Amor por encomenda
Populares como nunca, agências de
matrimônio
atraem uma freguesia cada vez mais jovem
Juliana De Mari
Ricardo Benichio
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Jacqueline,
25 anos, com
Carvalho:
"Os rapazes que
conheci em
barzinhos
só queriam
uma noite" |
Foi-se o tempo em que recorrer a uma agência de casamento
era sinônimo de desespero de solteirões e solteironas
mais velhos, desprovidos de atrativos físicos e solitários.
Hoje, três em cada dez clientes das maiores empresas
casamenteiras estão no vigor dos 20 anos. Os outros
sete têm entre 30 e 45 anos. Pessoas mais velhas viraram
raridade nas listas de candidatos desse negócio que
começou no Brasil há mais de meio século.
O freguês típico atualmente tem boa formação
escolar, razoável círculo de amizades e situação
financeira estável. O que mais impressiona é
a quantidade crescente de brasileiros que recorrem aos serviços
de cupidos profissionais. O mercado de encontros marcados
cresce, em média, 20% ao ano desde 1997, sobretudo
graças ao aumento da clientela na flor da idade.
Um reflexo evidente desses tempos de prosperidade é
a tendência de serviços especializados, uma
forma de se diferenciar da concorrência. Na prática,
significa organizar seus catálogos segundo certas
características profissionais, raciais ou por faixa
etária.
Criada
há cinco anos no Rio de Janeiro, a Lunch for Two
"almoço para dois", em português
destina-se a profissionais de agenda cheia, sem muito tempo
a perder no jogo da paquera. A procura surpreendeu as expectativas.
Com mais de 3.000 homens e mulheres
cadastrados, a Lunch for Two abriu recentemente uma filial
em São Paulo. Na capital paulista, há ainda
a Twins Soul ("almas gêmeas"), com mais de 1.000
pessoas cadastradas, promotora sobretudo de encontros entre
negros. Os mais jovens contam com o empenho da Par Ideal,
com sede em Curitiba. Em cinco anos, tem cerca de 1.500
inscritos. Metade deles, na faixa etária dos 21 aos
39 anos. "Até o nosso segundo ano de funcionamento,
só tínhamos clientes com mais de 40", diz
a pedagoga Sheila Rigler, dona da Par Ideal. "Os jovens
passaram a nos procurar justificando que a noite é
boa para se divertir, mas não para quem quer arranjar
um relacionamento sério."
Cupidos profissionais A protética
Jacqueline Helena de Godoi, 25 anos, é representante
legítima dessa nova geração de clientes.
Negra, bonita, bem-sucedida profissionalmente, resolveu
inscrever-se na Twins Soul em junho do ano passado. "Eu
estava cansada de correr atrás de um homem confiável
e que tivesse afinidades com meu estilo de vida", diz. "Os
rapazes que conheci em barzinhos só queriam uma noite
e mais nada." A família e os amigos levaram a iniciativa
na brincadeira. "Ninguém acreditava que eu pudesse
encontrar alguém interessante", conta. Jacqueline
conheceu não só um, mas dois namorados com
a ajuda dos cupidos profissionais. O primeiro, um mês
depois da inscrição. A grande preocupação
da moça era saber se ele aprovaria sua aparência.
"É a única surpresa possível nesse
negócio de agenciar relacionamentos", afirma. O casal
ficou junto por seis meses. A separação só
ocorreu porque o rapaz foi para os Estados Unidos, a trabalho.
Sozinha novamente, Jacqueline não teve dúvidas.
Voltou a procurar a agência. Mais uma vez, o parceiro
escolhido correspondeu a suas expectativas. Há dois
meses está de namoro com o administrador de empresas
Aparecido Carvalho, divorciado, 36 anos.
Com os negócios em expansão, as agências
aperfeiçoaram a procura da alma gêmea de seus
clientes. Os donos das empresas garantem que os encontros
armados não são nada aleatórios. Até
chegar ao candidato a namorado, há um longo trabalho
de bastidores encabeçado por psicólogos. Eles
conduzem as entrevistas e o preenchimento de formulários,
nos quais ficam registradas as preferências do cliente
sobre os mais diversos temas. De religião e política
a expectativas para o futuro e conceitos de beleza. Depois,
as agências mais sérias fazem a checagem das
informações pessoais em cartórios e
até na polícia, para não haver surpresas.
