Edição 1 648 -10/5/2000

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Polícia

Perversão na rede

Eles têm dinheiro, educação e família. E se divertiam
trocando fotos de crianças torturadas sexualmente

Marcelo Carneiro

A professora Sandra Carvalho nunca se havia preocupado em saber por que seu marido, o economista Paulo Rollemberg, ficava tanto tempo em frente do computador. No ano passado, uma equipe de policiais militares e promotores munidos de mandados de busca e apreensão retirou de seu apartamento na Zona Sul do Rio de Janeiro um computador e mais de cinqüenta disquetes e CD-ROM. Para seu horror, Sandra, mãe de um bebê de 6 meses, ficou sabendo que era casada com um pedófilo. No micro do marido, estavam arquivadas dezenas de fotos, entre elas a de uma menina de aparentes 6 anos praticando sexo oral em um homem adulto. Na casa de um geólogo de 54 anos, morador de São Conrado, bairro de classe média alta do Rio, os policiais encontraram imagens ainda mais chocantes: um bebê de 4 meses acorrentado pelos órgãos genitais e outra criança, seminua, atada à cama com pedaços de pano e algemas. O geólogo apontou seu filho E.V., de 15 anos, como o responsável pelas imagens guardadas na máquina. A apreensão desses computadores fez parte da maior investigação sobre pedofilia já realizada no país.

Durante dois anos, o Ministério Público do Rio comandou a operação no mais absoluto sigilo. Na sexta-feira passada, um calhamaço de 300 páginas – ao qual VEJA teve acesso – foi enviado à Justiça pedindo a condenação de onze pessoas que usaram a web para divulgar fotos de crianças submetidas a todo tipo de humilhação sexual. VEJA procurou os onze acusados na semana passada, e só um deles se dispôs a falar à revista. Outros quatro acusados, menores de idade, também responderão a processo por difundir cenas de sexo explícito ou pornografia envolvendo criança ou adolescente, crime com pena de até quatro anos de prisão previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (veja quadro). Ver imagens desse tipo é sempre um soco no estômago. "Eu não conseguia trabalhar por muito tempo seguido. Tinha de parar para respirar", diz o promotor Romero Lyra, que comandou as investigações.

Entre os internautas denunciados à Justiça há, além do economista, uma médica, um funcionário público federal e meia dúzia de jovens, todos estudantes dos melhores colégios e universidades do Rio. Sob o manto do anonimato, essas pessoas varavam madrugadas recebendo e enviando centenas de fotos pelo computador. O domínio do que há de mais moderno em tecnologia ajudou a protegê-los. Vários deles conseguiram esconder dos parentes mais próximos arquivos com até 20.000 fotos de pornografia. Em muitas, pode-se notar claramente que as crianças fotografadas não têm a mínima noção do que estão fazendo. Em outras, é evidente a expressão de dor.

Apesar disso, na maior parte dos depoimentos ao Ministério Público, os denunciados tentam justificar-se. Explicam que, de fato, recebiam centenas de imagens de crianças que tinham sofrido abuso sexual, mas limitavam-se a guardá-las nos arquivos do computador. Jamais pensaram, por exemplo, em denunciar o caso à polícia. Pior que isso: mentiram. Por meio de laudos periciais, foi possível provar que esses internautas participavam de uma intensa troca de imagens. Também criavam códigos capazes de evitar a entrada de intrusos nessa rede. B.D., de 15 anos, é um dos menores envolvidos no caso. Sua mãe, uma fonoaudióloga de 51 anos, passou pelo constrangimento de ter de explicar aos promotores que os equipamentos apreendidos pertenciam na verdade ao filho, estudante de uma rigorosa escola estrangeira do Rio. "Ele é um aluno brilhante, presta trabalhos comunitários e sempre foi criado sob rígidos princípios éticos", disse a fonoaudióloga em seu depoimento. "Não sei explicar o que aconteceu." Por ser menor, B.D. não irá a julgamento. O processo será enviado à Coordenação das Promotorias de Infância e Juventude, e o destino do rapaz pode ser a internação em um abrigo para menores infratores.

