O vírus do amor
A rapidez com que o ILOVEYOU se espalhou
obriga os especialistas a repensar a segurança na
rede
Roberta Paduan
|
Microsoft / Rich Andrews
|
 |
| O vírus atingiu
os computadores de grandes empresas, como a Microsoft,
e paralisou por alguns instantes as máquinas
de repartições importantes do governo
americano, como a CIA |
Pouca gente deixaria de abrir um e-mail que chegasse ao
computador e se apresentasse como uma mensagem de amor.
Pois foi justamente sob a aparência inofensiva de
uma declaração de carinho que um vírus
batizado de ILOVEYOU se espalhou pela internet na quinta-feira
da semana passada e provocou um estrago enorme ao redor
do mundo. Estima-se que, em apenas 24 horas, 45 milhões
de usuários da internet tenham recebido o e-mail.
Nos Estados Unidos, grandes empresas, como a Ford e a Microsoft,
e repartições estratégicas do governo,
como o Exército e a Marinha, foram atacadas e tiveram
de desativar seu sistema de correio eletrônico para
que os técnicos pudessem combater o vírus.
Os computadores da agência espacial americana, a Nasa,
e da CIA, a central de inteligência, também
ficaram algum tempo fora do ar. O ILOVEYOU provocou estragos
na Europa, na Ásia e em todos os lugares por onde
passou, inclusive o Brasil. Os 3.000
computadores do Senado, em Brasília, ficaram sem
correio eletrônico na quinta-feira. A empresa de telefonia
Vésper foi atacada. Os servidores do portal Globo.com
ficaram parados durante cinco horas, e os usuários
receberam mensagens advertindo para o risco de abrir a correspondência
ILOVEYOU.
AP
 |
| Técnico do provedor filipino
SKYInternet explica como o vírus partiu de suas
máquinas para o resto do planeta |
"Foi o pior ataque ocorrido até hoje, se levarmos
em conta a velocidade de multiplicação", afirma
Daniel Nausbaum, gerente de engenharia de sistemas da filial
brasileira da Network Associates, uma firma de segurança
em rede. Conforme os cálculos da ICSA.net, uma conceituada
empresa americana especializada em segurança de internet,
o ataque provocou apenas na quinta-feira nos Estados Unidos
prejuízos da ordem de 100 milhões de dólares.
Considerando-se que o ILOVEYOU chegou a outros países
e continuou a produzir estragos, a ICSA estima que as perdas
podem ultrapassar 1 bilhão de dólares. É
um valor mais do que expressivo para apenas dois dias de
confusão.
Durante todo o ano passado, os gastos provocados por vírus
somaram 12 bilhões de dólares, conforme uma
estimativa da Computer Economics, uma firma de consultoria
especializada em negócios digitais. Até a
infecção da semana passada, a epidemia mais
letal da rede era o vírus Melissa, de março
de 1999, o primeiro que desenvolveu a capacidade de se multiplicar
na internet em grande escala. O ILOVEYOU, uma cópia
aperfeiçoada do Melissa, baseou-se na boa-fé
dos usuários de internet para se alastrar. A parte
mais engenhosa do plano foi justamente dar ao lobo o aspecto
de cordeiro. A pessoa recebia uma mensagem aparentemente
amistosa e, ao abri-la, encontrava um pedido carinhoso para
que abrisse um arquivo anexo, chamado Carta de Amor para
Você. (Em inglês, LOVE-LETTER-FOR.YOU.TXT.)
Era nesse ponto que o vírus se hospedava.
O ILOVEYOU é programado para atacar e destruir
alguns arquivos selecionados, entre eles os de imagens digitais
e os de música em formato MP3. Essa é a primeira
frente de ataque. Uma segunda linha de fogo atinge os usuários
do Outlook, o programa de correio eletrônico desenvolvido
pela Microsoft e instalado em mais ou menos 70% dos computadores
do mundo inteiro. O ILOVEYOU é programado para ler
todos os endereços de e-mail armazenados no Outlook
e seguir imediatamente em direção a eles.
Ali eles repetem o estrago nos arquivos e mais uma vez seguem
em direção aos endereços armazenados.
Aqui está seu poder destrutivo. O Melissa tinha uma
função semelhante, mas escolhia apenas cinqüenta
endereços. O ILOVEYOU envia mensagens para todos
os endereços arquivados, criando uma progressão
geométrica assustadora e de alto poder destrutivo.
Na sexta-feita, sete outras versões do vírus,
desenvolvidas provavelmente por vários baderneiros
virtuais que gostaram da idéia e resolveram copiá-la
cada um por sua conta, já haviam sido identificadas.
Todas traziam mensagens de aparência igualmente inocente,
como joke (piada) e mother's day (dia das mães).
Os autores encontraram as informações para
montar os vírus na própria rede. "Infelizmente,
qualquer garoto com um conhecimento mínimo de programação
pode ter um vírus particular", afirma o diretor de
tecnologia da Trend Micro, André Pitkowski. É
esse tipo de facilidade que vem assustando os especialistas
em segurança da rede de todo o mundo.
|
U.S. Defense Department
|
| A agência espacial
americana, a Nasa, também não escapou
do ataque. Ao entrar nos computadores, o vírus
danifica arquivos de som e imagem |
O lado mais curioso desse ataque não foi o funcionamento
do vírus, mas de onde ele partiu. O ataque, que paralisou
grandes empresas, afetou o sistema de comunicação
de agências governamentais e deixou muita gente assustada
com sua dimensão, partiu de um computador doméstico
comum, e tudo indica que tenha sido elaborado por um rapaz
de 23 anos pouco chegado aos estudos. Ao rastrear o ILOVEYOU,
as empresas de segurança e a polícia federal
americana, o FBI, encontraram no código do vírus
as palavras "Manila" e "Filipinas", além da frase
"odeio ir à escola". Descobriu-se, em seguida, que
o ataque realmente partiu de um provedor de acesso filipino
chamado SKYInternet. Mais alguns passos depois, chegou-se
ao suspeito. O rapaz é morador de um bairro de classe
média nos arredores de Manila. Até a noite
de sexta-feira passada, a polícia ainda não
havia dado detalhes precisos sobre a identidade do rapaz
nem sobre o que acontecerá com ele. Se o governo
filipino seguir o exemplo americano, ele irá parar
atrás das grades. O criador do Melissa, um programador
americano chamado David Smith, de 31 anos, foi preso e pode
ficar até dez anos na prisão.
Desde que o primeiro vírus para computadores, conhecido
como Jerusalém, foi criado, no início dos
anos 90, mais de 35.000 tipos
foram identificados. Desses, oitenta foram desenvolvidos
no Brasil. Antes da internet, o meio mais comum de propagação
eram os disquetes. Com o crescimento da rede, os riscos
de contaminação aumentaram e muito, e muita
gente vê nos vírus armas que podem ser utilizadas
inclusive em ataques terroristas. Na outra ponta, os mecanismos
de defesa estão cada vez mais sofisticados. Nos Estados
Unidos, a investigação sobre o problema está
a cargo do FBI, e os sistemas de rastreamento vêm
se mostrando eficientes. Tanto que, no caso do ILOVEYOU,
o suspeito foi apontado em menos de 24 horas.
Saiba
mais |
|
|
|