Edição 1844 . 10 de março de 2004

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Empresas
Um novo sabor global

A AmBev une-se à belga Interbrew e
forma a maior cervejaria do mundo


Lucila Soares

Quem são as empresas envolvidas e o poder de fogo da união das duas
Questão de gosto

Nasceu na semana passada a maior cervejaria do mundo. A InterBev, nome provisório, é fruto da união da brasileira AmBev com a belga Interbrew. Terá atuação em 32 países de todos os continentes e produzirá 19,2 bilhões de litros de cerveja de mais de 200 marcas por ano (veja quadro), desbancando da liderança a poderosa americana Anheuser-Busch, fabricante da Budweiser. O negócio, avaliado em 11 bilhões de dólares, foi gestado ao longo dos últimos cinco meses. Consiste numa intrincada engenharia financeira que envolveu a transferência de parte das ações da AmBev para as famílias controladoras da Interbrew, em troca da cervejaria Labatt, a maior do Canadá, e de participação no capital votante da InterBev. O resultado é o maior passo já dado por uma corporação brasileira rumo ao mercado global. Os grandes vitoriosos com a operação são Marcel Herrmann Telles, Jorge Paulo Lemann e Carlos Alberto Sicupira, um trio que começou a ganhar espaço no noticiário econômico no fim da década de 80, quando se reuniu no Banco Garantia, fundado por Lemann. Em 1993, formaram a GP Investimentos, a maior gestora de recursos de terceiros do Brasil. Os três são brilhantes executivos e estrategistas, mas essa é apenas uma das características que têm em comum. Nenhum deles gosta de aparecer ou de dar entrevista, mas não dissimulam sua fortuna. Há três anos, Lemann comprou, em nome da GP, um helicóptero EC-155, de 7,5 milhões de dólares, considerado o Rolls-Royce dos ares. Outra semelhança é a aversão a terno e gravata, que usam só quando é inevitável – e isso significa raras ocasiões. Na inauguração de uma fábrica da Brahma no Rio de Janeiro, Telles compareceu vestido tão informalmente que o então governador Marcello Alencar não resistiu ao comentário: "Ele mais parece um operário, um peão de obra". Na quarta-feira, durante o anúncio da criação da InterBev, em Bruxelas, Telles rendeu-se ao terno durante a cerimônia. Mas posou para fotos vestindo camisa de malha sem gola.

 
Divulgação
Marcel Telles com John Brock, da Interbrew: operação de 11 bilhões de dólares

Com 64 anos, Lemann é o mais velho dos três. Joga tênis com o vigor e a técnica de quem, na juventude, chegou a ser campeão brasileiro. Telles tem 54 anos. Sicupira, 55. A caça submarina é o maior prazer da dupla nas horas de folga. Também aqui, excelentes desempenhos e um recorde mundial para Sicupira. A AmBev foi um investimento dos três separadamente da GP, a partir da compra da Brahma, em 1989. A modernização da gestão foi radical e o sonho de expansão global sempre esteve presente. Conta-se que, no início dos anos 90, Telles se encontrou com um alto executivo da Anheuser-Busch, que o sondou sobre o interesse em vender a Brahma. Resposta de Telles: "Diga-me, você, por quanto venderia sua parte".

A empresa criada com a decisiva participação do trio na semana passada entra com muito mais força na disputa por um mercado mundial estimado em 150 bilhões de litros de cerveja por ano. A AmBev, que surgiu em 2000 pela fusão de Brahma e Antarctica, finca sua bandeira no mercado americano e consolida sua presença nas três Américas. A operação, anunciada mundialmente na madrugada de quarta-feira, teve origem pouco mais de catorze anos atrás, num encontro informal entre Telles e Alexander van Damme, membro de uma das três mais tradicionais famílias de cervejeiros belgas. A AmBev nem existia – Telles havia acabado de entrar para a direção da Brahma –, e a Interbrew era uma companhia recém-criada a partir da fusão das centenárias cervejarias Artois e Piedboeuf. A globalização ainda era um processo incipiente, e no Brasil a instabilidade econômica tornava praticamente impossível a qualquer empresa estrangeira investir aqui. Ao longo dos anos, a AmBev passou a ser uma espécie de jóia da coroa dos mercados emergentes, cobiçada por grandes grupos internacionais – inclusive a Anheuser-Busch. Enquanto isso, a Interbrew passava a ocupar o terceiro lugar no ranking mundial. O flerte entre as duas evoluiu para conversas mais sérias, cercadas de sigilo, numa operação que envolveu até monitoramento de telefones das duas companhias. Por suas dimensões, o negócio não pôde, porém, ser mantido em segredo. Informações vazaram, o que obrigou a AmBev a fazer uma comunicação oficial das negociações antes mesmo que as assinaturas finais fossem colocadas nos documentos.

