Por trás do clic
O movimento criado na economia real pelas
compras feitas pelo computador
Edilson Coelho
Fazer compras pela internet facilita muito
a tarefa de preencher a biblioteca, enriquecer a coleção
de CDs e até forrar a geladeira. Quando tudo dá
certo, a sensação é de estar entrando
num mundo em que tudo funciona sem atrito. É um engano.
Cada clic que efetua uma compra on-line desencadeia uma
série de procedimentos que envolve produtos reais,
gente de carne e osso, armazéns, caminhões
de transporte e fábricas. Os números finais
desse fenômeno ainda não foram compilados.
Afinal, eles mudam todos os dias. Mas quando se acompanha
o fio do mouse do computador até a casa do consumidor,
onde o produto comprado é entregue, descobre-se que
em torno dele há uma porção de empresas
surgindo e prosperando. "Novas tecnologias significam mudança.
Toda mudança provoca desequilíbrios, e o desequilíbrio
cria oportunidades de negócios de alta lucratividade",
define o economista americano Lester Thurow, professor do
MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts.
O engenheiro paulista Carlos Alberto Guerra
Filgueiras, de 26 anos, enxergou uma oportunidade dessas
em 1996, quando abriu uma empresa de entrega de encomendas
na cidade de Cotia, na Grande São Paulo. Começou
com quinze funcionários. Hoje são 450, além
de uma frota de trinta veículos. Filgueiras tem 52
firmas associadas nas principais capitais do país,
que ao todo movimentam mais de duas centenas de veículos
de carga. Sua empresa, a InterCouriers, distribui 300.000
encomendas por mês em 580 cidades brasileiras e fatura
10 milhões de reais por ano. O melhor de tudo para
Filgueiras é a sensação de estar apenas
começando, já que o número de brasileiros
usuários da internet não passa de 3% da população
e cresce rapidamente. Cada vez mais gente vem experimentando
consumir sem sair de casa.
Nos
Estados Unidos, onde esse movimento começou há
mais tempo, mais de 50% das casas estão ligadas à
internet, e a velha economia anda animadíssima. Segundo
o instituto de pesquisa Forrester Research, os americanos
consumiram 20 bilhões de dólares em produtos
on-line em 1999. Para 2004, o Forrester Research projeta
que o comércio eletrônico, de venda direta
das empresas para o consumidor, poderá alcançar
184 bilhões de dólares. É uma revolução
que está fazendo a economia do mundo inteiro fervilhar
e começa a ser visível no Brasil agora. O
comércio via internet, em vez de destruir a fábrica
e o shopping center, está revitalizando a velha economia.
É fácil entender por quê. O comércio
eletrônico facilita e barateia o consumo. Portanto,
demanda maior produção e, mais que isso, uma
intrincada estrutura de recepção, separação
e entrega de pedidos. A americanas.com, o braço virtual
das Lojas Americanas, entrou no ar para testes, em Curitiba,
em novembro do ano passado. Quarenta dias depois, teve de
contratar 100 funcionários. Em cinco meses de operação,
tinha 200 pessoas trabalhando no site, sem contar o pessoal
das companhias que cuidam das áreas operacional,
de logística e de atendimento pós-venda. O
depósito da loja virtual, que guarda 8.500
itens, triplicou de tamanho. "Queremos chegar ao fim do
ano com vendas de 5 milhões de reais por mês
e mais de 30.000 itens", diz
Pedro Donda, presidente da americanas.com. Um dos distribuidores
dos produtos vendidos no site é o paulista Marcos
Monteiro, que, sete anos atrás, vendeu sua motocicleta
para comprar uma Kombi. Hoje, sua empresa, a Total Express,
emprega 240 pessoas e deve faturar 16 milhões de
reais neste ano.
Quem entra num site e faz um pedido não pode imaginar
a correria que deflagra com seu clic. A rede de supermercados
Pão de Açúcar passou mais de quatro
anos testando o sistema Delivery, de vendas pela internet,
antes de se aventurar a ampliar o negócio. Em breve
colocará no ar o site amelia.com e está terminando
a montagem de um depósito com 30.000
metros quadrados, em São Paulo, onde trabalharão
600 pessoas. Assim que o pedido chega, as mercadorias são
separadas, correm por esteiras rolantes até os empacotadores
e seguem, em vans, para a casa do cliente. Haverá
oitenta veículos mobilizados apenas para a operação
paulista.
A
febre do comércio virtual está contaminando
supermercados e lojas de todo tipo de produto. As mais avançadas,
nessa rota, são as livrarias. Nesse capítulo
há duas coisas interessantes a observar. A primeira
é o fato de que, apesar de estarem aumentando as
vendas virtuais, as livrarias continuam inaugurando novas
lojas de tijolo e vidro pelo país afora. A livraria
Leitura, de Belo Horizonte, tem dezesseis lojas e um site
na internet. Vai investir mais 2 milhões de reais
na montagem de outras quatro lojas neste ano. As Livrarias
Curitiba, do Paraná, inaugurarão mais três
lojas neste ano um investimento de 6 milhões
de reais. "As pessoas ainda gostam de manusear os livros
antes de comprá-los", diz Bruno de Carli, diretor
de internet da livraria Siciliano, de São Paulo.
A segunda observação é a seguinte:
as livrarias foram as primeiras a descobrir que, na economia,
o progresso não acontece de maneira uniforme. Assim,
não basta que elas se equipem com computadores e
lancem seus sites na internet. Muitas das editoras são
despreparadas para as exigências da nova economia.
Não têm sequer código de barras para
leitura óptica na capa dos livros. Outras não
conseguem fazer a reposição do estoque da
livraria no tempo exigido pelos negócios virtuais.
Resultado: o site submarino.com, uma livraria que foi criada
para existir apenas no modelo virtual, sem estoques, teve
de reformular sua estratégia. Além do armazém,
ainda mantém pessoal trabalhando nas editoras com
a missão de agilizar as compras. "Num país
como o Brasil ainda há estradas ruins, sistema de
telefonia precário, cidades que inundam com uma chuvinha
e poucas casas com computadores", diz Antonio Bonchristiano,
presidente do submarino.com. "Mas as mudanças que
as compras eletrônicas estão trazendo para
o comércio no Brasil são irreversíveis."
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