cada um por sua conta, já haviam sido identificadas. Todas traziam mensagens de aparência igualmente inocente, como joke (piada) e mother's day (dia das mães). Os autores encontraram as informações para montar os vírus na própria rede. "Infelizmente, qualquer garoto com um conhecimento mínimo de programação pode ter um vírus particular", afirma o diretor de tecnologia da Trend Micro, André Pitkowski. É esse tipo de facilidade que vem assustando os especialistas em segurança da rede de todo o mundo.

 

U.S. Defense Department

A agência espacial americana, a Nasa, também não escapou do ataque. Ao entrar nos computadores, o vírus danifica arquivos de som e imagem

O lado mais curioso desse ataque não foi o funcionamento do vírus, mas de onde ele partiu. O ataque, que paralisou grandes empresas, afetou o sistema de comunicação de agências governamentais e deixou muita gente assustada com sua dimensão, partiu de um computador doméstico comum, e tudo indica que tenha sido elaborado por um rapaz de 23 anos pouco chegado aos estudos. Ao rastrear o ILOVEYOU, as empresas de segurança e a polícia federal americana, o FBI, encontraram no código do vírus as palavras "Manila" e "Filipinas", além da frase "odeio ir à escola". Descobriu-se, em seguida, que o ataque realmente partiu de um provedor de acesso filipino chamado SKYInternet. Mais alguns passos depois, chegou-se ao suspeito. O rapaz é morador de um bairro de classe média nos arredores de Manila. Até a noite de sexta-feira passada, a polícia ainda não havia dado detalhes precisos sobre a identidade do rapaz nem sobre o que acontecerá com ele. Se o governo filipino seguir o exemplo americano, ele irá parar atrás das grades. O criador do Melissa, um programador americano chamado David Smith, de 31 anos, foi preso e pode ficar até dez anos na prisão.

Desde que o primeiro vírus para computadores, conhecido como Jerusalém, foi criado, no início dos anos 90, mais de 35.000 tipos foram identificados. Desses, oitenta foram desenvolvidos no Brasil. Antes da internet, o meio mais comum de propagação eram os disquetes. Com o crescimento da rede, os riscos de contaminação aumentaram e muito, e muita gente vê nos vírus armas que podem ser utilizadas inclusive em ataques terroristas. Na outra ponta, os mecanismos de defesa estão cada vez mais sofisticados. Nos Estados Unidos, a investigação sobre o problema está a cargo do FBI, e os sistemas de rastreamento vêm se mostrando eficientes. Tanto que, no caso do ILOVEYOU, o suspeito foi apontado em menos de 24 horas.

 

 
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Da internet
  Network Associates