A lista dos denunciados pelo Ministério Público também ajuda a jogar luz sobre o perfil psicológico dos pedófilos. Especialistas costumam apontá-los como pessoas introspectivas, que sofrem de uma quase impossibilidade de relacionamento e encontram na criança um parceiro submisso. Não é o que surge a partir dos depoimentos tomados pelos promotores do Rio. Boa parte dos adultos denunciados é casada ou tem um relacionamento estável. É o caso do funcionário público André Barcellos, de 27 anos. Em seu depoimento, André fez questão de dizer que havia "namorado uma única menina dos 18 aos 24 anos" e no momento mantinha um relacionamento que já durava dois anos. André acaba de ser aprovado em concurso para o Ministério do Planejamento, em Brasília. Ele falou a VEJA pelo telefone, na sexta-feira. Chorando muito, negou que tenha passado adiante qualquer foto, disse que só teve internet durante quatro meses. "Eu estava no lugar errado, na hora errada", afirmou. "Sou um cara normal e levo uma vida regrada."


Fotos Selmy Yassuda

Romero: ação inédita da promotoria na guerra contra a pedofilia


A prática de pedofilia na internet, um fenômeno recente, colocou em discussão um dos temas mais controvertidos da sexualidade humana. Na definição sucinta do dicionário Aurélio, pedófilo, palavra de origem grega, é "aquele que gosta de crianças". Os adeptos da pedofilia costumam usar argumentos históricos e sociológicos para se justificar. Entre eles, a alegação de que na Grécia Antiga relações homossexuais entre adultos e adolescentes eram encaradas com tolerância. O romancista russo Vladimir Nabokov também serve de álibi, por ter explorado o desejo de um homem adulto por uma menina no clássico Lolita. Na própria internet, há dezenas de sites que tentam mostrar não haver nada de mais no relacionamento entre adultos e crianças. Como se alguém com 10 anos de idade tivesse discernimento suficiente para decidir sobre questões de sexo.

Operação Catedral – A investigação dos promotores do Rio teve início em maio de 1998, quando chegaram ao Ministério Público as primeiras denúncias de prática de pedofilia na internet. Elas partiam de pais que haviam flagrado os filhos, com idade entre 13 e 15 anos, manipulando imagens digitais de crianças e bebês em situação de abuso sexual. O promotor Romero Lyra, 41 anos, foi designado então para comandar as investigações. Com passagem por casos policiais barras-pesadas, como as chacinas de Vigário Geral e da Candelária, e nenhuma experiência na área de informática, tratou de montar uma equipe de especialistas no assunto. "Poucas cidades brasileiras estão preparadas para uma investigação desse porte. Não temos nem equipamentos para combater quem pratica crimes pela internet", diz Romero. A investigação foi batizada de Operação Catedral-Rio, nome tirado de uma ação semelhante comandada pela Interpol, em setembro de 1998, que pôs atrás das grades 100 pessoas de catorze países flagradas comercializando fotos de pedofilia na rede mundial de computadores.


Wanderley: investigação com alta tecnologia

O primeiro aliado do promotor foi Wanderley de Abreu Jr., um estudante de 22 anos que é chamado pelos colegas de "Storm" (em inglês, tormenta), apelido que lhe cai como uma luva. Wanderley foi uma dor de cabeça na vida dos internautas denunciados. Aluno do curso de informática da PUC do Rio, Storm trabalha desde os 16 anos para empresas especializadas em criar redes de proteção contra hackers. Seus conhecimentos também foram fundamentais para esbaratar um grupo de internautas que havia instalado fotos de pedofilia nos computadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

O sucesso da operação chamou a atenção do Ministério Público do Rio. Utilizando um computador da promotoria, Wanderley passou um ano infiltrado em redes de pornografia na internet e conseguiu identificar em todo o país mais de 200 pedófilos. "Ficávamos madrugadas inteiras em frente da tela do computador", recorda Storm, que trabalhou a maior parte do tempo voluntariamente e só nos últimos meses da investigação recebeu uma ajuda de custo. Sua tarefa era minuciosa: anotar dia, hora, minutos e segundos exatos em que os internautas enviavam as fotos. Com essas informações e a ajuda de um aparelho chamado Caller ID, Storm identificava o usuário e o provedor que estavam conectados naquele momento. Assim foi possível saber com precisão o nome das pessoas que haviam divulgado as imagens. Era o que o Ministério Público precisava para levar os pedófilos à Justiça.

