Edição 1 648 -10/5/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Carros que alternam gasolina e eletricidade
Empresas de aviação têm jatos só com primeira classe
Os apartamentos seis-estrelas
Por que os americanos gostam tanto da luta livre
Polícia Militar mineira melhora estudando
O que o clique virtual provoca na economia real
Jovens procuram agências de matrimônio
Xales coloridos para o inverno
Temperatura dos oceanos sobe e afeta bancos de coral
Dezoito Evas e dez Adãos na origem do homem
Por que os negros são melhores
Como se desenvolvem os pés das crianças
A saga da civilização viking recontada
A indústria do fumo na mira
"Vírus do amor" detona sistemas
Filmes feitos especialmente para a rede
Novidade no tratamento da frigidez
O patrocínio do Vasco da Gama aos atletas amadores
O asteróide em forma de osso
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Por trás do clic

O movimento criado na economia real pelas
compras feitas pelo computador

Edilson Coelho

Fazer compras pela internet facilita muito a tarefa de preencher a biblioteca, enriquecer a coleção de CDs e até forrar a geladeira. Quando tudo dá certo, a sensação é de estar entrando num mundo em que tudo funciona sem atrito. É um engano. Cada clic que efetua uma compra on-line desencadeia uma série de procedimentos que envolve produtos reais, gente de carne e osso, armazéns, caminhões de transporte e fábricas. Os números finais desse fenômeno ainda não foram compilados. Afinal, eles mudam todos os dias. Mas quando se acompanha o fio do mouse do computador até a casa do consumidor, onde o produto comprado é entregue, descobre-se que em torno dele há uma porção de empresas surgindo e prosperando. "Novas tecnologias significam mudança. Toda mudança provoca desequilíbrios, e o desequilíbrio cria oportunidades de negócios de alta lucratividade", define o economista americano Lester Thurow, professor do MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

 

O engenheiro paulista Carlos Alberto Guerra Filgueiras, de 26 anos, enxergou uma oportunidade dessas em 1996, quando abriu uma empresa de entrega de encomendas na cidade de Cotia, na Grande São Paulo. Começou com quinze funcionários. Hoje são 450, além de uma frota de trinta veículos. Filgueiras tem 52 firmas associadas nas principais capitais do país, que ao todo movimentam mais de duas centenas de veículos de carga. Sua empresa, a InterCouriers, distribui 300.000 encomendas por mês em 580 cidades brasileiras e fatura 10 milhões de reais por ano. O melhor de tudo para Filgueiras é a sensação de estar apenas começando, já que o número de brasileiros usuários da internet não passa de 3% da população e cresce rapidamente. Cada vez mais gente vem experimentando consumir sem sair de casa.

Nos Estados Unidos, onde esse movimento começou há mais tempo, mais de 50% das casas estão ligadas à internet, e a velha economia anda animadíssima. Segundo o instituto de pesquisa Forrester Research, os americanos consumiram 20 bilhões de dólares em produtos on-line em 1999. Para 2004, o Forrester Research projeta que o comércio eletrônico, de venda direta das empresas para o consumidor, poderá alcançar 184 bilhões de dólares. É uma revolução que está fazendo a economia do mundo inteiro fervilhar e começa a ser visível no Brasil agora. O comércio via internet, em vez de destruir a fábrica e o shopping center, está revitalizando a velha economia.

É fácil entender por quê. O comércio eletrônico facilita e barateia o consumo. Portanto, demanda maior produção e, mais que isso, uma intrincada estrutura de recepção, separação e entrega de pedidos. A americanas.com, o braço virtual das Lojas Americanas, entrou no ar para testes, em Curitiba, em novembro do ano passado. Quarenta dias depois, teve de contratar 100 funcionários. Em cinco meses de operação, tinha 200 pessoas trabalhando no site, sem contar o pessoal das companhias que cuidam das áreas operacional, de logística e de atendimento pós-venda. O depósito da loja virtual, que guarda 8.500 itens, triplicou de tamanho. "Queremos chegar ao fim do ano com vendas de 5 milhões de reais por mês e mais de 30.000 itens", diz Pedro Donda, presidente da americanas.com. Um dos distribuidores dos produtos vendidos no site é o paulista Marcos Monteiro, que, sete anos atrás, vendeu sua motocicleta para comprar uma Kombi. Hoje, sua empresa, a Total Express, emprega 240 pessoas e deve faturar 16 milhões de reais neste ano.

Quem entra num site e faz um pedido não pode imaginar a correria que deflagra com seu clic. A rede de supermercados Pão de Açúcar passou mais de quatro anos testando o sistema Delivery, de vendas pela internet, antes de se aventurar a ampliar o negócio. Em breve colocará no ar o site amelia.com e está terminando a montagem de um depósito com 30.000 metros quadrados, em São Paulo, onde trabalharão 600 pessoas. Assim que o pedido chega, as mercadorias são separadas, correm por esteiras rolantes até os empacotadores e seguem, em vans, para a casa do cliente. Haverá oitenta veículos mobilizados apenas para a operação paulista.

A febre do comércio virtual está contaminando supermercados e lojas de todo tipo de produto. As mais avançadas, nessa rota, são as livrarias. Nesse capítulo há duas coisas interessantes a observar. A primeira é o fato de que, apesar de estarem aumentando as vendas virtuais, as livrarias continuam inaugurando novas lojas de tijolo e vidro pelo país afora. A livraria Leitura, de Belo Horizonte, tem dezesseis lojas e um site na internet. Vai investir mais 2 milhões de reais na montagem de outras quatro lojas neste ano. As Livrarias Curitiba, do Paraná, inaugurarão mais três lojas neste ano – um investimento de 6 milhões de reais. "As pessoas ainda gostam de manusear os livros antes de comprá-los", diz Bruno de Carli, diretor de internet da livraria Siciliano, de São Paulo.

A segunda observação é a seguinte: as livrarias foram as primeiras a descobrir que, na economia, o progresso não acontece de maneira uniforme. Assim, não basta que elas se equipem com computadores e lancem seus sites na internet. Muitas das editoras são despreparadas para as exigências da nova economia. Não têm sequer código de barras para leitura óptica na capa dos livros. Outras não conseguem fazer a reposição do estoque da livraria no tempo exigido pelos negócios virtuais. Resultado: o site submarino.com, uma livraria que foi criada para existir apenas no modelo virtual, sem estoques, teve de reformular sua estratégia. Além do armazém, ainda mantém pessoal trabalhando nas editoras com a missão de agilizar as compras. "Num país como o Brasil ainda há estradas ruins, sistema de telefonia precário, cidades que inundam com uma chuvinha e poucas casas com computadores", diz Antonio Bonchristiano, presidente do submarino.com. "Mas as mudanças que as compras eletrônicas estão trazendo para o comércio no Brasil são irreversíveis."

 
Saiba mais
Dos arquivos de VEJA
  Riqueza invisível
Da internet
  Livraria Siciliano
  Lojas Americanas
  Submarino
  Livraria Cultura
  InterCouriers - empresa de entrega
  Total Express
  Pão de Açúcar
  Livraria Leitura
  Massachusetts Institute os Technology