"Não podemos correr o risco de armar um encontro
com alguém casado ou que tenha ficha criminal", explica
Maurício Marcelino, sócio da Happy End, de
São Paulo, há oito anos no mercado e uma das
maiores do país. Tudo para corresponder à
compatibilidade idealizada pelos clientes.
Por que alguém procura um casamenteiro profissional?
A maioria alega falta de tempo ou medo de se arriscar com
pessoas totalmente desconhecidas. Quem chega à agência
é movido pela esperança de encontrar seu príncipe
encantado ou sua princesa e ser feliz para
sempre. É como se acreditasse nas fadas madrinhas
dos contos infantis. "Essa necessidade de garantir total
compatibilidade com o parceiro indica que são pessoas
com carência profunda e um medo absurdo do desconhecido",
avalia a psicóloga Lidia Weber, professora da Universidade
Federal do Paraná. "Os jovens estão bastante
inseguros. Por um lado está mais fácil se
relacionar, 'ficar', como dizem. Por outro, é tudo
muito rápido e descartável."
O risco em apostar que terceiros possam cumprir a missão
de encontrar a cara-metade é perder uma parte saborosa
do namoro justamente aquela fase inicial da paixão,
na qual cada descoberta sobre as preferências do outro
é motivo de encantamento. "São esses momentos
que dão fôlego às lembranças
do casal", acredita Lidia Weber. A clientela das agências
prefere ser racional na hora de abrir o coração.
Mesmo que pague caro pelo serviço, entre 500 e 1
700 reais. Algumas empresas dão um ano de garantia,
com direito a devolução do dinheiro caso não
seja possível encontrar um par de acordo com a predileção
do cliente. O índice de sucesso é animador,
pelo menos na contabilidade dos casamenteiros. De cada dez
encontros arranjados, sete acontecem mais de uma vez.
Antonio Milena
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| Angélica e Jorge:
graças a casamenteiros, troca de alianças
para breve |
Friozinho na barriga Foi o caso da dentista paulista
Angélica Lugli, 34 anos. Em outubro de 1998, ela
se inscreveu na Happy End. Um mês depois, recebia
um telefonema do administrador de empresas Jorge Saba, de
33. Estão namorando há mais de um ano e fazem
planos de trocar alianças em breve. "Na agência,
há o inconveniente de o parceiro ser selecionado
por outros, mas a união tem muito mais chance de
dar certo, porque, de fato, sabemos que temos algo em comum",
diz Angélica. Apesar da proclamada garantia, a dentista
não nega o friozinho na barriga do primeiro encontro.
"Ele disse que estava um pouco acima do peso. Fiquei com
receio de dar de cara com um balofo desengonçado",
diverte-se. O namorado Jorge, por sua vez, teve a sorte
de conhecer a companheira poucos dias depois da inscrição
o que contraria o tempo médio de espera para
o primeiro contato, que é de um mês. Divorciado,
pai de dois filhos, Jorge confessa que não depositava
grandes esperanças no sucesso do serviço.
"Só queria que a pretendente não fosse fumante
e que tivesse menos de 40 anos", conta. O encontro com Angélica
saiu melhor que a encomenda.
Com a chegada da internet, com suas salas de bate-papo
virtual e mensagens eletrônicas circulando de um lado
para outro em questão de segundos, houve quem apostasse
na decadência das agências matrimoniais. Que
nada. Na rede, é muito fácil mentir, mandar
fotografias falsas, inventar uma personalidade. Ainda que
a história dos bate-papos eletrônicos esteja
cheia de relatos de namoros bem-sucedidos, a internet não
é um meio seguro para dar início a um romance.
Como saber se o computador não está sendo
usado como aditivo para um relacionamento que já
existe na vida real? É a história daquele
marido que usa a paquera virtual para liberar as fantasias
e apimentar a vida sexual com a mulher que tem ao seu lado
quem sabe escolhida em uma agência de casamento.
Saiba
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