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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Lições
do Haiti
Uma
delas alerta contra a moda dos "golpes
legais"; outra desnuda o mito da revolução
No
século XIX, os senhores do Brasil nem podiam ouvir falar
no Haiti. Eles tremiam de medo de uma doença a que deram
o nome de "haitianismo", sinônimo de desordem, caos e violência.
Liderada por Toussaint-L'Ouverture, o "Espártaco Negro",
houve, na colônia francesa que viria a se transformar no Haiti,
uma rebelião de escravos que, iniciada no fim no século
XVIII e inspirada na revolução que ocorria na metrópole,
resultou na expulsão da pequena elite branca de donos de
terra e, em 1804, na independência do país, conquistada
no enfrentamento com os exércitos de ninguém menos
do que Napoleão Bonaparte. "O 'haitianismo' era um espantalho
poderoso num país que dependia da mão-de-obra escrava
e em que dois terços da população eram mestiços",
escreve o historiador José Murilo de Carvalho no livro Cidadania
no Brasil.
O
Haiti fora, durante o século XVIII, a mais rentável
e próspera colônia da América Latina. Em 1789,
dois terços dos investimentos franceses no exterior estavam
ali concentrados. Açúcar, principalmente, mas também
café, cacau e algodão eram produzidos em larga escala,
em fazendas trabalhadas por escravos trazidos da África.
Setecentos navios, a cada ano, mobilizando 800.000
marinheiros, cumpriam o leva-e-traz entre a França e a então
jóia de seu império colonial. Contra esse pano de
fundo de prosperidade econômica e cruel opressão de
uma minoria de 30.000 colonos brancos
contra uma maioria de 500.000 escravos,
fez-se o que o manual da boa evolução histórica
recomenda: uma revolução. E no entanto... No entanto,
de lá para cá, como se sabe, tudo deu errado. A história
do Haiti é marcada por golpes, rebeliões, massacres
e intervenções estrangeiras. O país é
mundialmente reputado pelos ditadores grotescos, como François
Duvalier, o "Papa Doc", e seu filho Jean-Claude, o "Baby Doc", e
pelas milícias assassinas, como a dos "tontons macoutes".
Os acontecimentos da semana passada, em que o presidente Jean-Bertrand
Aristide foi deposto em meio a uma rebelião, é apenas
um detalhe a mais, uma migalha, um grão de areia, numa longa
e infindável tragédia.
No
Haiti, dadas sua condição de o país mais pobre
do continente e sua inclinação para a selvageria fratricida,
reminiscente das lutas tribais africanas, as coisas sempre se apresentam
de forma peculiar, mas os acontecimentos que ali se desenrolam apenas
copiam uma tendência que tem assolado a América Latina.
Da rica, apesar de tudo, e "européia" Argentina à
pobre Bolívia de maioria indígena, vários países
tiveram presidentes arrancados da cadeira, num modelo que foge ao
clássico golpe de Estado, mas nem por isso espalha menor
preocupação com relação ao respeito
ao processo democrático. Não há mais tanques
na rua nem generais no poder. Sempre se dá um jeito de uma
aparência de constitucionalidade. Mesmo no Haiti, onde a tradição
democrática é nula, entregou-se a Presidência
ao presidente da Suprema Corte. Com isso, rende-se homenagem ao
repúdio internacional aos golpes clássicos e ao mau
gosto que eles representam. Mas, ao mesmo tempo, conserva-se a tradição
continental de depor presidentes. Descobriu-se que dá para
continuar a fazê-lo. Basta acrescentar ao ato um vernizinho
legal.
Das
fotos e filmes sobre os acontecimentos no Haiti, as imagens mais
chocantes não são as que mostram os tumultos, saques
ou corpos na rua. São as que retratam o regozijo do povo
com a deposição do presidente. Está rindo de
quê, aquela gente? Aristide era um presidente impopular, que
da promessa inicial de justiça e liberdade escorregou para
o autoritarismo e a corrupção. Mas os rebeldes que
contra ele se levantaram formam uma sociedade de esquadrões
da morte com traficantes de drogas. Será que as pessoas que
saíram às ruas para comemorar, numa efusão
própria dos povos carnavalescos, não aprenderam que,
no Haiti, o pior está sempre por vir?
O
Brasil por muito tempo foi acometido de saudade pela revolução
que não houve. As transformações mais marcantes,
como a Independência e a República, foram obtidas de
modo negociado. Isso, segundo raciocínio que permeou, e ainda
permeia, embora com menor força, o pensamento de esquerda,
teria impedido as verdadeiras mudanças, aquelas que mexem
com as estruturas de um país. Pois o Haiti teve, em seu nascimento,
uma revolução para ninguém botar defeito, e
sua história resultou no que se sabe. Com relação
a outro mito brasileiro, o de que se o Brasil tivesse perdido uma
guerra, ou sentido os efeitos de uma bomba atômica, como a
Alemanha ou o Japão, poderia se ter aprumado em nova e mais
promissora direção, o falecido Mario Henrique Simonsen
dizia que a única certeza seriam os efeitos da bomba atômica.
Se, depois, conheceria prosperidade semelhante à de alemães
e japoneses, sabe-se lá. No caso do mito da revolução
como rito necessário a uma sociedade mais justa e decente,
a única certeza é que, se ela tivesse ocorrido no
Brasil, teria custado muito sangue. Quanto ao que se seguiria, o
Haiti prova que podia ser o abismo.
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