Edição 1844 . 10 de março de 2004

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Esporte
Os carros seguem a fumaça

Veto à propaganda de cigarro faz a
Fórmula 1 trocar a Europa pela Ásia

 
Reuters


As corridas estão indo para países mais tolerantes com as propagandas de cigarro

Na geografia da Fórmula 1, a Europa tem lugar de destaque. Berço do esporte e da maioria das equipes, concentra 60% das provas. Esse cenário está em mudança acelerada. Com a temporada de 2004, que se inicia no domingo 7, começa a grande migração das corridas para o Oriente. Em abril ocorrerá a primeira corrida do mundo árabe, em Barein, país petrolífero do Golfo Pérsico. Em setembro será a vez de a China ter seu grande prêmio, na cidade de Xangai. No ano que vem, a Turquia entra no circuito e, até o fim da década, Índia e Coréia do Sul. Um dos motivos dessa revoada asiática é a perseguição movida pelos europeus à propaganda de cigarro. A União Européia (UE) e a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) haviam combinado que esse tipo de publicidade seria eliminado dos autódromos no fim de 2006. Recentemente, a UE decidiu adiantar essa data para julho de 2005, o que irritou os dirigentes da Fórmula 1. A proibição deixará as corridas sem uma fonte de receita estimada em 350 milhões de dólares. "A única forma de manter os contratos é reduzir o número de provas nos países da União Européia", diz Max Mosley, presidente da FIA.

Na Ásia, os governos são bem mais condescendentes com o fumo. Na China, 70% da população masculina é fumante e duas marcas de cigarro, a Marlboro e a Lucky Strike, disputam o patrocínio do GP de Xangai. No Japão, 50% dos homens fumam e a maior companhia de cigarros do país, a Japan Tobacco, patrocinadora da equipe Renault, é estatal. O inglês Bernie Ecclestone, dono da empresa que organiza o campeonato de Fórmula 1, argumenta que sem o fumo equipes do porte da Ferrari não teriam como sobreviver e perderiam sua vantagem diante dos concorrentes. Segundo ele, a equipe recebe anualmente 150 milhões de dólares para promover a marca Marlboro. "Sem esse dinheiro, eles teriam de dizer adeus aos testes no túnel de vento e abrir mão de uma de suas duas pistas de treino", diz Ecclestone. "Com isso, a campeã do mundo ficaria reduzida aos mesmos recursos tecnológicos de uma equipe pequena."

 
AFP
Autódromo de Sakhir, em Barein: cobertura da arquibancada é inspirada nas tendas beduínas

Os autódromos europeus, alguns com mais de cinqüenta anos, exigem reformas milionárias, que os governos não estão dispostos a bancar. No Oriente, países ansiosos por prestígio internacional vêm oferecendo condições excepcionais para a realização das corridas. Nos acordos firmados com a companhia de Ecclestone, comprometem-se a oferecer circuitos novos, infra-estrutura para hospedar equipes, pilotos e jornalistas e custeio de todas as despesas. Com 600.000 habitantes e uma área pouco maior que a do município de Porto Alegre, Barein investiu 300 milhões de dólares no novo autódromo de Sakhir, cuja cobertura imita as tendas de beduínos do deserto. O projeto é do alemão Hermann Tilke, arquiteto especializado em projetos de pistas como a espetacular Sepang, inaugurada na Malásia há cinco anos. Tilke também projetou o autódromo de Xangai, uma obra de 300 milhões de dólares. As arquibancadas e os camarotes acomodam 200.000 pessoas e a pista, de 5,4 quilômetros de extensão, foi desenhada para privilegiar os pontos de ultrapassagem, uma forma de dar mais emoção à corrida.

A Fórmula 1 também está descontente com a semana de trabalho de 35 horas para os mecânicos, em vigor na Europa. O dono da equipe Jordan, Eddie Jordan, ameaçou mudar parte de suas oficinas do autódromo de Silverstone, na Inglaterra, para algum país do Oriente Médio. "De que adianta investir 55 milhões de dólares num túnel de vento e trabalhar nele apenas 35 horas por semana?", reclama Jordan. O tradicionalíssimo circuito de Ímola, em San Marino, provavelmente receberá sua última corrida neste ano. "Em dez anos, a situação na Europa chegará a um padrão de Terceiro Mundo. Não haverá a menor chance de concorrer com países como China, Índia e Coréia do Sul", diz Ecclestone.

 
 
 
 
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