Curiosamente, um dos contatos fundamentais para a atual associação foi mais do que público. No Carnaval de 2003, Van Damme veio ao Brasil, convidado pela AmBev, para assistir a uma apresentação sobre a empresa. Divertiu-se incógnito no camarote da companhia no Sambódromo, passou alguns dias em Angra dos Reis, na casa de Jorge Paulo Lemann, e voltou para a Bélgica. Poucos meses depois, os dois grupos decidiram partir para uma aliança efetiva. Começou então uma fase de duras negociações, que custou dezenas de reuniões que vararam madrugadas em fusos horários diversos e aboliu fins de semana e feriados para os principais articuladores. No último Natal eles estavam em Londres, longe das famílias, debruçados sobre números e várias alternativas de composição do negócio.

O resultado, batizado de aliança global, ficou pronto em cima da hora. "Até a madrugada da véspera do anúncio oficial ainda havia detalhes a acertar", conta Carlos Brito, diretor-geral da AmBev. A operação é das mais complexas, mesmo em um contexto em que os modelos de associações, fusões e incorporações se refinam a cada dia. O negócio envolve uma transferência de controle do capital votante que, por sua construção, não pode ser considerada simplesmente a venda da AmBev, porque essa levou a Labatt em troca. A principal motivação do negócio, no entanto, é que, em um mundo onde uma calça jeans comprada no Brasil pode ter etiqueta americana e ser fabricada na China, as empresas têm duas opções. Ou se lançam na competição mundial ou se contentam com uma pequena fatia do mercado local. A segunda opção, a médio prazo, significa fechar as portas. "A forma da operação, se é compra ou outro tipo de negócio, importa relativamente pouco. O relevante é que a base do acordo é sólida e resultará numa economia de escala impressionante", diz Xavier Garay, sócio da consultoria Globalpraxis, uma das maiores da Europa, lembrando que a economia resultante da sinergia entre as duas empresas é estimada em 260 milhões de dólares.

"A associação com a Interbrew reduz drasticamente o risco Brasil da AmBev", comenta o analista Carlos Eduardo Ramos, da ARX Capital Management. A AmBev, que já conseguia captar dinheiro no exterior pagando taxas de risco menores que as impostas ao próprio governo brasileiro, vai ter agora crédito ainda mais barato. Caberá a Marcel Telles a presidência do grupo batizado de comitê de convergência, que coordenará a primeira fase da aliança. Nos próximos seis meses a InterBev fará uma oferta pública para compra das ações com direito a voto em poder dos acionistas minoritários da AmBev – uma exigência da legislação brasileira nos casos em que há alienação de controle. Esses certamente sairão ganhando, porque receberão 80% do que a Interbrew pagou pelas ações que adquiriu, e esse preço foi alto.

Na primeira etapa da operação, a InterBev trabalhará mundialmente com três marcas: a brasileira Brahma, a belga Stella Artois e a alemã Beck's. Em alguns países elas serão fabricadas localmente, em outros serão importadas. O consumidor brasileiro passará também a encontrar mais facilmente a canadense Labatt, que agora está sob controle da AmBev. A aliança global ainda pode facilitar os canais de importação de algumas das duas centenas de marcas da Interbrew e abrir caminho para o guaraná Antarctica no mercado europeu. O horizonte é vasto. Apesar da onda de fusões e aquisições registrada nos últimos anos, o mercado de cerveja continua guardando algumas características de sua origem local e familiar, uma pulverização que remonta ao início da Idade Média. As dez maiores cervejarias do mundo detêm, juntas, pouco mais de 50% da produção. É sinal de que, nesse setor, o jogo global reserva ainda muitas e fortes emoções.

 
 
 
 
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