Edição 1844 . 10 de março de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Lições do Haiti

Uma delas alerta contra a moda dos "golpes
legais"; outra desnuda o mito da revolução

No século XIX, os senhores do Brasil nem podiam ouvir falar no Haiti. Eles tremiam de medo de uma doença a que deram o nome de "haitianismo", sinônimo de desordem, caos e violência. Liderada por Toussaint-L'Ouverture, o "Espártaco Negro", houve, na colônia francesa que viria a se transformar no Haiti, uma rebelião de escravos que, iniciada no fim no século XVIII e inspirada na revolução que ocorria na metrópole, resultou na expulsão da pequena elite branca de donos de terra e, em 1804, na independência do país, conquistada no enfrentamento com os exércitos de ninguém menos do que Napoleão Bonaparte. "O 'haitianismo' era um espantalho poderoso num país que dependia da mão-de-obra escrava e em que dois terços da população eram mestiços", escreve o historiador José Murilo de Carvalho no livro Cidadania no Brasil.

O Haiti fora, durante o século XVIII, a mais rentável e próspera colônia da América Latina. Em 1789, dois terços dos investimentos franceses no exterior estavam ali concentrados. Açúcar, principalmente, mas também café, cacau e algodão eram produzidos em larga escala, em fazendas trabalhadas por escravos trazidos da África. Setecentos navios, a cada ano, mobilizando 800.000 marinheiros, cumpriam o leva-e-traz entre a França e a então jóia de seu império colonial. Contra esse pano de fundo de prosperidade econômica e cruel opressão de uma minoria de 30.000 colonos brancos contra uma maioria de 500.000 escravos, fez-se o que o manual da boa evolução histórica recomenda: uma revolução. E no entanto... No entanto, de lá para cá, como se sabe, tudo deu errado. A história do Haiti é marcada por golpes, rebeliões, massacres e intervenções estrangeiras. O país é mundialmente reputado pelos ditadores grotescos, como François Duvalier, o "Papa Doc", e seu filho Jean-Claude, o "Baby Doc", e pelas milícias assassinas, como a dos "tontons macoutes". Os acontecimentos da semana passada, em que o presidente Jean-Bertrand Aristide foi deposto em meio a uma rebelião, é apenas um detalhe a mais, uma migalha, um grão de areia, numa longa e infindável tragédia.

No Haiti, dadas sua condição de o país mais pobre do continente e sua inclinação para a selvageria fratricida, reminiscente das lutas tribais africanas, as coisas sempre se apresentam de forma peculiar, mas os acontecimentos que ali se desenrolam apenas copiam uma tendência que tem assolado a América Latina. Da rica, apesar de tudo, e "européia" Argentina à pobre Bolívia de maioria indígena, vários países tiveram presidentes arrancados da cadeira, num modelo que foge ao clássico golpe de Estado, mas nem por isso espalha menor preocupação com relação ao respeito ao processo democrático. Não há mais tanques na rua nem generais no poder. Sempre se dá um jeito de uma aparência de constitucionalidade. Mesmo no Haiti, onde a tradição democrática é nula, entregou-se a Presidência ao presidente da Suprema Corte. Com isso, rende-se homenagem ao repúdio internacional aos golpes clássicos e ao mau gosto que eles representam. Mas, ao mesmo tempo, conserva-se a tradição continental de depor presidentes. Descobriu-se que dá para continuar a fazê-lo. Basta acrescentar ao ato um vernizinho legal.

Das fotos e filmes sobre os acontecimentos no Haiti, as imagens mais chocantes não são as que mostram os tumultos, saques ou corpos na rua. São as que retratam o regozijo do povo com a deposição do presidente. Está rindo de quê, aquela gente? Aristide era um presidente impopular, que da promessa inicial de justiça e liberdade escorregou para o autoritarismo e a corrupção. Mas os rebeldes que contra ele se levantaram formam uma sociedade de esquadrões da morte com traficantes de drogas. Será que as pessoas que saíram às ruas para comemorar, numa efusão própria dos povos carnavalescos, não aprenderam que, no Haiti, o pior está sempre por vir?

O Brasil por muito tempo foi acometido de saudade pela revolução que não houve. As transformações mais marcantes, como a Independência e a República, foram obtidas de modo negociado. Isso, segundo raciocínio que permeou, e ainda permeia, embora com menor força, o pensamento de esquerda, teria impedido as verdadeiras mudanças, aquelas que mexem com as estruturas de um país. Pois o Haiti teve, em seu nascimento, uma revolução para ninguém botar defeito, e sua história resultou no que se sabe. Com relação a outro mito brasileiro, o de que se o Brasil tivesse perdido uma guerra, ou sentido os efeitos de uma bomba atômica, como a Alemanha ou o Japão, poderia se ter aprumado em nova e mais promissora direção, o falecido Mario Henrique Simonsen dizia que a única certeza seriam os efeitos da bomba atômica. Se, depois, conheceria prosperidade semelhante à de alemães e japoneses, sabe-se lá. No caso do mito da revolução como rito necessário a uma sociedade mais justa e decente, a única certeza é que, se ela tivesse ocorrido no Brasil, teria custado muito sangue. Quanto ao que se seguiria, o Haiti prova que podia ser o abismo.

 
 
 
 
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