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Gastronomia
Um
golpe na bíblia
dos restaurantes
Ex-inspetor
do guia mais famoso
da França diz que a publicação é
malfeita e
virou refém dos chefs
que tornou célebres

Neide
Oliveira
Os
guias de gastronomia franceses têm tal poder que recentemente
se atribuiu o suicídio do mundialmente famoso chef Bernard
Loiseau ao fato de seu restaurante ter perdido 2 pontos na avaliação
do severo GaultMillau (pronuncia-se "gomiô"). Agora
o caldo entornou para o lado do mais famoso guia da França,
o Michelin, conhecido pelo sigilo total que cerca seus critérios
de avaliação. Um ex-inspetor de restaurantes, Pascal
Remy, anunciou a publicação de um livro relatando
supostos podres da respeitada edição para a qual trabalhou
por dezesseis anos. Remy, que por outros três anos foi avaliador
do concorrente GaultMillau, contou algumas dessas histórias
à revista do diário parisiense Le Figaro. A
denúncia mais indigesta é que algumas das casas três-estrelas,
a cotação máxima, há muito não
recebem a visita de um avaliador, tornando-se intocáveis
apenas pela fama dos mestres-cucas que as comandam. Fama, deve-se
lembrar, que o próprio guia ajudou a construir.
Segundo
Remy, o sistema de estrelas usado pelo guia é viciado. Quando
se trata dos grandes chefs franceses, quem decide dar ou tirar estrelas
são os diretores da publicação, e não
o inspetor que visitou as casas. Alain Ducasse, um dos chefs franceses
mais conhecidos no mundo, teria feito tanto estardalhaço
quando perdeu uma estrelinha que conseguiu forçar o Michelin
a devolvê-la, dois anos depois, sem que sua culinária
tivesse mudado substancialmente. Outra vaca sagrada, Paul Bocuse,
também não escapou da pimenta do ex-inspetor. "Eu
não podia sequer tocar no nome de Bocuse", diz Remy. "Tínhamos
a obrigação de fazer dele um monumento histórico."
Fotos J. L. Bulcão e Claudio Rossi
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| Os
consagrados chefs Paul Bocuse (à esq.) e Joël
Robuchon: as notas dos "intocáveis" no Michelin
não são dadas por quem os avalia, segundo o ex-inspetor
de restaurantes do guia Pascal Remy |
Na
edição 2004 do guia, lançada há duas
semanas na Europa, 27 casas foram agraciadas com três estrelas.
O restaurante de Bernard Loiseau, o Côte d'Or, manteve a cotação
máxima no Michelin, apesar da ausência de seu
criador. "Mais de um terço dos três-estrelas não
corresponde ao padrão verdadeiro dos restaurantes", afirma
Remy. Segundo o ex-funcionário, o Michelin tem apenas
cinco inspetores e cada um visita 200 restaurantes por ano. Como
o guia relaciona cerca de 10.000 estabelecimentos, conclui-se pela
impossibilidade de julgar todos anualmente uma providência
imprescindível, pois a qualidade de uma cozinha pode mudar
muito de um ano para outro. Remy diz, ainda, que as avaliações
são indevidamente influenciadas pelas 50.000 cartas que clientes
de restaurantes enviam anualmente à redação
do roteiro. Muitas delas, ele garante, são na verdade escritas
por donos de estabelecimentos interessados em queimar o assado e
o filme dos rivais. Outra falha da publicação seria
a falta de empenho na procura de novas boas mesas, às vezes
escondidas em pequeninos restaurantes no coração da
França.
As
revelações de Remy tornaram-se um prato cheio nos
Estados Unidos, por coincidir com o momento em que o país
acaba de suspender a importação de foie gras francês
ao que tudo indica porque a União Européia
vetou a compra de frangos e ovos americanos suspeitando de que a
gripe aviária chegou ao Texas. Acuada, a direção
do guia acabou obrigada a revelar alguns dos segredos de seu método
de trabalho. São 21 inspetores que trabalham regularmente
para a publicação, informou a porta-voz Fabienne de
Brebisson. "Os restaurantes com três estrelas foram visitados
pelo menos dez vezes", garantiu. O máximo que se sabia sobre
a elaboração do guia, até agora, é que
seus avaliadores freqüentam as casas anonimamente, pagam a
conta e vão embora. Por contrato, todos são proibidos
de revelar a identidade.
O
anonimato dos avaliadores é um dos pilares da publicação.
A Michelin, fabricante de pneus, edita guias desde 1900. Na época,
a empresa queria indicar aos pioneiros automobilistas onde encontrar
oficinas e pousadas nas então perigosas e incertas viagens
de carro. Era uma forma de estimular os motoristas a gastar pneus.
Os livrinhos de capa vermelha viraram um gigante do mercado editorial,
com tiragem anual de 550.000 exemplares, distribuídos em
97 países. Vendidos por 24 euros (cerca de 85 reais), não
têm páginas com anúncios publicitários,
para evitar qualquer ilação quanto à independência
das informações publicadas. Deram origem a uma variedade
de subprodutos, como mapas, guias exclusivamente gastronômicos
e outros específicos para cada região francesa e países
europeus. Na França, são tão rentáveis
para as livrarias quanto a série de Harry Potter. A mascote
da Michelin, um bonequinho branco feito de pneus chamado Bibendum,
é uma das marcas mais conhecidas do planeta.
A
reputação construída em um século agora
se vê ameaçada pela obra que Remy anuncia para abril.
"Se perdermos a confiança associada a nossa marca, nossas
vendas cairão 90%", reconheceu o diretor dos guias David
Brabis no mesmo jornal que divulgou as denúncias. O núcleo
diretor da publicação acusa o ex-inspetor de ter tentado
fazer chantagem quando ainda era funcionário, ameaçando
lançar o livro. Ele foi demitido por justa causa. Seus ex-patrões
alegam que ele mantinha um diário com detalhes de suas viagens,
o que violaria a cláusula de confidencialidade do contrato.
A briga trabalhista está nos tribunais. Remy afirma que seu
caderno não continha nenhuma revelação sobre
o funcionamento interno dos guias. E garante que não será
esse o caso do livro prometido para o mês que vem.
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