Edição 1 648 -10/5/2000

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Cerco ao cigarro

Agora, no Brasil, são os fabricantes que têm
de provar que nicotina não faz mal à saúde


Egberto Nogueira
Indústria poderosa: 6 bilhões de dólares faturados por ano no país

A indústria do fumo brasileira sofreu um golpe e tanto na semana passada. A Philip Morris e a Souza Cruz, as maiores fabricantes de cigarros do país, tinham esperança de anular uma ação movida em São Paulo por fumantes e ex-fumantes em busca de indenizações pelos malefícios causados pelo tabaco. Na quinta-feira, porém, ao julgar o mérito da ação, o Superior Tribunal de Justiça decidiu por unanimidade que o processo impetrado pela Associação de Defesa da Saúde do Fumante (Adesf) é legítimo e deve prosseguir. Com a decisão, para escapar de uma condenação, os fabricantes serão obrigados de agora em diante a provar que nicotina não vicia. No jargão jurídico, o fato leva o nome de inversão do ônus da prova. Em geral, quem propõe a ação é que precisa demonstrar que foi lesado. Ou seja, perante a Justiça, as fábricas de cigarro são culpadas até prova em contrário. Com isso, abre-se a possibilidade de que milhares de pessoas as processem.


Nos Estados Unidos, a guerra contra essa indústria se desenrola há quase cinco décadas. Desde 1954, 800 ações foram julgadas. Só em 1999, no entanto, as primeiras grandes vitórias começaram a surgir. Entre fevereiro e março daquele ano, a Philip Morris foi condenada a pagar mais de 130 milhões de dólares a duas vítimas de câncer de pulmão. Quatro meses depois, juntamente com a British American Tobacco e a R.J. Reynolds, a Philips Morris foi considerada culpada por vender produto viciante e danoso à saúde. O veredicto contra as empresas foi dado por um júri da Flórida e significou a maior derrota já sofrida pelos fabricantes. Pela primeira vez na história, deu-se ganho de causa antecipado a todos os fumantes de um único Estado que porventura foram prejudicados pelo cigarro. Estima-se que isso possa custar 500 bilhões de dólares à indústria americana do tabaco. A ironia é que, apesar da fúria antifumo, o consumo continua a aumentar. Há seis anos, acendiam-se 5,1 trilhões de cigarros por ano no mundo. Hoje, a cortina de fumaça está ainda mais densa (veja quadro acima). No ano passado, 106 bilhões de cigarros foram vendidos legalmente no Brasil, o que representou um faturamento de 6 bilhões de dólares.

Há mais de 60.000 pesquisas registradas pela Organização Mundial de Saúde sobre os danos causados pelo fumo. Ninguém mais duvida que o cigarro é responsável pelo aparecimento de vários tipos de câncer, como o de pulmão, boca, bexiga e estômago. De cada dez vítimas fatais de tumores malignos no pulmão, nove fumavam. Uma em cada quatro mortes por problemas vasculares cerebrais também está relacionada ao tabaco. Já se provou também que o cigarro não faz mal apenas ao fumante. Um estudo da Universidade Harvard com 30.000 mulheres de 36 a 61 anos, entre 1982 e 1997, mostra que mulheres saudáveis que nunca fumaram mas convivem com fumantes em casa ou no escritório passam a ter o dobro de possibilidade de desenvolver uma doença do coração. A fumaça do cigarro contém 75% do monóxido de carbono expelido pelo escapamento de um carro.

Outra pesquisa divulgada recentemente revela que, em média, o brasileiro dá as primeiras tragadas aos 13 anos. Quem começa a fumar assim tão cedo demora muito mais para se livrar do vício. O risco de um jovem se tornar dependente de nicotina é de 99%. De maconha, 50% e de álcool, 12%. É mais fácil, portanto, verificar a existência de Papai Noel do que provar que cigarro não vicia.

 
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