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Empresas
Um
novo sabor global
A
AmBev une-se à belga Interbrew e
forma a maior cervejaria do mundo

Lucila
Soares
Nasceu
na semana passada a maior cervejaria do mundo. A InterBev, nome
provisório, é fruto da união da brasileira
AmBev com a belga Interbrew. Terá atuação em
32 países de todos os continentes e produzirá 19,2
bilhões de litros de cerveja de mais de 200 marcas por ano
(veja
quadro), desbancando da liderança a poderosa
americana Anheuser-Busch, fabricante da Budweiser. O negócio,
avaliado em 11 bilhões de dólares, foi gestado ao
longo dos últimos cinco meses. Consiste numa intrincada engenharia
financeira que envolveu a transferência de parte das ações
da AmBev para as famílias controladoras da Interbrew, em
troca da cervejaria Labatt, a maior do Canadá, e de participação
no capital votante da InterBev. O resultado é o maior passo
já dado por uma corporação brasileira rumo
ao mercado global. Os grandes vitoriosos com a operação
são Marcel Herrmann Telles, Jorge Paulo Lemann e Carlos Alberto
Sicupira, um trio que começou a ganhar espaço no noticiário
econômico no fim da década de 80, quando se reuniu
no Banco Garantia, fundado por Lemann. Em 1993, formaram a GP Investimentos,
a maior gestora de recursos de terceiros do Brasil. Os três
são brilhantes executivos e estrategistas, mas essa é
apenas uma das características que têm em comum. Nenhum
deles gosta de aparecer ou de dar entrevista, mas não dissimulam
sua fortuna. Há três anos, Lemann comprou, em nome
da GP, um helicóptero EC-155, de 7,5 milhões de dólares,
considerado o Rolls-Royce dos ares. Outra semelhança é
a aversão a terno e gravata, que usam só quando é
inevitável e isso significa raras ocasiões.
Na inauguração de uma fábrica da Brahma no
Rio de Janeiro, Telles compareceu vestido tão informalmente
que o então governador Marcello Alencar não resistiu
ao comentário: "Ele mais parece um operário, um peão
de obra". Na quarta-feira, durante o anúncio da criação
da InterBev, em Bruxelas, Telles rendeu-se ao terno durante a cerimônia.
Mas posou para fotos vestindo camisa de malha sem gola.
Divulgação
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| Marcel
Telles com John Brock, da Interbrew: operação de 11 bilhões
de dólares |
Com
64 anos, Lemann é o mais velho dos três. Joga tênis
com o vigor e a técnica de quem, na juventude, chegou a ser
campeão brasileiro. Telles tem 54 anos. Sicupira, 55. A caça
submarina é o maior prazer da dupla nas horas de folga. Também
aqui, excelentes desempenhos e um recorde mundial para Sicupira.
A AmBev foi um investimento dos três separadamente da GP,
a partir da compra da Brahma, em 1989. A modernização
da gestão foi radical e o sonho de expansão global
sempre esteve presente. Conta-se que, no início dos anos
90, Telles se encontrou com um alto executivo da Anheuser-Busch,
que o sondou sobre o interesse em vender a Brahma. Resposta de Telles:
"Diga-me, você, por quanto venderia sua parte".
A
empresa criada com a decisiva participação do trio
na semana passada entra com muito mais força na disputa por
um mercado mundial estimado em 150 bilhões de litros de cerveja
por ano. A AmBev, que surgiu em 2000 pela fusão de Brahma
e Antarctica, finca sua bandeira no mercado americano e consolida
sua presença nas três Américas. A operação,
anunciada mundialmente na madrugada de quarta-feira, teve origem
pouco mais de catorze anos atrás, num encontro informal entre
Telles e Alexander van Damme, membro de uma das três mais
tradicionais famílias de cervejeiros belgas. A AmBev nem
existia Telles havia acabado de entrar para a direção
da Brahma , e a Interbrew era uma companhia recém-criada
a partir da fusão das centenárias cervejarias Artois
e Piedboeuf. A globalização ainda era um processo
incipiente, e no Brasil a instabilidade econômica tornava
praticamente impossível a qualquer empresa estrangeira investir
aqui. Ao longo dos anos, a AmBev passou a ser uma espécie
de jóia da coroa dos mercados emergentes, cobiçada
por grandes grupos internacionais inclusive a Anheuser-Busch.
