Cores ameaçadas
Aumento na temperatura dos oceanos está
devastando os recifes de coral do planeta
Alexandre Mansur
Fotos: Leo Dutra
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Leo Dutra
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| Brancos
e sem vida
Um aumento de menos de 1 grau Celsius na temperatura
do mar tem efeito devastador sobre os corais. Eles são
afetados por uma síndrome chamada branqueamento,
perdem a cor e muitas vezes morrem. Na foto, um coral
da espécie Mussismilia hispida, da Praia
do Forte, na Bahia, antes e depois do branqueamento |
Uma das grandes belezas naturais do planeta,
os recifes de corais estão sendo afetados por uma
estranha síndrome, que os deixa pálidos e
anêmicos. Boa parte deles não resiste e morre,
a ponto de se temer que possam desaparecer quase inteiramente.
As vítimas mais recentes foram os deslumbrantes recifes
coloridos que coroam as 300 ilhas do Arquipélago
Fiji, no Oceano Pacífico, um dos paraísos
tropicais mais badalados do planeta. Cerca de 65% dos recifes
branquearam e 15% morreram por causa de um aquecimento de
apenas 4 graus Celsius entre março e abril. O mesmo
ocorreu nas Ilhas Salomão e Cook e em Tonga. Todas
ficam no Pacífico, mas o estrago é global.
Nos últimos cinco anos, 70% dos corais existentes
da costa da África à da Índia morreram.
Um estudo divulgado na semana passada mostrou que a mortalidade
dos corais no Caribe não tem precedentes em 3 000
anos. Segundo os ambientalistas da Aliança Global
para Recifes de Coral, ONG que monitora 207 recifes em todo
o mundo, 75% deles sofreram branqueamento em 1998, quando
as temperaturas estiveram acima da média. O estrago
do ano passado ainda não foi calculado, mas, como
1999 foi excepcionalmente quente, os especialistas acreditam
que possa ter sido devastador. Há poucas pesquisas
sobre os corais brasileiros. Mas já foram observados
sinais de branqueamento no Arquipélago de Abrolhos
e na Praia do Forte, ambos na Bahia.
Além de belos, os corais são a base da vida
marinha. Uma em cada quatro espécies do mar vive
nos corais, incluindo 65% dos peixes. Os recifes são
o segundo ecossistema mais rico do planeta, atrás
apenas das florestas tropicais. A alta temperatura da superfície
do mar nos últimos vinte anos está tendo um
efeito tão arrasador nos recifes de coral quanto
as queimadas que devastam a Amazônia. Só que,
ao contrário do que pode ocorrer em terra firme,
no oceano há pouca coisa que o homem possa fazer
para remediar a situação. O problema é
que desde a década de 50 a temperatura média
da Terra subiu de 13,8 para 14,6 graus. O planeta nunca
esteve tão quente nos últimos 600 anos. Os
sinais disso surgem primeiro nos corais, que são
extremamente sensíveis ao calor. Eles são
colônias de pequenos animais, os pólipos, que
vivem em simbiose com algas microscópicas. Em troca
de abrigo, essas algas produzem, por fotossíntese,
60% dos nutrientes que os pólipos precisam para viver
e crescer, além de criar belas cores. O equilíbrio
é delicado. Por motivos ainda desconhecidos, quando
a temperatura da água sobe de 0,7 a 0,9 grau, o pólipo
expulsa as algas, perde a cor e começa a passar fome.
Geralmente, os corais recuperam-se depois. Trata-se de
uma das formas de vida mais antigas, e sobreviveram a todas
as mudanças climáticas pelas quais passou
o planeta. A diferença agora é que as alterações
ocorrem de forma tão rápida que eles não
conseguem adaptar-se a tempo. "A sucessão de eventos
desse tipo enfraquece as colônias de corais, reduzindo
sua exuberância e a diversidade de espécies",
diz o pesquisador John Parks, do World Resources Institute,
em Washington. Isso porque os corais estão sujeitos
a outras ameaças. Uma delas é a poluição.
O despejo de esgoto e resíduos agrícolas no
litoral aumenta a concentração de matéria
orgânica em suspensão na água. São
condições ideais para a proliferação
de grandes algas, que crescem sobre os recifes, expulsando
os pólipos enfraquecidos pela inanição.
Hoje, só as algas cobrem os recifes que perderam
corais no norte da Jamaica, em 1980. Outro fator de risco
é o excesso de sedimentos lançados pelos rios
que deságuam no mar. Eles deixam a água mais
turva, reduzindo a quantidade de luz que chega ao fundo
do mar e serve como fonte de energia para os corais. A quantidade
de sedimentos vem crescendo devido aos desmatamentos em
terra firme, que aumentam a erosão do solo ao longo
dos rios. Para piorar a situação, os mangues
que filtram esses sedimentos estão desaparecendo.
A coincidência de tantos fatores de stress explica
por que os corais estão sendo vítimas de tantas
epidemias recentemente. Nos recifes da Flórida, nove
das 44 espécies de coral da região estavam
infectadas por doenças em 1996. No ano seguinte,
já eram 28 espécies.
Os primeiros registros de branqueamento são de
1870, mas nada comparável à sucessão
de desastres marinhos dos últimos vinte anos. Quase
todos os principais recifes de coral do planeta estão
ameaçados. Na África Oriental e na Península
Arábica, os casos de branqueamento tornaram-se recorrentes
na última década. Grandes porções
da famosa Grande Barreira de Corais da Austrália
estão morrendo. Embora correntes de água gelada
protejam os corais da Indonésia, os recifes das Filipinas,
Vietnã e Camboja não têm a mesma sorte
e estão sendo atingidos. A região leste do
Pacífico também foi afetada. Há corais
morrendo desde a costa do México ao Equador, incluindo
as Ilhas Galápagos.
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