Edição 1844 . 10 de março de 2004

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Música
Volume baixo

Músicas velhas, romances truncados,
muitos diálogos – tudo contribui para
que a trilha sonora de Celebridade
não venda como deveria


Sérgio Martins

 
Fotos divulgação
Casal: Maria Clara e Fernando
Tema: Ruby, de Ray Charles
Por que a música não emplacou: ela é antiga, e faltou química entre o par romântico

Um problema atormenta a direção de Celebridade, da Rede Globo: como ampliar as vendagens de sua trilha sonora. O CD da novela foi lançado em outubro. Até agora, 420.000 cópias dele saíram das lojas. É um número pálido se comparado ao de sua antecessora, Mulheres Apaixonadas (veja quadro). Até mesmo Malhação tem se mostrado mais eficiente na tarefa de criar sucessos musicais. Com ibope médio de 33 pontos, contra 45 de Celebridade, o seriado adolescente já promoveu a vendagem de 700.000 discos em sua atual temporada. Temas musicais mal escolhidos, romances truncados e a falta de cenas que explorem a emoção das canções são os motivos que explicam por que a trilha de Celebridade não decola.

A trilha de Celebridade vendeu até agora 420 000 CDs.

A trilha de sua antecessora no horário das 8, Mulheres Apaixonadas, vendeu 1,5 milhão de CDs

Frutos de uma parceria entre a Rede Globo e a gravadora Som Livre, as trilhas de novela têm no produtor musical Mariozinho Rocha o seu principal arquiteto. Mas os autores dão sugestões. Gilberto Braga, o roteirista de Celebridade, sempre teve bom tino para essa tarefa. A trilha de Dancin' Days (1978), por exemplo, lançou vários hinos da era das discotecas no Brasil. No caso de Celebridade, contudo, Braga insistiu em usar músicas antigas que não empolgaram. A trilha está cheia de canções do tempo do Onça e artistas do tempo do Onça, como Ray Charles e Rita Lee. Permitiu-se ainda que integrantes do elenco escolhessem seus próprios temas. Cláudia Abreu votou em Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones, e Malu Mader sugeriu Enquanto Houver Sol, dos Titãs (banda de seu maridão, Tony Bellotto, mas deve ser apenas uma coincidência).

 

Casal: Darlene e Wladimir
Tema: Amor e Sexo, de Rita Lee
Por que a música não emplacou: o namoro entre os dois foi interrompido, e Darlene está descambando para o mal

Do ponto de vista dos músicos, uma novela é um gigantesco videoclipe. Tudo o que eles querem são longos beijos, flash-backs intermináveis e personagens que passeiam na praia para meditar, enquanto as suas canções tocam ao fundo. Falta esse tipo de cena em Celebridade. Os principais romances da história ou padecem de pouca química entre os seus protagonistas, ou foram abortados por Gilberto Braga, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Além disso, para quem trabalha com trilhas sonoras, um roteirista prolífico demais pode atrapalhar. As novelas de Manoel Carlos ou Benedito Ruy Barbosa costumam ter grandes seqüências só de imagens e música. Em 1996, uma canção de Zé Ramalho chegou a tocar inteira num capítulo de O Rei do Gado. Gilberto Braga, pelo contrário, não poupa diálogos e deixa pouco espaço para o fundo musical.

Celebridade deve sofrer mudanças que talvez ajudem a vender discos. A metamorfose mais importante será a de Maria Clara (Malu Mader). Ela vai mergulhar na pobreza e, para dar a volta por cima, se transformará numa espécie de Dona Jura (a pagodeira da novela O Clone) e abrirá uma gafieira no Andaraí. Isso não vai impulsionar a trilha sonora atual, mas o CD Celebridade Samba já está no forno. Chega ao mercado no mês que vem.

 
 
 
 
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