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Cinema
Quando
o Oscar vira maldição
Um
fardo pesa sobre as jovens atrizes
que ganham a estatueta:
provar que
vieram para ficar

Marcelo
Marthe
Divulgação
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| Halle
Berry, em Na Companhia do Medo: gritos histéricos e saco
de pancadas de fantasma |
Há
dois anos, a americana Halle Berry entrou para a história
do cinema ao se tornar a primeira atriz negra premiada com o Oscar
principal da categoria. Vinda de uma carreira marcada por papéis
sem grande destaque, ela realizou esse feito graças à
sua performance em A Última Ceia, uma fita sobre as
feridas raciais da sociedade americana. Linda e talentosa, Halle
fez história e valorizou seu passe, mas a premiação
não garantiu um salto qualitativo em sua carreira. Desde
então, ela só tem encarado papéis que não
permitem grandes vôos dramáticos, para dizer o mínimo.
Participou de X-Men 2, o tipo de produção que
não agrega muito ao currículo de um ator e
ainda interpretou uma figura secundária, a heroína
Tempestade. Na última aventura do agente 007, foi uma Bond-girl
como havia muito não se via mas, convenhamos, não
mais que uma Bond-girl. Agora, Halle está de volta num dos
papéis mais constrangedores de sua carreira. Na fita de horror
Na Companhia do Medo (Gothika, Estados Unidos, 2003), em
cartaz no país, ela surge como uma psiquiatra que, depois
de sofrer uma possessão, é acusada de matar o marido
e acaba internada no manicômio em que trabalha. Sua atuação
consiste, na maior parte da ação, em dar aqueles gritos
histéricos tão típicos do gênero, além
de ser saco de pancadas do fantasma que a atormenta. Com papéis
assim, Halle parece ter se tornado a nova vítima de uma sina
que atormenta as ganhadoras do Oscar. São comuns os casos
de atrizes que recebem a estatueta e depois não conseguem
se sustentar no primeiro time de Hollywood.
Há
um perfil clássico de atriz sujeita a esse risco: em geral,
ela é jovem, tem poucos trabalhos no currículo e arrebata
a estatueta porque dá a sorte de fazer o filme certo na hora
certa. Marisa Tomei é um exemplo do efeito deletério
que um Oscar pode representar sob essas condições.
Premiada em 1993, como coadjuvante pela comédia Meu Primo
Vinny, ela se tornou de repente o centro das atenções
da indústria o tipo de situação em que
qualquer passo em falso pode ser fatal. Catapultada a papéis
de protagonista para os quais não estava preparada, Marisa
acumulou fiasco após fiasco. Nem mesmo uma nova indicação,
em 2002, pelo pouco notável drama Entre Quatro Paredes,
mudou seu destino. A atriz Hilary Swank é outro exemplo.
Desde 2000, quando levou a estatueta de melhor atriz por Meninos
Não Choram, ela não representou mais nenhum papel
de destaque. O mais que fez foram pontas de luxo, como em O Dom
da Premonição. Laureada como coadjuvante em 2002,
por Uma Mente Brilhante, a bela Jennifer Connelly também
vem seguindo essa trilha. Ela até participou de uma produção
de sucesso depois de ganhar o Oscar: foi coadjuvante de Hulk.
Mas não se trata, é claro, do gênero de
filme pelo qual uma atriz será lembrada na posteridade.
O
fato de as atrizes serem mais suscetíveis a essa sina do
que os atores é sintoma das dificuldades que as mulheres
encontram para construir uma carreira em Hollywood, indústria
ainda dominada pelos homens. Aos poucos, a situação
vem mudando, mas ainda está sujeita a retrocessos. Uma pesquisa
anual da Universidade Estadual de San Diego revela que, de 2001
para 2002, o número de mulheres atuando como diretoras, produtoras,
roteiristas e em outras funções de bastidores caiu
de 19% para 17% da força de trabalho. No caso das atrizes,
há outro fator em jogo: a beleza. Ela conta no cinema, e
para as mulheres ainda mais. Quando jovens, elas têm mais
chances de brilhar e, por tabela, ganhar um Oscar. À
medida que amadurecem, a oferta de papéis interessantes diminui,
o que limita as possibilidades de uma atriz que se destacou na juventude
repetir seu êxito. "Não é segredo que, a partir
de certa idade, as mulheres deixam de existir para Hollywood", declarou
recentemente a atriz Kim Cattrall, do seriado Sex and the City.
Halle Berry está distante, obviamente, da fila de desemprego
seu cachê está na casa dos 14 milhões
de dólares por filme. Mas, por ser negra e já ter
37 anos, ela encontra limitações adicionais para conseguir
papéis de destaque. Um maior cuidado no gerenciamento da
carreira poderia evitar, apesar de tudo, que ela entrasse em pesadelos
como Na Companhia do Medo.
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