Edição 1 648 -10/5/2000

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Cores ameaçadas

Aumento na temperatura dos oceanos está
devastando os recifes de coral do planeta

Alexandre Mansur

 
Fotos: Leo Dutra
Leo Dutra
Brancos e sem vida – Um aumento de menos de 1 grau Celsius na temperatura do mar tem efeito devastador sobre os corais. Eles são afetados por uma síndrome chamada branqueamento, perdem a cor e muitas vezes morrem. Na foto, um coral da espécie Mussismilia hispida, da Praia do Forte, na Bahia, antes e depois do branqueamento

 

Uma das grandes belezas naturais do planeta, os recifes de corais estão sendo afetados por uma estranha síndrome, que os deixa pálidos e anêmicos. Boa parte deles não resiste e morre, a ponto de se temer que possam desaparecer quase inteiramente. As vítimas mais recentes foram os deslumbrantes recifes coloridos que coroam as 300 ilhas do Arquipélago Fiji, no Oceano Pacífico, um dos paraísos tropicais mais badalados do planeta. Cerca de 65% dos recifes branquearam e 15% morreram por causa de um aquecimento de apenas 4 graus Celsius entre março e abril. O mesmo ocorreu nas Ilhas Salomão e Cook e em Tonga. Todas ficam no Pacífico, mas o estrago é global. Nos últimos cinco anos, 70% dos corais existentes da costa da África à da Índia morreram. Um estudo divulgado na semana passada mostrou que a mortalidade dos corais no Caribe não tem precedentes em 3 000 anos. Segundo os ambientalistas da Aliança Global para Recifes de Coral, ONG que monitora 207 recifes em todo o mundo, 75% deles sofreram branqueamento em 1998, quando as temperaturas estiveram acima da média. O estrago do ano passado ainda não foi calculado, mas, como 1999 foi excepcionalmente quente, os especialistas acreditam que possa ter sido devastador. Há poucas pesquisas sobre os corais brasileiros. Mas já foram observados sinais de branqueamento no Arquipélago de Abrolhos e na Praia do Forte, ambos na Bahia.

Além de belos, os corais são a base da vida marinha. Uma em cada quatro espécies do mar vive nos corais, incluindo 65% dos peixes. Os recifes são o segundo ecossistema mais rico do planeta, atrás apenas das florestas tropicais. A alta temperatura da superfície do mar nos últimos vinte anos está tendo um efeito tão arrasador nos recifes de coral quanto as queimadas que devastam a Amazônia. Só que, ao contrário do que pode ocorrer em terra firme, no oceano há pouca coisa que o homem possa fazer para remediar a situação. O problema é que desde a década de 50 a temperatura média da Terra subiu de 13,8 para 14,6 graus. O planeta nunca esteve tão quente nos últimos 600 anos. Os sinais disso surgem primeiro nos corais, que são extremamente sensíveis ao calor. Eles são colônias de pequenos animais, os pólipos, que vivem em simbiose com algas microscópicas. Em troca de abrigo, essas algas produzem, por fotossíntese, 60% dos nutrientes que os pólipos precisam para viver e crescer, além de criar belas cores. O equilíbrio é delicado. Por motivos ainda desconhecidos, quando a temperatura da água sobe de 0,7 a 0,9 grau, o pólipo expulsa as algas, perde a cor e começa a passar fome.

Geralmente, os corais recuperam-se depois. Trata-se de uma das formas de vida mais antigas, e sobreviveram a todas as mudanças climáticas pelas quais passou o planeta. A diferença agora é que as alterações ocorrem de forma tão rápida que eles não conseguem adaptar-se a tempo. "A sucessão de eventos desse tipo enfraquece as colônias de corais, reduzindo sua exuberância e a diversidade de espécies", diz o pesquisador John Parks, do World Resources Institute, em Washington. Isso porque os corais estão sujeitos a outras ameaças. Uma delas é a poluição. O despejo de esgoto e resíduos agrícolas no litoral aumenta a concentração de matéria orgânica em suspensão na água. São condições ideais para a proliferação de grandes algas, que crescem sobre os recifes, expulsando os pólipos enfraquecidos pela inanição. Hoje, só as algas cobrem os recifes que perderam corais no norte da Jamaica, em 1980. Outro fator de risco é o excesso de sedimentos lançados pelos rios que deságuam no mar. Eles deixam a água mais turva, reduzindo a quantidade de luz que chega ao fundo do mar e serve como fonte de energia para os corais. A quantidade de sedimentos vem crescendo devido aos desmatamentos em terra firme, que aumentam a erosão do solo ao longo dos rios. Para piorar a situação, os mangues que filtram esses sedimentos estão desaparecendo. A coincidência de tantos fatores de stress explica por que os corais estão sendo vítimas de tantas epidemias recentemente. Nos recifes da Flórida, nove das 44 espécies de coral da região estavam infectadas por doenças em 1996. No ano seguinte, já eram 28 espécies.

Os primeiros registros de branqueamento são de 1870, mas nada comparável à sucessão de desastres marinhos dos últimos vinte anos. Quase todos os principais recifes de coral do planeta estão ameaçados. Na África Oriental e na Península Arábica, os casos de branqueamento tornaram-se recorrentes na última década. Grandes porções da famosa Grande Barreira de Corais da Austrália estão morrendo. Embora correntes de água gelada protejam os corais da Indonésia, os recifes das Filipinas, Vietnã e Camboja não têm a mesma sorte e estão sendo atingidos. A região leste do Pacífico também foi afetada. Há corais morrendo desde a costa do México ao Equador, incluindo as Ilhas Galápagos.

 
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Da internet
  World Resources Institute