Sem cobra nem maçã
Cientistas identificam dezoito "Evas" e
dez "Adãos"
na origem de toda a humanidade atual
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| O casal no paraíso: um homem
e uma mulher africanos deram a base genética
para o resto do mundo |
Imagine toda a humanidade, os 6 bilhões de pessoas
dos cerca de 200 países do mundo, como membros de
uma única família, descendentes de dezoito
irmãs e dez irmãos. Utópico? Religioso?
Nada disso. Quem afirma isso são cientistas. Na semana
passada, estudiosos das universidades Emory, na Geórgia,
e Stanford, na Califórnia, divulgaram os contornos
da mais longeva árvore genealógica que a humanidade
já teve. Eles se entranharam nas microestruturas
das células humanas para descobrir que todos nós
descendemos de apenas dezoito linhagens genéticas
femininas e dez masculinas, provenientes de uma mulher e
um homem que viveram há cerca de 200.000
anos, o Adão e a Eva que deram origem a toda a humanidade.
Nessa época, calculam os pesquisadores, toda a população
de Homo sapiens do planeta não passava de
2.000 pessoas perdidas na África.
Um retrato impressionante ainda envolto em mistério
e polêmicas acadêmicas.
A
idéia de que a humanidade descende de uma única
mulher extrapolou o livro do Gênese e ganhou as universidades
há treze anos, quando pesquisadores da Universidade
de Berkeley encontraram a ancestral genética comum
a toda humanidade. Diferentemente do que prega a Bíblia,
ela não era a única mulher existente, mas
foi a mais apta a passar sua marca biológica à
vasta descendência. Os pesquisadores californianos
chegaram a essa conclusão depois de analisar uma
estrutura celular, a mitocôndria, transmitida por
herança materna e que se mantém incólume
ao liquidificador genético acionado cada vez que
um óvulo é atingido pelo espermatozóide.
Diferentemente do que acontece no núcleo da célula,
onde se misturam genes do pai e da mãe no DNA da
futura criança, na mitocôndria o DNA materno
permanece praticamente intacto. As únicas alterações
que sofre podem ser comparadas a pequenos arranhões
genéticos, provocados por erros no processo de cópia
de uma célula para outra. Com o tempo e o isolamento
geográfico das populações, essas mutações
se transformam em novas linhagens ligeiramente diferentes
da original. É o caso das dezoito linhagens identificadas
pelos pesquisadores da Universidade Emory, de Atlanta. Para
localizar os dez descendentes de Adão, o processo
foi semelhante, mas valendo-se de outra estrutura celular,
o cromossomo Y, transmitido de pai para filho. Em ambos
os casos, os pesquisadores identificaram que as ramificações
entre as linhagens começaram há 140.000
anos.
Na emaranhada árvore genealógica desenhada
pelos geneticistas americanos, todo o povaréu que
hoje povoa cinco continentes descende de três linhagens
femininas básicas geradas na África. Duas
delas subsistem em populações isoladas em
áreas remotas do continente, mas a terceira é
um verdadeiro sucesso da evolução. "O que
mais nos impressionou foi o passado comum de toda a humanidade
com a terceira ramificação ocorrida na África",
disse o coordenador da pesquisa em Atlanta, Douglas Wallace.
"Ela é a origem de toda a população
da Europa e da Ásia", constatou o pesquisador em
uma entrevista ao jornal The New York Times. Os resultados
encontrados por Wallace em suas análises e cálculos
coincidem com as principais descobertas arqueológicas.
Pela quantidade de mutações sofridas pelo
DNA mitocondrial dos europeus, ele pôde calcular que
os primeiros Homo sapiens vindos da África
chegaram à Europa entre 40.000
e 50.000 anos atrás, datação
respaldada por fósseis encontrados no continente.
Apesar desse tipo de precisão, a paleoantropologia
fundamentada nas análises do DNA mitocondrial ainda
enfrenta resistências. Um estudo publicado há
cinco meses na prestigiada revista Science demonstrou
que nem sempre o código genético materno guardado
na mitocôndria se mantém livre dos genes provenientes
do pai. Análises realizadas com homens e chimpanzés
por pesquisadores ingleses e escoceses mostraram sinais
de recombinação entre os genes do pai e da
mãe na mitocôndria. Esse tipo de combinação
comprometeria drasticamente todas as análises que
envolvem o conceito de uma matriz genética feminina
comum a toda a humanidade. Como os pesquisadores ingleses
não conseguiram identificar a origem da recombinação,
o mito genético de Adão e Eva continua de
pé, cada vez mais ousado e instigante.
Migração pelo
caminho do mar
O caminho usado
pelos primeiros Homo sapiens para deixar a
África e chegar à Ásia e à
Europa já rendeu acirradas discussões
entre paleontologistas do mundo inteiro. Na semana
passada, um grupo de ferrramentas pré-históricas
datadas de 125.000 anos encontradas nas margens do
Mar Vermelho acabou reforçando as teorias de
que a Península do Sinai foi a principal saída
para as populações primitivas que migravam
em direção à Ásia e à
Oceania. Pesquisadores já haviam identificado
traços genéticos comuns entre as populações
dessas regiões por meio da análise do
DNA, mas até agora nenhuma prova fóssil
que confirmasse essa rota havia sido encontrada.
Nas pesquisas realizadas no
Golfo de Zula, costa da Eritréia, os arqueólogos
encontraram centenas de ferramentas de corte e lâminas
feitas principalmente de pedra vulcânica e quartzo
enterradas em meio a um leito de conchas fossilizadas.
Eles acreditam que as peças tenham sido usadas
para abrir moluscos marinhos e crustáceos comestíveis.
Antes dessa pesquisa, acreditava-se que os homens
teriam começado a explorar os recursos marinhos
apenas 40.000 anos atrás. "É a mais
antiga evidência da adaptação
humana aos ambientes costeiros", avalia o pesquisador
Robert Walter, do Centro de Investigação
Científica de Educação Superior
de Ensenada, no México.
Para Walter, os primeiros
Homo sapiens praticamente foram forçados
a se adaptar ao ambiente costeiro. Foi a forma que
encontraram para sobreviver às drásticas
alterações climáticas causadas
por uma das glaciações. Há cerca
de 150.000 anos, uma forte mudança de clima
na África tornou áridas as planícies
habitadas pelos antepassados do homem moderno. Isso
os teria levado a abandonar uma condição
de vida relativamente estável para se adaptar
a um novo ambiente, o que implicava até mesmo
a adoção de uma dieta à base
de ostras, mariscos e caranguejos. O resultado foi
tão bom que a população cresceu
rapidamente e 50.000 anos depois os homens primitivos
foram obrigados a migrar novamente. "A dispersão
dos humanos para fora da África em direção
à Ásia deve ter sido provocada pela
competição por comida nas regiões
costeiras", acredita Walter. Como já sabiam
como se virar à beira do mar, simplesmente
seguiram em frente, até chegar à Austrália
há 50.000 anos.
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