Edição 1844 . 10 de março de 2004

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Saúde
Alternativo levado a sério

Fenômeno de vendas nos
Estados Unidos, ele ensina
como usar alimentos para
tratar doenças


Monica Weinberg

Os livros do médico americano Andrew Weil são um fenômeno de vendas nos Estados Unidos. Suas últimas três obras já venderam mais de 3 milhões de exemplares, e todos estão na lista dos mais procurados. Quando ele aparece em programas de TV, a audiência dispara. Sua página na internet, Pergunte ao Dr. Weil, registra mais de 1,2 milhão de visitas por semana, um fenômeno na rede. Seus CDs de músicas para meditação esgotam-se rapidamente quando chegam ao comércio. Ele recebe cerca de 500 cartas por dia e torrentes de e-mails. O que esse senhor barbudo, de 62 anos, tem a dizer? Em suas obras, enaltece as virtudes das ervas medicinais, defende os poderes curativos da meditação e acha que a hipnose pode ser útil no tratamento de muitas doenças. Com sólida formação médica tradicional, Weil conseguiu se diferenciar da enorme classe dos gurus que fazem fortuna prometendo maravilhas com o apelo a técnicas cuja eficiência a ciência não consegue provar. Como os gurus tradicionais, Weil ficou rico e foi capa das principais publicações americanas.

No último de seus livros, que ainda não tem data de lançamento no Brasil e cujo título pode ser traduzido por A Cozinha Saudável: Receitas para Melhorar o Corpo, a Vida e o Espírito, Weil defende a escolha criteriosa de alimentos para manter a saúde. Ele ensina que brócolis têm propriedades anticancerígenas e gengibre ajuda a tratar o aparelho digestivo. Para evitar doenças do coração, o médico recomenda comer alho e cogumelos com regularidade. Contra a osteoporose, sua indicação é aumentar a ingestão de gengibre e de alimentos ricos em ômega 3. Segundo ele, tais recomendações são baseadas em pesquisas científicas, algumas desenvolvidas por ele próprio. Além disso, não há contra-indicação. Formado em medicina pela Universidade Harvard e especializado em botânica, há mais de vinte anos ele vem se dedicando a separar o que existe de empulhação daquilo que realmente funciona no caldeirão da chamada medicina alternativa. Uma das máximas do médico é que vale a pena usar tudo que for possível na luta contra as doenças, desde que respeitadas algumas regras. "Se sofrer um acidente de carro, por favor não me levem para um especialista em ervas. Se tiver uma pneumonia, dêem-me um antibiótico", costuma dizer nos programas dos quais participa.

De modo geral, as reações às idéias de Weil são bastante moderadas entre os que defendem a medicina tradicional. O guru já ouviu de integrantes da Associação Médica Americana que seus livros contêm informações úteis para a vida saudável e escutou elogios de profissionais de renome, publicados na imprensa americana. Como todo guru, Weil tem lá suas receitas milagrosas difíceis de ser seguidas. Alguns exemplos: "evite as ondas eletromagnéticas da tela de seu computador, pois são nocivas" ou "passe uma semana sem ter acesso às notícias para reduzir o stress".

Um ponto forte da medicina alternativa de Weil é sua capacidade para manter o foco do noticiário sobre ele. Sua habilidade nesse campo vem de longe. Um amigo que dividiu um quarto com Weil durante os tempos de Harvard conta que tomou um susto quando viu nas mãos do colega uma estranha caixinha com carimbo oficial do governo americano. O conteúdo era maconha. Em 1968, quando a droga havia se popularizado entre os alunos de Harvard, Weil convenceu o diretor da escola de medicina a autorizar uma pesquisa sobre seus efeitos no corpo humano. Não só conseguiu a autorização como fez com que a universidade operasse em favor de seu pedido junto ao governo, de modo a obter a quantidade de amostras necessária para o trabalho. Suas pesquisas sobre os efeitos das drogas prosseguiram e serviram de material para três livros que publicou no início da carreira, todos polêmicos. Um deles foi ferozmente criticado numa sessão do Senado Federal como um objeto de estímulo ao consumo, posição que Weil nunca endossou. "Não digo que o consumo é certo ou errado, sou um pesquisador e vou atrás das informações científicas", diz. Depois de Harvard, o médico comprou um bilhete aéreo para a América Latina, onde se enfurnou na Floresta Amazônica e ficou por mais de três anos estudando as plantas tropicais.

Além de participar de talk-shows e conceder entrevistas e mais entrevistas, o médico desenvolve estudos na Universidade do Arizona, onde se tornou diretor de um centro de medicina integrativa, especialidade da qual ele se diz precursor. Ele atrai médicos para seu centro, que anualmente recebe visitantes de todas as partes dos Estados Unidos. Weil mora numa casa no meio do deserto, lugar que diz ter escolhido absolutamente por acaso, e não em obediência a alguma teoria metafísica, como costuma ser a regra nesses casos. Separado da mulher, com quem tem uma filha de 11 anos, ele passa muito tempo isolado em seu rancho, escrevendo livros e lendo sua correspondência. Quem o vê pessoalmente ou pela TV pode estranhar seu perfil. Weil é rechonchudo demais para quem prega uma vida saudável. Segundo ele, a explicação é que homens de sua idade com algum excesso de peso podem ser tão saudáveis quanto os magros. Atenção: essa afirmação não tem comprovação científica.

 
 
 
 
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