Edição 1844 . 10 de março de 2004

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Comportamento
Meninas que beijam meninas

A cena se tornou comum.
Por que elas fazem isso?
Por farra, curiosidade e
para provocar os meninos


Giuliana Bergamo

Meninas de 13 a 17 anos que andam de mãos dadas, dão um colinho para lá de carinhoso à amiga e trocam selinhos (tradução: bitocas). Tais cenas se tornaram comuns nas saídas de escola, na praia e nas portas de discotecas. Em ambientes menos públicos, algumas delas podem ir mais além e se beijar na boca – beijo de verdade. É natural que muitos pais se perguntem o que, afinal de contas, está ocorrendo. A resposta é simples: nada. Para a esmagadora maioria das meninas que beijam meninas, essas atitudes não passam de curtição. Uma enquete realizada pelo site da revista Capricho, uma publicação destinada a mocinhas na faixa que vai dos 15 aos 17 anos, revela que 30% das garotas já beijaram outra garota na boca. E quem beija, beija, principalmente, por farra e curiosidade. Elas não se consideram bi nem homossexuais. Não costumam fazer carinhos em alguém que acabaram de conhecer. É amiga com amiga e raramente as duas fazem mais do que beijar na boca. Carícias mais ousadas e namoro – ora, isso se faz é com meninos!

Aconteceu pela primeira vez há pouco mais de uma semana, numa discoteca de São Paulo. A estudante C.O., de 15 anos, estava no meio da pista de dança, quando começou a trocar beijos na boca com uma de suas amigas. "Eu sempre tive muita curiosidade para saber como seria beijar outra garota", diz ela. Satisfeita a curiosidade, bateu a dúvida: "Será que eu sou lésbica?". A dúvida não durou mais do que uma música. C.O. gostou da experiência, não descarta a possibilidade de ela vir a se repetir, mas gosta mesmo é de meninos. "Não sinto atração por meninas", afirma. É óbvio que é difícil explicar isso aos pais. Uma pesquisa feita por VEJA em seu site contou com a participação de 2.800 pais de garotas adolescentes. Quase 60% deles declararam que ficariam bastante preocupados se soubessem que suas princesinhas andam beijando outras na boca. O grande receio é de que esse tipo de conduta indique uma tendência homossexual.

O psicólogo Claudio Picazio, autor do livro Diferentes Desejos – Adolescentes Homo, Bi e Heterossexuais, explica que há uma clara distinção entre homossexualidade e atitude homossexual. O lesbianismo pressupõe um desejo intenso de uma mulher por outra. Não é o caso dessas meninas. O fenômeno que elas protagonizam é de cunho mais social do que sexual. O que querem mostrar é que são liberadas, não têm preconceitos e estão dispostas a experimentar tudo. "O prazer delas é o prazer proporcionado pela quebra de tabu, por um gesto transgressor e provocador", afirma Picazio. Muitas não escondem que adoram provocar, sobretudo os garotos. "É legal ver a cara de bobo dos meninos", diz a estudante M.A., de 16 anos.

Há limites para a experimentação, é claro. Os especialistas em adolescentes advertem que ela tem tudo para ser traumática quando uma menina adere a esse tipo de comportamento apenas para não ser isolada pelo grupo. Isso significa, antes de mais nada, uma reserva baixa de auto-estima – e auto-estima baixa é sinal de imensos problemas no futuro. Se não parecer "careta" for a motivação principal, é provável que aflorem crises de arrependimento e culpa, o que não é saudável para o pleno desenvolvimento da sexualidade. Recentemente, T.M., de 15 anos, decidiu que tinha de fazer como várias de suas amigas: ir em frente e beijar uma delas. Mas só conseguiu depois de entornar copos e mais copos de cerveja. "Estava tão bêbada que mal consigo me lembrar do beijo", diz. A situação deixou um travo amargo nela. Ao perceberem que sua filha está nesse caminho de "maria-vai-com-as-outras", e não se está falando apenas de bitocas em amiguinhas, os pais devem chamá-la para uma conversa franca, sem cobranças ou juízos de valor (o que é sempre difícil para um pai, reconheça-se, por mais moderno que ele seja).

Para que meninas beijassem meninas como farra ou provocação, várias barreiras foram derrubadas. Houve a revolução sexual na década de 60 e a luta contra a estigmatização da homossexualidade, que teve início na mesma época, intensificou-se nos anos 80 e, embora esteja longe de terminar, já rendeu frutos vistosos. Hoje, graças a essa luta, muitos modos e costumes adotados por heterossexuais convictos e inabaláveis surgem no caldo do que passou a ser chamado de cultura gay. Os homossexuais imprimem um tom marcadamente forte na moda, na música pop e na decoração. Arrebentaram a porta do armário para ganhar o mundo. O fato de o marketing de cantoras como Madonna e Britney Spears ter incluído uma bitoquinha durante um show só mostra como o preconceito vem perdendo fôlego e como a cultura gay ultrapassou as fronteiras do território em que nasceu. Outra prova disso, na mesma área, foi o sucesso das cantoras russas Lena Katina e Yulia Volkova. Com certeza, a dupla vendeu mais discos por causa dos carinhos que emolduram suas coreografias do que pela qualidade de suas músicas. Lena e Yulia têm um caso? Madonna e Britney são lésbicas? É claro que não. Elas reafirmam a todo momento que são apenas muito, muito amigas. Sem crise.

 
 
 
 
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