Edição 1844 . 10 de março de 2004

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Cinema
Quando o Oscar vira maldição

Um fardo pesa sobre as jovens atrizes
que ganham a
estatueta: provar que
vieram para ficar


Marcelo Marthe


Divulgação
Halle Berry, em Na Companhia do Medo: gritos histéricos e saco de pancadas de fantasma

Os vencedores do Oscar 2004

Há dois anos, a americana Halle Berry entrou para a história do cinema ao se tornar a primeira atriz negra premiada com o Oscar principal da categoria. Vinda de uma carreira marcada por papéis sem grande destaque, ela realizou esse feito graças à sua performance em A Última Ceia, uma fita sobre as feridas raciais da sociedade americana. Linda e talentosa, Halle fez história e valorizou seu passe, mas a premiação não garantiu um salto qualitativo em sua carreira. Desde então, ela só tem encarado papéis que não permitem grandes vôos dramáticos, para dizer o mínimo. Participou de X-Men 2, o tipo de produção que não agrega muito ao currículo de um ator – e ainda interpretou uma figura secundária, a heroína Tempestade. Na última aventura do agente 007, foi uma Bond-girl como havia muito não se via – mas, convenhamos, não mais que uma Bond-girl. Agora, Halle está de volta num dos papéis mais constrangedores de sua carreira. Na fita de horror Na Companhia do Medo (Gothika, Estados Unidos, 2003), em cartaz no país, ela surge como uma psiquiatra que, depois de sofrer uma possessão, é acusada de matar o marido e acaba internada no manicômio em que trabalha. Sua atuação consiste, na maior parte da ação, em dar aqueles gritos histéricos tão típicos do gênero, além de ser saco de pancadas do fantasma que a atormenta. Com papéis assim, Halle parece ter se tornado a nova vítima de uma sina que atormenta as ganhadoras do Oscar. São comuns os casos de atrizes que recebem a estatueta e depois não conseguem se sustentar no primeiro time de Hollywood.

Há um perfil clássico de atriz sujeita a esse risco: em geral, ela é jovem, tem poucos trabalhos no currículo e arrebata a estatueta porque dá a sorte de fazer o filme certo na hora certa. Marisa Tomei é um exemplo do efeito deletério que um Oscar pode representar sob essas condições. Premiada em 1993, como coadjuvante pela comédia Meu Primo Vinny, ela se tornou de repente o centro das atenções da indústria – o tipo de situação em que qualquer passo em falso pode ser fatal. Catapultada a papéis de protagonista para os quais não estava preparada, Marisa acumulou fiasco após fiasco. Nem mesmo uma nova indicação, em 2002, pelo pouco notável drama Entre Quatro Paredes, mudou seu destino. A atriz Hilary Swank é outro exemplo. Desde 2000, quando levou a estatueta de melhor atriz por Meninos Não Choram, ela não representou mais nenhum papel de destaque. O mais que fez foram pontas de luxo, como em O Dom da Premonição. Laureada como coadjuvante em 2002, por Uma Mente Brilhante, a bela Jennifer Connelly também vem seguindo essa trilha. Ela até participou de uma produção de sucesso depois de ganhar o Oscar: foi coadjuvante de Hulk. Mas não se trata, é claro, do gênero de filme pelo qual uma atriz será lembrada na posteridade.

O fato de as atrizes serem mais suscetíveis a essa sina do que os atores é sintoma das dificuldades que as mulheres encontram para construir uma carreira em Hollywood, indústria ainda dominada pelos homens. Aos poucos, a situação vem mudando, mas ainda está sujeita a retrocessos. Uma pesquisa anual da Universidade Estadual de San Diego revela que, de 2001 para 2002, o número de mulheres atuando como diretoras, produtoras, roteiristas e em outras funções de bastidores caiu de 19% para 17% da força de trabalho. No caso das atrizes, há outro fator em jogo: a beleza. Ela conta no cinema, e para as mulheres ainda mais. Quando jovens, elas têm mais chances de brilhar – e, por tabela, ganhar um Oscar. À medida que amadurecem, a oferta de papéis interessantes diminui, o que limita as possibilidades de uma atriz que se destacou na juventude repetir seu êxito. "Não é segredo que, a partir de certa idade, as mulheres deixam de existir para Hollywood", declarou recentemente a atriz Kim Cattrall, do seriado Sex and the City. Halle Berry está distante, obviamente, da fila de desemprego – seu cachê está na casa dos 14 milhões de dólares por filme. Mas, por ser negra e já ter 37 anos, ela encontra limitações adicionais para conseguir papéis de destaque. Um maior cuidado no gerenciamento da carreira poderia evitar, apesar de tudo, que ela entrasse em pesadelos como Na Companhia do Medo.

 
 
 
 
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