Edição 1 648 -10/5/2000

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Mania esquisita

Por que os americanos perdem tempo
assistindo a essa tal de luta livre?

Muita gente critica o hábito brasileiro de importar modismos dos Estados Unidos. Essas pessoas podem ter razão ao condenar certos exageros, mas convenhamos. Não há no Brasil nenhum esporte, com o perdão da má palavra, que imite a mais esquisita das manias americanas: a luta livre. Alguém já viu pela televisão? Nos fins de semana, milhões de americanos deliram diante de brutamontes que se engalfinham em combates de mentirinha, transmitidos em rede nacional. A luta, chamada de wrestling, não passa de encenação e possui legiões de fãs espalhadas de leste a oeste. Hoje, 35 milhões de telespectadores por semana ficam ligados nesse espetáculo. Os americanos vivem no país mais próspero do planeta, têm a maior frota de automóveis, reúnem um time invejável de ganhadores de prêmios Nobel e sua moeda faz oscilar a economia global. Mas, como ninguém é perfeito, gostam desse agarra-agarra de faz-de-conta.

A luta livre americana é um negócio altamente lucrativo. As empresas que exploram os espetáculos vendem fitas de vídeo, CDs, DVDs, camisetas e têm sites na internet. Até livros – sim, eles lêem – são vendidos aos montes no rastro do sucesso do wrestling. As autobiografias de dois campeões do pseudo-esporte, Mankind (Mick Foley) e The Rock (Dwayne Johnson), aparecem há várias semanas na lista dos mais vendidos do New York Times. A World Wrestling Federation, entidade que domina o esporte, já vale 1 bilhão de dólares na bolsa de valores dos Estados Unidos. Nos estádios, onde as lutas podem ser acompanhadas ao vivo, a lotação está sempre esgotada.

Há diversas explicações para o sucesso da luta livre. Uma delas estaria ligada ao mais profundo desejo do americano médio: que o bem vença o mal. As pessoas acompanham com fanatismo o show de pancadaria ensaiada porque sabem que os lutadores bonzinhos, aqueles incapazes de cuspir no adversário e que só atacam pela frente, vão vencer no final. Outra explicação é que, na terra mais politicamente correta do mundo, a luta funcionaria como uma libertação das amarras do cotidiano, uma catarse. Os socos e pontapés ensaiados fazem tanto sucesso que os americanos do Estado de Minnesota elegeram como governador um ex-astro do wrestling: Jesse Ventura, o senhor que ilustra esta página em dois momentos distintos de sua vida profissional.

No Brasil, esses espetáculos já saíram de moda há mais de duas décadas. Mas quem tem mais de 30 anos ainda deve lembrar de nomes como Ted Boy Marino, Montanha, Aquiles e Múmia. Esses e alguns outros personagens exóticos povoaram a TV brasileira até meados da década de 70 em lutas forjadas nas quais os brutamontes não ganhavam um hematoma sequer. Era o Tele Catch, um programa de televisão que chegou a ter espaço importante na programação daquela época. No longínquo ano de 1967, uma luta chegava a registrar recordes de audiência, com mais de 40% dos telespectadores sintonizados no mesmo canal. Mas os heróis do passado no Brasil já não brilham sob os holofotes. Ted Boy Marino, o mais famoso de todos, foi demitido no ano passado da Rede Globo, aos 60 anos. Era figurante no programa humorístico comandado pelo comediante Renato Aragão. É. Nem tudo que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.

 
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