|
|
Esporte
Os carros seguem a fumaça
Veto à propaganda de cigarro faz a
Fórmula 1 trocar a Europa pela Ásia
Reuters
 |
Na
geografia da Fórmula 1, a Europa tem lugar de destaque. Berço
do esporte e da maioria das equipes, concentra 60% das provas. Esse
cenário está em mudança acelerada. Com a temporada
de 2004, que se inicia no domingo 7, começa a grande migração
das corridas para o Oriente. Em abril ocorrerá a primeira
corrida do mundo árabe, em Barein, país petrolífero
do Golfo Pérsico. Em setembro será a vez de a China
ter seu grande prêmio, na cidade de Xangai. No ano que vem,
a Turquia entra no circuito e, até o fim da década,
Índia e Coréia do Sul. Um dos motivos dessa revoada
asiática é a perseguição movida pelos
europeus à propaganda de cigarro. A União Européia
(UE) e a Federação Internacional de Automobilismo
(FIA) haviam combinado que esse tipo de publicidade seria eliminado
dos autódromos no fim de 2006. Recentemente, a UE decidiu
adiantar essa data para julho de 2005, o que irritou os dirigentes
da Fórmula 1. A proibição deixará as
corridas sem uma fonte de receita estimada em 350 milhões
de dólares. "A única forma de manter os contratos
é reduzir o número de provas nos países da
União Européia", diz Max Mosley, presidente da FIA.
Na Ásia, os governos são bem mais condescendentes
com o fumo. Na China, 70% da população masculina é
fumante e duas marcas de cigarro, a Marlboro e a Lucky Strike, disputam
o patrocínio do GP de Xangai. No Japão, 50% dos homens
fumam e a maior companhia de cigarros do país, a Japan Tobacco,
patrocinadora da equipe Renault, é estatal. O inglês
Bernie Ecclestone, dono da empresa que organiza o campeonato de
Fórmula 1, argumenta que sem o fumo equipes do porte da Ferrari
não teriam como sobreviver e perderiam sua vantagem diante
dos concorrentes. Segundo ele, a equipe recebe anualmente 150 milhões
de dólares para promover a marca Marlboro. "Sem esse dinheiro,
eles teriam de dizer adeus aos testes no túnel de vento e
abrir mão de uma de suas duas pistas de treino", diz Ecclestone.
"Com isso, a campeã do mundo ficaria reduzida aos mesmos
recursos tecnológicos de uma equipe pequena."
AFP
 |
| Autódromo
de Sakhir, em Barein: cobertura da arquibancada é inspirada
nas tendas beduínas |
Os
autódromos europeus, alguns com mais de cinqüenta anos,
exigem reformas milionárias, que os governos não estão
dispostos a bancar. No Oriente, países ansiosos por prestígio
internacional vêm oferecendo condições excepcionais
para a realização das corridas. Nos acordos firmados
com a companhia de Ecclestone, comprometem-se a oferecer circuitos
novos, infra-estrutura para hospedar equipes, pilotos e jornalistas
e custeio de todas as despesas. Com 600.000 habitantes e uma área
pouco maior que a do município de Porto Alegre, Barein investiu
300 milhões de dólares no novo autódromo de
Sakhir, cuja cobertura imita as tendas de beduínos do deserto.
O projeto é do alemão Hermann Tilke, arquiteto especializado
em projetos de pistas como a espetacular Sepang, inaugurada na Malásia
há cinco anos. Tilke também projetou o autódromo
de Xangai, uma obra de 300 milhões de dólares. As
arquibancadas e os camarotes acomodam 200.000 pessoas e a pista,
de 5,4 quilômetros de extensão, foi desenhada para
privilegiar os pontos de ultrapassagem, uma forma de dar mais emoção
à corrida.
A Fórmula 1 também está descontente com a semana
de trabalho de 35 horas para os mecânicos, em vigor na Europa.
O dono da equipe Jordan, Eddie Jordan, ameaçou mudar parte
de suas oficinas do autódromo de Silverstone, na Inglaterra,
para algum país do Oriente Médio. "De que adianta
investir 55 milhões de dólares num túnel de
vento e trabalhar nele apenas 35 horas por semana?", reclama Jordan.
O tradicionalíssimo circuito de Ímola, em San Marino,
provavelmente receberá sua última corrida neste ano.
"Em dez anos, a situação na Europa chegará
a um padrão de Terceiro Mundo. Não haverá a
menor chance de concorrer com países como China, Índia
e Coréia do Sul", diz Ecclestone.
|