 

Com reportagem de Silvia Rogar

 

Lei não prevê crime eletrônico

A denúncia do Ministério Público do Rio contra os pedófilos marca o início de uma batalha judicial. Praticamente todos os acusados reconhecem que mantinham em seus computadores um imenso arquivo com fotos de pornografia infantil. Alguns confessam até que trocaram imagens com outros internautas. Sua defesa será alegar que essa prática não é criminosa e que o uso privado de material pornográfico de qualquer natureza não é punido pela lei. É verdade. O país realmente não tem uma legislação específica para delitos praticados pela internet. Se as fotos em questão fossem de adultos, não haveria nenhum problema legal, a não ser que uma das pessoas expostas se considerasse lesada de alguma forma. Foi justamente por essa razão que os promotores decidiram denunciar os acusados por violação do artigo 241 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que prevê pena de prisão para quem divulga imagens de menores em situação humilhante.

A pedofilia não consta do Código Penal brasileiro com esse nome. Mas se um adulto for flagrado fazendo sexo com uma criança poderá ser preso por atentado violento ao pudor, que significa constranger alguém, mediante violência, a praticar um ato libidinoso. Esse é um crime hediondo, punido com no mínimo seis anos de prisão. Para a Justiça brasileira, todo ato desse tipo cometido contra um menor de até 14 anos é presumidamente violento.

 

 

Acusações abalam reputação

Marcos Peron/Folha Imagem
Leonardo Chain: preso por pedofilia


No ano passado, o biólogo Leonardo Chain, de 28 anos, foi detido em São Paulo sob acusação de atentado violento ao pudor. A polícia encontrou em seu poder um vídeo em que ele praticava sexo oral com um garoto de 12 anos. Detalhe: Chain foi flagrado quando trabalhava como instrutor em uma colônia de férias. Com tranqüilidade, declarou fazer parte de um grupo conhecido como Boylovers, em português "amantes de meninos". Trata-se de uma instituição presente em países da Europa e nos Estados Unidos. Há centenas de sites na rede ligados a organizações desse tipo. Neles, a tônica é considerar as relações sexuais entre adultos e crianças uma prática tolerável. É comum encontrar textos supostamente assinados por adolescentes que declaram manter, sem problemas, relações com homens adultos desde os 10 anos de idade. Nessa filosofia de computador, o pedófilo não seria um criminoso. Na pior das hipóteses, trata-se de alguém que precisa de apoio terapêutico.

Na história recente, existem pelo menos dois casos de pessoas conhecidas acusadas publicamente de pedofilia. A repercussão das denúncias – ainda que sem provas – só reforça o óbvio: é impossível encarar esse tipo de procedimento com a naturalidade pretendida por alguns. Em 1998, o escritor inglês Arthur Clarke, reconhecido mundialmente pelo clássico de ficção científica 2001 – Uma Odisséia no Espaço, foi descrito pelo tablóide inglês Sunday Mirror como um octogenário fortemente atraído por crianças. Na época, Clarke morava no Sri Lanka, país famoso pela complacência diante da exploração sexual de menores. A denúncia, publicada um dia antes da chegada do príncipe Charles ao país, jamais ficou provada. Ainda assim, Arthur Clarke, que seria condecorado com o título de cavaleiro do império, perdeu o direito à honraria e passou pelo constrangimento de ser informado de que o príncipe não compareceria a um encontro marcado com ele.



Evelson de Freitas/Folha Imagem
Gérard Lebrun: acusado sem provas


O filósofo francês Gérard Lebrun, que morreu em dezembro passado e bastante conhecido em nossos meios acadêmicos por ter vivido mais de vinte anos no Brasil, também se viu envolvido em um caso de acusação sem provas que igualmente lhe causou transtornos. Em 1996, Lebrun foi apontado como pedófilo pelo carioca Argenil Pereira, um ex-gari preso pela polícia sob a acusação de exploração sexual de menores. Na casa de Argenil foram encontradas fotos do gari simulando sexo com duas irmãs de 7 e 9 anos. O gari não negou a prática de pedofilia, mas disse que as fotos haviam sido produzidas a pedido de Lebrun, que teria pago 1.000 dólares pelas imagens. O filósofo admitiu conhecer Argenil, mas garantiu à polícia que jamais havia encomendado fotos de pedofilia envolvendo meninas.

 

 

 
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