Edição 1 648 -10/5/2000

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Sem cobra nem maçã

Cientistas identificam dezoito "Evas" e dez "Adãos"
na origem de toda a humanidade atual



O casal no paraíso: um homem e uma mulher africanos deram a base genética para o resto do mundo

Imagine toda a humanidade, os 6 bilhões de pessoas dos cerca de 200 países do mundo, como membros de uma única família, descendentes de dezoito irmãs e dez irmãos. Utópico? Religioso? Nada disso. Quem afirma isso são cientistas. Na semana passada, estudiosos das universidades Emory, na Geórgia, e Stanford, na Califórnia, divulgaram os contornos da mais longeva árvore genealógica que a humanidade já teve. Eles se entranharam nas microestruturas das células humanas para descobrir que todos nós descendemos de apenas dezoito linhagens genéticas femininas e dez masculinas, provenientes de uma mulher e um homem que viveram há cerca de 200.000 anos, o Adão e a Eva que deram origem a toda a humanidade. Nessa época, calculam os pesquisadores, toda a população de Homo sapiens do planeta não passava de 2.000 pessoas perdidas na África. Um retrato impressionante ainda envolto em mistério e polêmicas acadêmicas.


A idéia de que a humanidade descende de uma única mulher extrapolou o livro do Gênese e ganhou as universidades há treze anos, quando pesquisadores da Universidade de Berkeley encontraram a ancestral genética comum a toda humanidade. Diferentemente do que prega a Bíblia, ela não era a única mulher existente, mas foi a mais apta a passar sua marca biológica à vasta descendência. Os pesquisadores californianos chegaram a essa conclusão depois de analisar uma estrutura celular, a mitocôndria, transmitida por herança materna e que se mantém incólume ao liquidificador genético acionado cada vez que um óvulo é atingido pelo espermatozóide. Diferentemente do que acontece no núcleo da célula, onde se misturam genes do pai e da mãe no DNA da futura criança, na mitocôndria o DNA materno permanece praticamente intacto. As únicas alterações que sofre podem ser comparadas a pequenos arranhões genéticos, provocados por erros no processo de cópia de uma célula para outra. Com o tempo e o isolamento geográfico das populações, essas mutações se transformam em novas linhagens ligeiramente diferentes da original. É o caso das dezoito linhagens identificadas pelos pesquisadores da Universidade Emory, de Atlanta. Para localizar os dez descendentes de Adão, o processo foi semelhante, mas valendo-se de outra estrutura celular, o cromossomo Y, transmitido de pai para filho. Em ambos os casos, os pesquisadores identificaram que as ramificações entre as linhagens começaram há 140.000 anos.

Na emaranhada árvore genealógica desenhada pelos geneticistas americanos, todo o povaréu que hoje povoa cinco continentes descende de três linhagens femininas básicas geradas na África. Duas delas subsistem em populações isoladas em áreas remotas do continente, mas a terceira é um verdadeiro sucesso da evolução. "O que mais nos impressionou foi o passado comum de toda a humanidade com a terceira ramificação ocorrida na África", disse o coordenador da pesquisa em Atlanta, Douglas Wallace. "Ela é a origem de toda a população da Europa e da Ásia", constatou o pesquisador em uma entrevista ao jornal The New York Times. Os resultados encontrados por Wallace em suas análises e cálculos coincidem com as principais descobertas arqueológicas. Pela quantidade de mutações sofridas pelo DNA mitocondrial dos europeus, ele pôde calcular que os primeiros Homo sapiens vindos da África chegaram à Europa entre 40.000 e 50.000 anos atrás, datação respaldada por fósseis encontrados no continente. Apesar desse tipo de precisão, a paleoantropologia fundamentada nas análises do DNA mitocondrial ainda enfrenta resistências. Um estudo publicado há cinco meses na prestigiada revista Science demonstrou que nem sempre o código genético materno guardado na mitocôndria se mantém livre dos genes provenientes do pai. Análises realizadas com homens e chimpanzés por pesquisadores ingleses e escoceses mostraram sinais de recombinação entre os genes do pai e da mãe na mitocôndria. Esse tipo de combinação comprometeria drasticamente todas as análises que envolvem o conceito de uma matriz genética feminina comum a toda a humanidade. Como os pesquisadores ingleses não conseguiram identificar a origem da recombinação, o mito genético de Adão e Eva continua de pé, cada vez mais ousado e instigante.

 

Migração pelo caminho do mar

O caminho usado pelos primeiros Homo sapiens para deixar a África e chegar à Ásia e à Europa já rendeu acirradas discussões entre paleontologistas do mundo inteiro. Na semana passada, um grupo de ferrramentas pré-históricas datadas de 125.000 anos encontradas nas margens do Mar Vermelho acabou reforçando as teorias de que a Península do Sinai foi a principal saída para as populações primitivas que migravam em direção à Ásia e à Oceania. Pesquisadores já haviam identificado traços genéticos comuns entre as populações dessas regiões por meio da análise do DNA, mas até agora nenhuma prova fóssil que confirmasse essa rota havia sido encontrada.

Nas pesquisas realizadas no Golfo de Zula, costa da Eritréia, os arqueólogos encontraram centenas de ferramentas de corte e lâminas feitas principalmente de pedra vulcânica e quartzo enterradas em meio a um leito de conchas fossilizadas. Eles acreditam que as peças tenham sido usadas para abrir moluscos marinhos e crustáceos comestíveis. Antes dessa pesquisa, acreditava-se que os homens teriam começado a explorar os recursos marinhos apenas 40.000 anos atrás. "É a mais antiga evidência da adaptação humana aos ambientes costeiros", avalia o pesquisador Robert Walter, do Centro de Investigação Científica de Educação Superior de Ensenada, no México.

Para Walter, os primeiros Homo sapiens praticamente foram forçados a se adaptar ao ambiente costeiro. Foi a forma que encontraram para sobreviver às drásticas alterações climáticas causadas por uma das glaciações. Há cerca de 150.000 anos, uma forte mudança de clima na África tornou áridas as planícies habitadas pelos antepassados do homem moderno. Isso os teria levado a abandonar uma condição de vida relativamente estável para se adaptar a um novo ambiente, o que implicava até mesmo a adoção de uma dieta à base de ostras, mariscos e caranguejos. O resultado foi tão bom que a população cresceu rapidamente e 50.000 anos depois os homens primitivos foram obrigados a migrar novamente. "A dispersão dos humanos para fora da África em direção à Ásia deve ter sido provocada pela competição por comida nas regiões costeiras", acredita Walter. Como já sabiam como se virar à beira do mar, simplesmente seguiram em frente, até chegar à Austrália há 50.000 anos.

 

 

 
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