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Livros
Altos
vôos
Um
biógrafo americano defende
a tese de que Santos
Dumont
foi mesmo o pai da aviação

Marilia
Pacheco Fiorillo
Os
americanos festejaram em 2003 o centenário da aviação,
para eles um feito dos irmãos Orville e Wilbur Wright. Asas
da Loucura (tradução de Marisa Motta; Objetiva;
326 páginas; 41,90 reais) mostra que eles deram a festa errada.
O americano Paul Hoffman, ex-editor da Enciclopédia Britânica
e autor dessa minuciosa biografia do brasileiro Alberto Santos Dumont
(1873-1932), trata da antiga disputa sobre quem teria sido o inventor
do avião e a equaciona não em termos de datas, mas
de propósitos. Segundo Hoffman, Dumont superou de longe os
irmãos Wright pela grandeza de sua utopia pois o sonho
de voar, desde Ícaro, sempre foi propulsionado pelo desejo
de liberdade. Em 1903, os então anônimos Wright alegaram
ter voado, mas estavam de olho sobretudo na patente da invenção
e cercaram o episódio de tanto segredo que ele só
foi testemunhado por meia dúzia de curiosos. Seu vôo
passou tão em brancas nuvens que o jornal local deu uma nota
com o seguinte título: "Garotos de Dayton imitam o grande
Santos Dumont".
Na
primeira década do século XX, Dumont era uma das figuras
mais famosas e admiradas em Paris, flanando pela cidade com seus
dirigíveis e suas aeronaves, às vezes aterrissando
acidentalmente numa árvore do jardim dos Rothschild, que
lhe enviavam uma cesta de piquenique para ser degustada entre as
folhagens. Em 1909 ele pilotou o Demoiselle, "libélula"
muito copiada depois na Europa e nos Estados Unidos. Em 1906 ele
pôs no ar o 14 Bis, no primeiro vôo de aeroplano
na Europa. E já em 1901 milhares de parisienses o tinham
visto circunavegar a Torre Eiffel com um dirigível. Gustave
Eiffel, aliás, os Rothschild e a princesa Isabel eram freqüentadores
de seus jantares literalmente aéreos no apartamento de Champs-Elysées,
servidos em cadeiras suspensas por cabos ao teto. Herdeiro de uma
fortuna do café, ele era um dândi perfeito, embora
tímido, com seus colarinhos de gola alta, chapéu panamá
e um revolucionário relógio de pulso, que o joalheiro
Cartier criou para que ele não tivesse de largar as mãos
do leme para ver as horas.
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| Dumont:
roupas de dândi e jantares aéreos |
Suas
proezas lhe valeram congratulações dos ases da ficção
científica da época, os escritores Júlio Verne
e H.G. Wells. Mas o que a lenda evita, e esse livro recupera, é
a profunda depressão que se abateu sobre Dumont ao ver o
uso mortífero de sua invenção durante a I Guerra
Mundial, o que o levou a várias internações
em clínicas de repouso e finalmente ao suicídio, de
volta ao Brasil. O trabalho de pesquisa de Hoffman é minucioso,
embora ele não tenha podido consultar os croquis e algumas
cartas queimadas pelo próprio Dumont, horrorizado quando,
no início da guerra, vizinhos o acusaram de espionagem e
a polícia francesa invadiu sua casa. Romântico, Dumont
acreditava que sua invenção facilitaria a convivência
entre os homens e as nações. Enquanto isso, os irmãos
Wright fechavam contratos de venda da patente com o Ministério
da Guerra americano.
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Suspeita
de traição
"Ele
estava lá no dia 3 de agosto de 1914, divertindo-se
com seu telescópio, olhando as estrelas à
noite e o mar durante o dia, quando a Alemanha declarou
guerra à França. Horrorizado com a agressão
ao seu país adotivo, decidiu colocar-se a serviço
do exército francês. Mas ele não
teve essa chance os militares o alcançaram
primeiro. Seus vizinhos pensavam que o tímido
estrangeiro, que observava o mar com seu telescópio
de fabricação alemã, era um espião
do cáiser. Quando a polícia militar revistou
sua casa, ele ficou mortificado. Ele fora o homem mais
famoso e reverenciado da França e, agora, suspeitavam
de ser um traidor. Embora a polícia tenha se
desculpado pela busca inútil, no momento em que
ela partiu ele jogou todos os seus documentos aeronáuticos
no fogo. Queimou cada desenho, cada projeto, cada carta
de recomendação."
Trecho
de Asas da Loucura
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