Minas Gerais
O vice que manda
Itamar Franco não toma grandes decisões
sem consultar o ex-desafeto Newton Cardoso
José Edward e Leonardo Coutinho
Nelio Rodrigues
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| Newton Cardoso: controle
de três secretarias e 10% do orçamento
estadual |
No dicionário político brasileiro, a definição
de vice costuma ser: figura apagada, que vive de compromissos
inúteis e fica à margem das grandes decisões.
O vice-governador de Minas Gerais, Newton Cardoso, é
uma exceção. Newtão, como é
conhecido, faz o gênero "vice que manda, faz e acontece".
Ele tem sob seu comando direto dez dos mais poderosos órgãos
públicos do Estado, inclusive três secretarias.
Numa delas, a Secretaria do Trabalho e da Assistência
Social, sua mulher, Maria Lúcia Cardoso, é
a titular da pasta. Nos próximos dias Newton deve
emplacar mais uma. Na semana passada, o deputado federal
newtista Hélio Costa foi convidado para assumir o
cargo de secretário de Indústria e Comércio
do Estado. Nos órgãos de segundo escalão,
estima-se que pelo menos 1.000
funcionários sejam ligados a Newton Cardoso. Ao contrário
de outros vices, ele tem muito dinheiro nas mãos:
controla diretamente cerca de 10% do orçamento de
Minas Gerais, ou seja, 1,4 bilhão de reais. Com tantos
cargos e verbas, Newton tornou-se a verdadeira voz de comando
na administração mineira. Seu gabinete, no
9º andar do prédio de concreto e vidro que abriga
o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, é mais
movimentado que o tradicional Palácio da Liberdade,
a sede oficial do governo. "Sou uma espécie de primeiro-ministro",
diz o vice-governador.
Moreira Mariz
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| Itamar: sonho da Presidência
abre espaço para o vice |
Aos 61 anos de idade, Newtão é um dos homens
mais ricos de Minas Gerais. Em sua declaração
de bens à Justiça Eleitoral feita em 1998,
apresentou um patrimônio de 9,6 milhões de
reais. Mas na Junta Comercial do Estado há dezoito
fazendas e sete empresas registradas em seu nome e no de
familiares. Entre elas, uma empresa de táxi aéreo,
uma siderúrgica e uma mineradora. Só esta
última, na qual ele tem 27% das ações,
vale 95 milhões de reais. Grande parte desses bens,
segundo adversários, teria sido amealhada por meio
de maracutaias. Toda a sua carreira política foi
permeada por esse tipo de acusação. Durante
seu governo, entre 1987 e 1990, o jornal Estado de Minas
fez uma série de reportagens mostrando irregularidades
em sua administração: obras superfaturadas
e contratos feitos sem licitação. Nos últimos
meses, apadrinhados de Newtão estiveram envolvidos
em vários escândalos no governo Itamar. Em
março, o secretário de Obras Públicas,
Maurício Guedes, e o diretor do Departamento de Estradas
de Rodagem, Antônio Bortoletti, foram afastados temporariamente
dos cargos por contratar dezoito empreiteiras sem licitação.
Valor dos contratos: 51,6 milhões de reais. Os dois
eram ligados diretamente ao vice-governador. Nos tempos
em que Newton Cardoso era o governador, a responsabilidade
pela contratação de empreiteiras cabia exatamente
a Guedes.
Itamar Franco, que se diz um paladino da moralidade, hoje
faz vista grossa para a fama de seu vice. Nem sempre foi
assim. Os dois já foram ferrenhos adversários.
Na eleição de 1986 para governador de Minas
Gerais, na qual Newton Cardoso venceu o rival Itamar Franco,
houve vários desentendimentos e acusações
de parte a parte. O programa de TV de Itamar acusava Newtão
de corrupto, grileiro de terras e estuprador. O atual vice-governador
respondia dizendo que Itamar era homossexual. Agora, os
ex-inimigos têm uma relação cordial.
Falam-se três vezes ao dia e Itamar não toma
nenhuma grande decisão no governo sem antes consultar
o vice. A razão do atual entendimento é simples:
os dois têm objetivos diferentes. Enquanto o governador
Itamar Franco fica encastelado no palácio arquitetando
sua candidatura à Presidência da República
em 2002, o vice está de olho no governo do Estado.
"O doutor Itamar não tem muito traquejo para lidar
com o varejo da administração. Como ex-presidente
da República, é mais afeito à solenidade
do cargo", diz Newton Cardoso.
Livre para comandar a máquina, Newtão chega
a receber uma centena de visitantes por dia em seu gabinete.
A romaria começa por volta das 8 horas da manhã
e às vezes só termina de madrugada. Estrategicamente,
deixa sempre dois fotógrafos em sua sala para que
as visitas levem um registro do encontro. Quando não
dá expediente no gabinete, o vice está em
peregrinação pelo interior do Estado. O populismo
é seu estilo de fazer política. Está
sempre anunciando obras ou representando o governo em eventos
regionais. Desde o início do mandato, já fez
cerca de oitenta viagens ao interior uma média
de cinco por mês e visitou aproximadamente
160 municípios. Newtão é o político
mineiro que mais recebeu títulos de cidadão
honorário: tem cerca de 300. A cidade de Pitangui,
a 125 quilômetros de Belo Horizonte, ergueu uma estátua
dele na pracinha mais importante da cidade. O vice quer
trabalhar e virar outra vez primeirão em Minas Gerais.
Itamar, entretido com os ressentimentos que acumula contra
Fernando Henrique Cardoso, não se perturba com a
expansão que seu vice consegue dentro do governo
mineiro.
O embaixador do pão
de queijo
Orlando Brito
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| Aparecido, representante mineiro
em Portugal: presente de Itamar |
O ex-deputado mineiro José Aparecido de Oliveira,
71 anos, tem como especialidade resistir às
dificuldades que derrubam e ressuscitam políticos.
Aparecido já trabalhou com o ex-governador
mineiro Magalhães Pinto, com Jânio Quadros,
Tancredo Neves, José Sarney e Itamar Franco.
Sempre ocupou bons cargos nessas administrações.
Quando Tancredo ganhou a eleição para
a Presidência da República, planejou
a criação do Ministério da Cultura
apenas para acomodá-lo. José Sarney
o nomeou governador biônico de Brasília.
Saiu do governo com 91% de desaprovação.
Dois anos depois, faturou a Embaixada do Brasil em
Portugal, presenteada pelo amigo Itamar Franco, então
presidente da República. Com o apoio de Itamar,
tentou ser o presidente da Comunidade dos Países
de Língua Portuguesa. O Itamaraty não
deu bola. Agora, no desemprego, foi novamente resgatado
por Itamar. Aparecido é o mais novo embaixador
de Minas Gerais em Portugal. O cargo de embaixador
de Estados brasileiros não existe. Itamar,
porém, deu um jeitinho para ajudar o amigão.
Nomeou-o chefe do escritório de representação
de Minas Gerais na Europa, com sede em Portugal. Missão
do favorecido: levar um vidão na terra do fado
e, nas horas vagas, ajudar Minas Gerais a romper o
bloqueio econômico imposto pelos investidores
desde a moratória decretada por Itamar. Ou
seja: o contribuinte está pagando para Itamar
Franco desfazer o que Itamar Franco fez.
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