Enquanto isso, a Interbrew passava a ocupar o terceiro lugar no
ranking mundial. O flerte entre as duas evoluiu para conversas mais
sérias, cercadas de sigilo, numa operação que
envolveu até monitoramento de telefones das duas companhias.
Por suas dimensões, o negócio não pôde,
porém, ser mantido em segredo. Informações
vazaram, o que obrigou a AmBev a fazer uma comunicação
oficial das negociações antes mesmo que as assinaturas
finais fossem colocadas nos documentos.
Curiosamente,
um dos contatos fundamentais para a atual associação
foi mais do que público. No Carnaval de 2003, Van Damme veio
ao Brasil, convidado pela AmBev, para assistir a uma apresentação
sobre a empresa. Divertiu-se incógnito no camarote da companhia
no Sambódromo, passou alguns dias em Angra dos Reis, na casa
de Jorge Paulo Lemann, e voltou para a Bélgica. Poucos meses
depois, os dois grupos decidiram partir para uma aliança
efetiva. Começou então uma fase de duras negociações,
que custou dezenas de reuniões que vararam madrugadas em
fusos horários diversos e aboliu fins de semana e feriados
para os principais articuladores. No último Natal eles estavam
em Londres, longe das famílias, debruçados sobre números
e várias alternativas de composição do negócio.
O
resultado, batizado de aliança global, ficou pronto em cima
da hora. "Até a madrugada da véspera do anúncio
oficial ainda havia detalhes a acertar", conta Carlos Brito, diretor-geral
da AmBev. A operação é das mais complexas,
mesmo em um contexto em que os modelos de associações,
fusões e incorporações se refinam a cada dia.
O negócio envolve uma transferência de controle do
capital votante que, por sua construção, não
pode ser considerada simplesmente a venda da AmBev, porque essa
levou a Labatt em troca. A principal motivação do
negócio, no entanto, é que, em um mundo onde uma calça
jeans comprada no Brasil pode ter etiqueta americana e ser fabricada
na China, as empresas têm duas opções. Ou se
lançam na competição mundial ou se contentam
com uma pequena fatia do mercado local. A segunda opção,
a médio prazo, significa fechar as portas. "A forma da operação,
se é compra ou outro tipo de negócio, importa relativamente
pouco. O relevante é que a base do acordo é sólida
e resultará numa economia de escala impressionante", diz
Xavier Garay, sócio da consultoria Globalpraxis, uma das
maiores da Europa, lembrando que a economia resultante da sinergia
entre as duas empresas é estimada em 260 milhões de
dólares.
"A
associação com a Interbrew reduz drasticamente o risco
Brasil da AmBev", comenta o analista Carlos Eduardo Ramos, da ARX
Capital Management. A AmBev, que já conseguia captar dinheiro
no exterior pagando taxas de risco menores que as impostas ao próprio
governo brasileiro, vai ter agora crédito ainda mais barato.
Caberá a Marcel Telles a presidência do grupo batizado
de comitê de convergência, que coordenará a primeira
fase da aliança. Nos próximos seis meses a InterBev
fará uma oferta pública para compra das ações
com direito a voto em poder dos acionistas minoritários da
AmBev uma exigência da legislação brasileira
nos casos em que há alienação de controle.
Esses certamente sairão ganhando, porque receberão
80% do que a Interbrew pagou pelas ações que adquiriu,
e esse preço foi alto.
Na
primeira etapa da operação, a InterBev trabalhará
mundialmente com três marcas: a brasileira Brahma, a belga
Stella Artois e a alemã Beck's. Em alguns países elas
serão fabricadas localmente, em outros serão importadas.
O consumidor brasileiro passará também a encontrar
mais facilmente a canadense Labatt, que agora está sob controle
da AmBev. A aliança global ainda pode facilitar os canais
de importação de algumas das duas centenas de marcas
da Interbrew e abrir caminho para o guaraná Antarctica no
mercado europeu. O horizonte é vasto. Apesar da onda de fusões
e aquisições registrada nos últimos anos, o
mercado de cerveja continua guardando algumas características
de sua origem local e familiar, uma pulverização que
remonta ao início da Idade Média. As dez maiores cervejarias
do mundo detêm, juntas, pouco mais de 50% da produção.
É sinal de que, nesse setor, o jogo global reserva ainda
muitas e fortes emoções.
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