Edição 1 648 -10/5/2000

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Amor por encomenda

Populares como nunca, agências de matrimônio
atraem uma freguesia cada vez mais jovem

Juliana De Mari

Ricardo Benichio
Jacqueline, 25 anos, com Carvalho:
"Os rapazes
que conheci em
barzinhos só queriam uma noite"


Foi-se o tempo em que recorrer a uma agência de casamento era sinônimo de desespero de solteirões e solteironas mais velhos, desprovidos de atrativos físicos e solitários. Hoje, três em cada dez clientes das maiores empresas casamenteiras estão no vigor dos 20 anos. Os outros sete têm entre 30 e 45 anos. Pessoas mais velhas viraram raridade nas listas de candidatos desse negócio que começou no Brasil há mais de meio século. O freguês típico atualmente tem boa formação escolar, razoável círculo de amizades e situação financeira estável. O que mais impressiona é a quantidade crescente de brasileiros que recorrem aos serviços de cupidos profissionais. O mercado de encontros marcados cresce, em média, 20% ao ano desde 1997, sobretudo graças ao aumento da clientela na flor da idade. Um reflexo evidente desses tempos de prosperidade é a tendência de serviços especializados, uma forma de se diferenciar da concorrência. Na prática, significa organizar seus catálogos segundo certas características profissionais, raciais ou por faixa etária.


Criada há cinco anos no Rio de Janeiro, a Lunch for Two – "almoço para dois", em português – destina-se a profissionais de agenda cheia, sem muito tempo a perder no jogo da paquera. A procura surpreendeu as expectativas. Com mais de 3.000 homens e mulheres cadastrados, a Lunch for Two abriu recentemente uma filial em São Paulo. Na capital paulista, há ainda a Twins Soul ("almas gêmeas"), com mais de 1.000 pessoas cadastradas, promotora sobretudo de encontros entre negros. Os mais jovens contam com o empenho da Par Ideal, com sede em Curitiba. Em cinco anos, tem cerca de 1.500 inscritos. Metade deles, na faixa etária dos 21 aos 39 anos. "Até o nosso segundo ano de funcionamento, só tínhamos clientes com mais de 40", diz a pedagoga Sheila Rigler, dona da Par Ideal. "Os jovens passaram a nos procurar justificando que a noite é boa para se divertir, mas não para quem quer arranjar um relacionamento sério."

Cupidos profissionais – A protética Jacqueline Helena de Godoi, 25 anos, é representante legítima dessa nova geração de clientes. Negra, bonita, bem-sucedida profissionalmente, resolveu inscrever-se na Twins Soul em junho do ano passado. "Eu estava cansada de correr atrás de um homem confiável e que tivesse afinidades com meu estilo de vida", diz. "Os rapazes que conheci em barzinhos só queriam uma noite e mais nada." A família e os amigos levaram a iniciativa na brincadeira. "Ninguém acreditava que eu pudesse encontrar alguém interessante", conta. Jacqueline conheceu não só um, mas dois namorados com a ajuda dos cupidos profissionais. O primeiro, um mês depois da inscrição. A grande preocupação da moça era saber se ele aprovaria sua aparência. "É a única surpresa possível nesse negócio de agenciar relacionamentos", afirma. O casal ficou junto por seis meses. A separação só ocorreu porque o rapaz foi para os Estados Unidos, a trabalho. Sozinha novamente, Jacqueline não teve dúvidas. Voltou a procurar a agência. Mais uma vez, o parceiro escolhido correspondeu a suas expectativas. Há dois meses está de namoro com o administrador de empresas Aparecido Carvalho, divorciado, 36 anos.

