VEJA avisou
 |
| Stedile na capa da revista
em 1998. A reportagem mostrou
a face violenta do MST |
Quase dois anos atrás ainda havia uma enorme tolerância
do governo com os abusos do Movimento dos Sem-Terra. Ao
mesmo tempo, seus militantes despertavam simpatia em diversos
segmentos da opinião pública brasileira. O
MST era visto como porta-voz legítimo dos anseios
da categoria mais despossuída da sociedade brasileira,
a dos lavradores sem acesso ao mais básico item de
sobrevivência, um pedaço de terra para cultivar.
Numa reportagem de capa publicada em junho de 1998, VEJA
pintou um retrato bem mais realista dos sem-terra. Estampou
na capa seu líder, João Pedro Stedile, com
uma expressão nada amigável ao lado do título
"A esquerda com raiva". No texto, a revista chamava a atenção
para o fato de que os objetivos do MST iam muito além
de conseguir terra para quem não tinha onde plantar.
Usando como argumentação as próprias
palestras dos líderes do movimento, manuais e cartilhas
de treinamento dos militantes, a revista mostrou que o MST
se tornara um movimento político que visava derrubar
o regime democrático e promover uma revolução
marxista no Brasil.
O tempo se encarregou de mostrar que VEJA tinha razão
de sobra ao descrever o MST como uma organização
pouco interessada na reforma fundiária. Hoje, com
600.000 famílias de sem-terra
assentadas em um território que equivaleria a cinco
Dinamarcas, o MST deixa cada vez mais claras suas intenções
de perturbar a ordem por todos os meios que estiverem a
seu alcance e, no processo, desestabilizar um governo que
considera ilegítimo. Na semana passada, integrantes
do MST promoveram invasões, fizeram reféns
e ocuparam edifícios públicos em mais de uma
dezena de capitais. O governo deu mostras de ter perdido
a paciência e o presidente constatou que o MST "ultrapassou
o limite da legalidade". A violência chegou a tal
ponto que o movimento perdeu o apoio de seus aliados mais
fiéis, como o PT e a CUT, e até abalou a convicção
de parte da hierarquia da Igreja Católica, que sempre
o amparou. VEJA foi premonitória.