Edição 1 648 -10/5/2000

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Stedile na capa da revista em 1998. A reportagem mostrou a face violenta do MST

Quase dois anos atrás ainda havia uma enorme tolerância do governo com os abusos do Movimento dos Sem-Terra. Ao mesmo tempo, seus militantes despertavam simpatia em diversos segmentos da opinião pública brasileira. O MST era visto como porta-voz legítimo dos anseios da categoria mais despossuída da sociedade brasileira, a dos lavradores sem acesso ao mais básico item de sobrevivência, um pedaço de terra para cultivar. Numa reportagem de capa publicada em junho de 1998, VEJA pintou um retrato bem mais realista dos sem-terra. Estampou na capa seu líder, João Pedro Stedile, com uma expressão nada amigável ao lado do título "A esquerda com raiva". No texto, a revista chamava a atenção para o fato de que os objetivos do MST iam muito além de conseguir terra para quem não tinha onde plantar. Usando como argumentação as próprias palestras dos líderes do movimento, manuais e cartilhas de treinamento dos militantes, a revista mostrou que o MST se tornara um movimento político que visava derrubar o regime democrático e promover uma revolução marxista no Brasil.

O tempo se encarregou de mostrar que VEJA tinha razão de sobra ao descrever o MST como uma organização pouco interessada na reforma fundiária. Hoje, com 600.000 famílias de sem-terra assentadas em um território que equivaleria a cinco Dinamarcas, o MST deixa cada vez mais claras suas intenções de perturbar a ordem por todos os meios que estiverem a seu alcance e, no processo, desestabilizar um governo que considera ilegítimo. Na semana passada, integrantes do MST promoveram invasões, fizeram reféns e ocuparam edifícios públicos em mais de uma dezena de capitais. O governo deu mostras de ter perdido a paciência e o presidente constatou que o MST "ultrapassou o limite da legalidade". A violência chegou a tal ponto que o movimento perdeu o apoio de seus aliados mais fiéis, como o PT e a CUT, e até abalou a convicção de parte da hierarquia da Igreja Católica, que sempre o amparou. VEJA foi premonitória.