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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
A tal da demanda social
"Não
há um critério prático
para dizer se há
ou não demanda social para determinada graduação
de resto, nem para dizer
com rigor o que é isso"
Está
para voltar ao MEC o critério da "demanda social" para a
abertura de cursos superiores. Para um economista puro-sangue, é
uma contradição de palavras. Demanda tem a ver com
gente querendo pagar. Social teria a ver com o interesse coletivo.
Juntando as duas coisas, só pode dar apagão intelectual.
Mas deixemos as querelas teóricas.
A idéia de buscar "demanda social" para autorizar um curso
é antiga e foi um dos grandes alimentos para o tráfico
de influências que reinava no MEC. O critério é
um sobrevivente anacrônico da época em que para cada
novo graduado havia um emprego descrito por uma palavra com a mesma
raiz. Para os médicos, haveria empregos de médico,
para os advogados, de advogado, e por aí afora.
Mas já no Censo de 1991 bem mais da metade dos graduados
do ensino superior tinha empregos distantes do que estava escrito
no seu diploma. Hoje, é ainda maior a proporção
dos "desprofissionalizados". A muitos, dá gosto pôr
a culpa no governo, no FMI ou no Banco Mundial. Mas, se é
assim também nos Estados Unidos e na Europa, é porque
o número de diplomados do ensino superior tende a crescer
bem mais rápido do que a economia.
No fundo, é simples. As profissões tradicionais crescem
pouco. Em contraste, com as mudanças tecnológicas,
é célere a expansão das "genéricas",
em que é preciso cursar os quatro anos do ensino superior,
mas não faz muita diferença o que nele se estuda.
Envolvem comprar, vender, mandar, organizar, comunicar-se etc. As
competências requeridas são ler, escrever, usar números,
resolver problemas e trabalhar em grupo. Em suma, pensar analiticamente
e aprender rápido o que quer que apareça pela frente.
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Diplomas
como os de medicina e odontologia continuam levando às ocupações
correspondentes. Mas em outras matérias, como economia, nem
sequer 10% dos graduados trabalham na função. Os filósofos
têm apenas 5%. Saturação dos mercados? Longe
disso, as estatísticas mostram que entre os diplomados nessas
áreas as taxas de desemprego são pelo menos a metade
da média nacional e os níveis de rendimento pelo menos
o dobro dos auferidos por quem não tem o diploma. E, afora
o choque inicial de descobrir que o emprego terá outro nome,
se é que tem nome, não há evidência de
que gere menos satisfação profissional.
Diante disso, como poderemos dizer se há ou não demanda
social? Se definirmos o termo pela existência de empregos
com o nome do diploma, há várias décadas não
há demanda social nem para 10% dos cursos superiores. Se
admitirmos que pode sobrar gente sem um determinado emprego, qual
a proporção mágica acima da qual não
haveria demanda social? Por outro lado, e as outras ocupações
que requerem diploma superior, mas não curso específico?
São muitas centenas. Teríamos de criar um curso para
cada uma?
As conclusões são inevitáveis. Não há
um critério prático para dizer se há ou não
demanda social de resto, nem para dizer com rigor o que é
isso. Temos de entender que a educação superior para
a maioria das pessoas é mais educação, não
importando muito em quê. A idéia não é
nova. A administração pública do Império
Britânico escolhia graduados em história, grego e latim.
Wall Street e as multinacionais contratam graduados de humanidades
para as posições com mais horizontes de ascensão.
Quando o nível educacional máximo era o 2º grau,
estudávamos geometria, canto e geografia, sem que fôssemos
virar geômetras, cantores ou geógrafos. O mesmo ocorre
hoje com o ensino superior.
Todos os cursos das humanidades e áreas sociais estão
nessa categoria de "educação geral", para a vasta
maioria dos seus graduados. Igualzinho está o bacharelado
em direito, um curso que também forma advogados. O curso
de direito, pela sua ênfase na linguagem, nas leituras e pelo
rigor analítico, é uma excelente preparação
para uma miríade de ocupações que absorvem
alegremente os seus graduados. Pelo menos três quartos dos
graduados não serão advogados. Como existe um exame
da OAB para filtrar a qualidade dos que estarão autorizados
a advogar, não há razão alguma para o alarido
que se criou. Por que filosofia e economia podem virar educação
geral e direito não?
Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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