Edição 1 648 -10/5/2000

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Minas Gerais

O vice que manda

Itamar Franco não toma grandes decisões
sem consultar o ex-desafeto Newton Cardoso

José Edward e Leonardo Coutinho



Nelio Rodrigues
Newton Cardoso: controle de três secretarias e 10% do orçamento estadual


No dicionário político brasileiro, a definição de vice costuma ser: figura apagada, que vive de compromissos inúteis e fica à margem das grandes decisões. O vice-governador de Minas Gerais, Newton Cardoso, é uma exceção. Newtão, como é conhecido, faz o gênero "vice que manda, faz e acontece". Ele tem sob seu comando direto dez dos mais poderosos órgãos públicos do Estado, inclusive três secretarias. Numa delas, a Secretaria do Trabalho e da Assistência Social, sua mulher, Maria Lúcia Cardoso, é a titular da pasta. Nos próximos dias Newton deve emplacar mais uma. Na semana passada, o deputado federal newtista Hélio Costa foi convidado para assumir o cargo de secretário de Indústria e Comércio do Estado. Nos órgãos de segundo escalão, estima-se que pelo menos 1.000 funcionários sejam ligados a Newton Cardoso. Ao contrário de outros vices, ele tem muito dinheiro nas mãos: controla diretamente cerca de 10% do orçamento de Minas Gerais, ou seja, 1,4 bilhão de reais. Com tantos cargos e verbas, Newton tornou-se a verdadeira voz de comando na administração mineira. Seu gabinete, no 9º andar do prédio de concreto e vidro que abriga o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, é mais movimentado que o tradicional Palácio da Liberdade, a sede oficial do governo. "Sou uma espécie de primeiro-ministro", diz o vice-governador.

Moreira Mariz
Itamar: sonho da Presidência abre espaço para o vice


Aos 61 anos de idade, Newtão é um dos homens mais ricos de Minas Gerais. Em sua declaração de bens à Justiça Eleitoral feita em 1998, apresentou um patrimônio de 9,6 milhões de reais. Mas na Junta Comercial do Estado há dezoito fazendas e sete empresas registradas em seu nome e no de familiares. Entre elas, uma empresa de táxi aéreo, uma siderúrgica e uma mineradora. Só esta última, na qual ele tem 27% das ações, vale 95 milhões de reais. Grande parte desses bens, segundo adversários, teria sido amealhada por meio de maracutaias. Toda a sua carreira política foi permeada por esse tipo de acusação. Durante seu governo, entre 1987 e 1990, o jornal Estado de Minas fez uma série de reportagens mostrando irregularidades em sua administração: obras superfaturadas e contratos feitos sem licitação. Nos últimos meses, apadrinhados de Newtão estiveram envolvidos em vários escândalos no governo Itamar. Em março, o secretário de Obras Públicas, Maurício Guedes, e o diretor do Departamento de Estradas de Rodagem, Antônio Bortoletti, foram afastados temporariamente dos cargos por contratar dezoito empreiteiras sem licitação. Valor dos contratos: 51,6 milhões de reais. Os dois eram ligados diretamente ao vice-governador. Nos tempos em que Newton Cardoso era o governador, a responsabilidade pela contratação de empreiteiras cabia exatamente a Guedes.

Itamar Franco, que se diz um paladino da moralidade, hoje faz vista grossa para a fama de seu vice. Nem sempre foi assim. Os dois já foram ferrenhos adversários. Na eleição de 1986 para governador de Minas Gerais, na qual Newton Cardoso venceu o rival Itamar Franco, houve vários desentendimentos e acusações de parte a parte. O programa de TV de Itamar acusava Newtão de corrupto, grileiro de terras e estuprador. O atual vice-governador respondia dizendo que Itamar era homossexual. Agora, os ex-inimigos têm uma relação cordial. Falam-se três vezes ao dia e Itamar não toma nenhuma grande decisão no governo sem antes consultar o vice. A razão do atual entendimento é simples: os dois têm objetivos diferentes. Enquanto o governador Itamar Franco fica encastelado no palácio arquitetando sua candidatura à Presidência da República em 2002, o vice está de olho no governo do Estado. "O doutor Itamar não tem muito traquejo para lidar com o varejo da administração. Como ex-presidente da República, é mais afeito à solenidade do cargo", diz Newton Cardoso.

Livre para comandar a máquina, Newtão chega a receber uma centena de visitantes por dia em seu gabinete. A romaria começa por volta das 8 horas da manhã e às vezes só termina de madrugada. Estrategicamente, deixa sempre dois fotógrafos em sua sala para que as visitas levem um registro do encontro. Quando não dá expediente no gabinete, o vice está em peregrinação pelo interior do Estado. O populismo é seu estilo de fazer política. Está sempre anunciando obras ou representando o governo em eventos regionais. Desde o início do mandato, já fez cerca de oitenta viagens ao interior – uma média de cinco por mês – e visitou aproximadamente 160 municípios. Newtão é o político mineiro que mais recebeu títulos de cidadão honorário: tem cerca de 300. A cidade de Pitangui, a 125 quilômetros de Belo Horizonte, ergueu uma estátua dele na pracinha mais importante da cidade. O vice quer trabalhar e virar outra vez primeirão em Minas Gerais. Itamar, entretido com os ressentimentos que acumula contra Fernando Henrique Cardoso, não se perturba com a expansão que seu vice consegue dentro do governo mineiro.

 

 

O embaixador do pão de queijo

Orlando Brito
Aparecido, representante mineiro em Portugal: presente de Itamar


O ex-deputado mineiro José Aparecido de Oliveira, 71 anos, tem como especialidade resistir às dificuldades que derrubam e ressuscitam políticos. Aparecido já trabalhou com o ex-governador mineiro Magalhães Pinto, com Jânio Quadros, Tancredo Neves, José Sarney e Itamar Franco. Sempre ocupou bons cargos nessas administrações. Quando Tancredo ganhou a eleição para a Presidência da República, planejou a criação do Ministério da Cultura apenas para acomodá-lo. José Sarney o nomeou governador biônico de Brasília. Saiu do governo com 91% de desaprovação. Dois anos depois, faturou a Embaixada do Brasil em Portugal, presenteada pelo amigo Itamar Franco, então presidente da República. Com o apoio de Itamar, tentou ser o presidente da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. O Itamaraty não deu bola. Agora, no desemprego, foi novamente resgatado por Itamar. Aparecido é o mais novo embaixador de Minas Gerais em Portugal. O cargo de embaixador de Estados brasileiros não existe. Itamar, porém, deu um jeitinho para ajudar o amigão. Nomeou-o chefe do escritório de representação de Minas Gerais na Europa, com sede em Portugal. Missão do favorecido: levar um vidão na terra do fado e, nas horas vagas, ajudar Minas Gerais a romper o bloqueio econômico imposto pelos investidores desde a moratória decretada por Itamar. Ou seja: o contribuinte está pagando para Itamar Franco desfazer o que Itamar Franco fez.

 

 
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