Com os negócios em expansão, as agências aperfeiçoaram a procura da alma gêmea de seus clientes. Os donos das empresas garantem que os encontros armados não são nada aleatórios. Até chegar ao candidato a namorado, há um longo trabalho de bastidores encabeçado por psicólogos. Eles conduzem as entrevistas e o preenchimento de formulários, nos quais ficam registradas as preferências do cliente sobre os mais diversos temas. De religião e política a expectativas para o futuro e conceitos de beleza. Depois, as agências mais sérias fazem a checagem das informações pessoais em cartórios e até na polícia, para não haver surpresas. "Não podemos correr o risco de armar um encontro com alguém casado ou que tenha ficha criminal", explica Maurício Marcelino, sócio da Happy End, de São Paulo, há oito anos no mercado e uma das maiores do país. Tudo para corresponder à compatibilidade idealizada pelos clientes.

Por que alguém procura um casamenteiro profissional? A maioria alega falta de tempo ou medo de se arriscar com pessoas totalmente desconhecidas. Quem chega à agência é movido pela esperança de encontrar seu príncipe encantado – ou sua princesa – e ser feliz para sempre. É como se acreditasse nas fadas madrinhas dos contos infantis. "Essa necessidade de garantir total compatibilidade com o parceiro indica que são pessoas com carência profunda e um medo absurdo do desconhecido", avalia a psicóloga Lidia Weber, professora da Universidade Federal do Paraná. "Os jovens estão bastante inseguros. Por um lado está mais fácil se relacionar, 'ficar', como dizem. Por outro, é tudo muito rápido e descartável."

O risco em apostar que terceiros possam cumprir a missão de encontrar a cara-metade é perder uma parte saborosa do namoro – justamente aquela fase inicial da paixão, na qual cada descoberta sobre as preferências do outro é motivo de encantamento. "São esses momentos que dão fôlego às lembranças do casal", acredita Lidia Weber. A clientela das agências prefere ser racional na hora de abrir o coração. Mesmo que pague caro pelo serviço, entre 500 e 1 700 reais. Algumas empresas dão um ano de garantia, com direito a devolução do dinheiro caso não seja possível encontrar um par de acordo com a predileção do cliente. O índice de sucesso é animador, pelo menos na contabilidade dos casamenteiros. De cada dez encontros arranjados, sete acontecem mais de uma vez.

Antonio Milena
Angélica e Jorge: graças a casamenteiros, troca de alianças para breve


Friozinho na barriga
– Foi o caso da dentista paulista Angélica Lugli, 34 anos. Em outubro de 1998, ela se inscreveu na Happy End. Um mês depois, recebia um telefonema do administrador de empresas Jorge Saba, de 33. Estão namorando há mais de um ano e fazem planos de trocar alianças em breve. "Na agência, há o inconveniente de o parceiro ser selecionado por outros, mas a união tem muito mais chance de dar certo, porque, de fato, sabemos que temos algo em comum", diz Angélica. Apesar da proclamada garantia, a dentista não nega o friozinho na barriga do primeiro encontro. "Ele disse que estava um pouco acima do peso. Fiquei com receio de dar de cara com um balofo desengonçado", diverte-se. O namorado Jorge, por sua vez, teve a sorte de conhecer a companheira poucos dias depois da inscrição – o que contraria o tempo médio de espera para o primeiro contato, que é de um mês. Divorciado, pai de dois filhos, Jorge confessa que não depositava grandes esperanças no sucesso do serviço. "Só queria que a pretendente não fosse fumante e que tivesse menos de 40 anos", conta. O encontro com Angélica saiu melhor que a encomenda.

Com a chegada da internet, com suas salas de bate-papo virtual e mensagens eletrônicas circulando de um lado para outro em questão de segundos, houve quem apostasse na decadência das agências matrimoniais. Que nada. Na rede, é muito fácil mentir, mandar fotografias falsas, inventar uma personalidade. Ainda que a história dos bate-papos eletrônicos esteja cheia de relatos de namoros bem-sucedidos, a internet não é um meio seguro para dar início a um romance. Como saber se o computador não está sendo usado como aditivo para um relacionamento que já existe na vida real? É a história daquele marido que usa a paquera virtual para liberar as fantasias e apimentar a vida sexual com a mulher que tem ao seu lado – quem sabe escolhida em uma agência de casamento.

 
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Da internet
  Agência de matrimônio "Twins soul"
  "Happy end"
  "Lunch for two"