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Bulgákov, o sem-partido

Como o stalinismo atormentou um dos
maiores escritores russos do século XX

Rubens Figueiredo*

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Trechos do livro

"Os manuscritos não ardem em chamas" foi uma frase muito repetida pelos russos, sob o regime comunista. Extraída do romance O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov (1891-1940), ela representava um desafio à censura, vigente no país até a década de 1980. O que ninguém poderia prever era o teor profético que essas palavras assumiriam em relação ao próprio Bulgákov, um dos maiores autores russos do século passado. Em 1926, a polícia deu uma busca em sua casa e confiscou vários diários e anotações. O escritor tentou reavê-los durante anos, apelando a quem podia. Enfim, recuperou os papéis – apenas para lançá-los ao fogo assim que chegou em casa, pensando em livrar-se de futuros aborrecimentos. Dados como perdidos, os ricos diários de Bulgákov sobreviveram, no entanto. Na década de 1990, quando os arquivos da polícia política soviética foram abertos, lá estava uma cópia deles, cuidadosamente datilografada pelos burocratas.

Esse episódio dá uma idéia das agruras dos intelectuais sob o regime de Josef Stalin, que durou de 1924 a 1953. Sobretudo de intelectuais como Bulgákov, que tentavam criar sem a ingerência de um governo detentor de todos os meios de comunicação. A sina desse escritor que, em pleno domínio do realismo-socialista, fundia o fantástico à sátira, pondo para dançar na mesma roda bruxas, diabos, espiões e burocratas, é retratada no livro O Diabo Solto em Moscou (Edusp; 584 páginas; 42 reais). Trata-se de uma biografia de Bulgákov, assinada pelo estudioso da literatura russa Homero Freitas de Andrade, além de uma ótima seleção de contos.

Um dos méritos do livro é mostrar como Bulgákov reelaborou, em forma de ficção, os fatos de sua vida. Depois de ter presenciado o suicídio de um amigo apavorado com o recrutamento militar, Bulgákov foi médico no front, durante a I Guerra. Segundo a esposa enfermeira, "fazia amputações da manhã à noite". Ela segurava os feridos enquanto ele operava. Transferido para o interior, contaminou-se ao sugar por um tubo o muco de uma criança com difteria. Recorreu à morfina para aliviar as dores e viciou-se na droga. Mandava a mulher conseguir morfina e, descontrolado, chegou a jogar contra ela um fogareiro a querosene e ameaçá-la com um revólver. Sobrevieram a Revolução de 1917 e a guerra civil. De novo médico no front, Bulgákov testemunhou execuções sumárias, torturas e enforcamentos coletivos, enquanto grassavam epidemias de tifo e cólera. Essas experiências ressurgem em textos como A Morfina e Relatos de um Médico Jovem, presentes nesse volume.

 
Roger Viollet
Mikhail Bulgákov: biografia e seleção de contos

Farto da medicina, Bulgákov resolveu dedicar-se apenas à literatura em 1920, obtendo enorme êxito com a peça Os Dias dos Turbin (1926). O próprio Stalin a viu muitas vezes e sabia trechos de cor. Mas nem isso impediu que ela fosse proibida. Bulgákov era um sem-partido – ou seja, optou por não se filiar ao Partido Comunista – e suas obras inspiravam hostilidade. Cinco anos depois, e de forma inexplicável, Stalin mandou reencenar a peça e Turbin chegou a ter 800 apresentações. Só que os direitos autorais não iam para Bulgákov. Proibido de publicar e com suas peças banidas dos teatros, o escritor se viu privado dos meios de vida. Em desespero, chegou a enviar uma carta a Stalin (veja quadro). Certo dia, o telefone tocou e o próprio ditador lhe disse: "Nós o aborrecemos tanto assim? Precisamos nos encontrar para uma conversa". Em vista da crescente brutalidade do regime, o tom paternal do líder havia de soar bastante ameaçador.

A situação de Bulgákov tornou-se absurda: os teatros lhe encomendavam peças que não encenavam. Uma delas foi ensaiada em vão durante quatro anos. Sua criação tornou-se uma atividade clandestina e seus contos insólitos – como Anotações nos Punhos – podem ser mais bem entendidos à luz dos caprichos da censura, dos labirintos da burocracia, do clima de vigilância e delação constantes, que assombraram Bulgákov até o fim da vida. Hoje, restaurantes em Moscou levam o nome de seus personagens e um ônibus turístico percorre os locais citados em O Mestre e Margarida. Não deixa de ser um final feliz.

 

SOU ADMISSÍVEL NA UNIÃO SOVIÉTICA?

"Após todas as minhas obras terem sido proibidas, começaram a ecoar vozes entre muitos cidadãos dos quais sou conhecido como escritor, que me dão sempre o mesmo conselho: Escrever uma 'peça comunista' e, além disso, dirigir ao Governo da União Soviética uma carta de arrependimento, contendo a negação de opiniões precedentes manifestadas por mim em obras literárias, e assegurando que doravante hei de trabalhar como um escritor fiel à idéia do comunismo. Não dei ouvidos a esse conselho. É pouco provável que lograsse aparecer num aspecto favorável tendo escrito uma carta mentirosa. Nem mesmo ia tentar escrever uma peça comunista, sabendo naturalmente que não conseguiria. TODO E QUALQUER SATÍRICO NA UNIÃO SOVIÉTICA ATENTA CONTRA O REGIME COMUNISTA. Será que sou admissível na União Soviética?"


Trecho da carta enviada a Stalin por Bulgákov,
em março de 1930



   
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