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Comportamento
Meninas
que beijam meninas
A cena se tornou comum.
Por
que elas fazem isso?
Por farra, curiosidade e
para provocar os meninos

Giuliana
Bergamo
Meninas
de 13 a 17 anos que andam de mãos dadas, dão um colinho
para lá de carinhoso à amiga e trocam selinhos (tradução:
bitocas). Tais cenas se tornaram comuns nas saídas de escola,
na praia e nas portas de discotecas. Em ambientes menos públicos,
algumas delas podem ir mais além e se beijar na boca
beijo de verdade. É natural que muitos pais se perguntem
o que, afinal de contas, está ocorrendo. A resposta é
simples: nada. Para a esmagadora maioria das meninas que beijam
meninas, essas atitudes não passam de curtição.
Uma enquete realizada pelo site da revista Capricho, uma
publicação destinada a mocinhas na faixa que vai dos
15 aos 17 anos, revela que 30% das garotas já beijaram outra
garota na boca. E quem beija, beija, principalmente, por farra e
curiosidade. Elas não se consideram bi nem homossexuais.
Não costumam fazer carinhos em alguém que acabaram
de conhecer. É amiga com amiga e raramente as duas fazem
mais do que beijar na boca. Carícias mais ousadas e namoro
ora, isso se faz é com meninos!
Aconteceu
pela primeira vez há pouco mais de uma semana, numa discoteca
de São Paulo. A estudante C.O., de 15 anos, estava no meio
da pista de dança, quando começou a trocar beijos
na boca com uma de suas amigas. "Eu sempre tive muita curiosidade
para saber como seria beijar outra garota", diz ela. Satisfeita
a curiosidade, bateu a dúvida: "Será que eu sou lésbica?".
A dúvida não durou mais do que uma música.
C.O. gostou da experiência, não descarta a possibilidade
de ela vir a se repetir, mas gosta mesmo é de meninos. "Não
sinto atração por meninas", afirma. É óbvio
que é difícil explicar isso aos pais. Uma pesquisa
feita por VEJA em seu site contou com a participação
de 2.800 pais de garotas adolescentes. Quase 60% deles declararam
que ficariam bastante preocupados se soubessem que suas princesinhas
andam beijando outras na boca. O grande receio é de que esse
tipo de conduta indique uma tendência homossexual.
O psicólogo Claudio Picazio, autor do livro Diferentes
Desejos Adolescentes Homo, Bi e Heterossexuais, explica
que há uma clara distinção entre homossexualidade
e atitude homossexual. O lesbianismo pressupõe um desejo
intenso de uma mulher por outra. Não é o caso dessas
meninas. O fenômeno que elas protagonizam é de cunho
mais social do que sexual. O que querem mostrar é que são
liberadas, não têm preconceitos e estão dispostas
a experimentar tudo. "O prazer delas é o prazer proporcionado
pela quebra de tabu, por um gesto transgressor e provocador", afirma
Picazio. Muitas não escondem que adoram provocar, sobretudo
os garotos. "É legal ver a cara de bobo dos meninos", diz
a estudante M.A., de 16 anos.
Há limites para a experimentação, é
claro. Os especialistas em adolescentes advertem que ela tem tudo
para ser traumática quando uma menina adere a esse tipo de
comportamento apenas para não ser isolada pelo grupo. Isso
significa, antes de mais nada, uma reserva baixa de auto-estima
e auto-estima baixa é sinal de imensos problemas no
futuro. Se não parecer "careta" for a motivação
principal, é provável que aflorem crises de arrependimento
e culpa, o que não é saudável para o pleno
desenvolvimento da sexualidade. Recentemente, T.M., de 15 anos,
decidiu que tinha de fazer como várias de suas amigas: ir
em frente e beijar uma delas. Mas só conseguiu depois de
entornar copos e mais copos de cerveja. "Estava tão bêbada
que mal consigo me lembrar do beijo", diz. A situação
deixou um travo amargo nela. Ao perceberem que sua filha está
nesse caminho de "maria-vai-com-as-outras", e não se está
falando apenas de bitocas em amiguinhas, os pais devem chamá-la
para uma conversa franca, sem cobranças ou juízos
de valor (o que é sempre difícil para um pai, reconheça-se,
por mais moderno que ele seja).
Para
que meninas beijassem meninas como farra ou provocação,
várias barreiras foram derrubadas. Houve a revolução
sexual na década de 60 e a luta contra a estigmatização
da homossexualidade, que teve início na mesma época,
intensificou-se nos anos 80 e, embora esteja longe de terminar,
já rendeu frutos vistosos. Hoje, graças a essa luta,
muitos modos e costumes adotados por heterossexuais convictos e
inabaláveis surgem no caldo do que passou a ser chamado de
cultura gay. Os homossexuais imprimem um tom marcadamente forte
na moda, na música pop e na decoração. Arrebentaram
a porta do armário para ganhar o mundo. O fato de o marketing
de cantoras como Madonna e Britney Spears ter incluído uma
bitoquinha durante um show só mostra como o preconceito vem
perdendo fôlego e como a cultura gay ultrapassou as fronteiras
do território em que nasceu. Outra prova disso, na mesma
área, foi o sucesso das cantoras russas Lena Katina e Yulia
Volkova. Com certeza, a dupla vendeu mais discos por causa dos carinhos
que emolduram suas coreografias do que pela qualidade de suas músicas.
Lena e Yulia têm um caso? Madonna e Britney são lésbicas?
É claro que não. Elas reafirmam a todo momento que
são apenas muito, muito amigas. Sem crise.
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