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Espaço
Água
em Marte. O que
isso tem a ver com a vida?
Por
que a existência do
líquido leva a
supor
que possam ter existido
seres
vivos no
planeta vermelho

Helena
Fruet
Por
mais de um século, os astrônomos especularam se Marte
teria água. Na semana passada, uma pequena nave robótica
enviada pelos Estados Unidos, a Opportunity, transmitiu a resposta
em forma de fotos da superfície marciana: bolhas e ranhuras
microscópicas claramente visíveis em algumas pedras
demonstram que elas já estiveram submersas em água.
Se foi assim, é possível que tenha existido vida no
planeta vermelho. A suposição baseia-se num fato científico:
água líquida é a única substância
vital para a existência dos seres vivos na forma como os conhecemos.
A denominação pode parecer redundante, mas é
precisa. Pelo que se sabe, em estado gasoso ou sólido a substância
não serve para a vida. O processo bioquímico que gerou
a vida na Terra, há 3,5 bilhões de anos, só
poderia ter ocorrido num meio fluido. No líquido, as moléculas
se dissolvem e as reações químicas acontecem.
Como estão sempre em fluxo, os líquidos transportam
nutrientes e material genético de um lugar para outro, seja
dentro de uma célula, de um organismo, de um ecossistema
ou até de um planeta.
A
teoria mais aceita para o surgimento da vida é que a atmosfera
primitiva da Terra era formada por metano, amônia, nitrogênio,
dióxido de carbono, hidrogênio e vapor d'água.
Submetidos a altas temperaturas, descargas elétricas e radiação
solar, esses gases acabaram gerando aminoácidos, substâncias
que com o calor do planeta deram origem às proteínas.
Levadas pelas chuvas para os oceanos terrestres, essas formas orgânicas
primordiais foram se juntando e formaram as primeiras células
capazes de se replicar. Não se tem informação
de que a vida possa surgir em outro meio. Há seres que vivem
sem luz no fundo dos oceanos ou no interior de outros organismos,
mas esses também precisam de água. Existem microrganismos,
os extremófilos, que sobrevivem em ambientes onde não
há sequer oxigênio. São encontrados em vulcões
submersos, lagos congelados da Antártica, rochas subterrâneas
submetidas a temperaturas superiores a 160 graus e até no
interior dos reatores nucleares. Mesmo esses microrganismos, em
algum momento, precisam de água em estado líquido
para sobreviver. "Os seres vivos são compostos de células,
e todas as células têm certa porcentagem de água",
explica a bioquímica Aline Maria da Silva, do Instituto de
Química da Universidade de São Paulo. "Sem água,
seria impossível a duplicação do material genético
celular, o DNA, pois as enzimas que fazem essa duplicação
só a realizam na presença de água."
Por
mais que a fórmula química da água pareça
simples (H2O), a reação que junta os dois
átomos de hidrogênio a um átomo de oxigênio
é extremamente complexa. Ou seja, é muito difícil
"produzir" água. Na atmosfera há oxigênio em
abundância, mas não há hidrogênio puro.
Além disso, as duas moléculas não reagem com
facilidade. Uma descarga enorme de energia, como a fornecida por
um raio, é necessária para disparar a reação.
A explicação para a abundância de água
na Terra está no fato de que existia muito hidrogênio
puro na atmosfera terrestre quando ela começou a se formar.
As descargas elétricas atmosféricas também
eram mais freqüentes naquele período do que são
hoje. "A confirmação de que houve água em forma
líquida em Marte significa também que um dia a atmosfera
do planeta foi mais espessa, portanto havia um efeito estufa e o
planeta era mais quente, condições muito favoráveis
à vida", diz Amâncio Friaça, astrônomo
do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas
da USP.
Cientistas
especulam se algum microrganismo poderia sobreviver sem água
em outros meios líquidos, como amônia, metano e hidrocarbonos.
Essas substâncias formam vastos oceanos em outros corpos celestes
do sistema solar, como a lua Titã, de Saturno, que poderiam
abrigar vida. São apenas teorias. Nenhuma forma de vida que
conhecemos é compatível com as condições
de pressão e temperatura desses outros líquidos. O
metano só é líquido entre as temperaturas de
menos 162 graus e menos 182 graus, uma amplitude de apenas 20 graus.
Já a água em estado líquido tem uma variação
muito maior de temperatura, acima de 0 e abaixo de 100 graus, bem
mais aprazível para a vida. É isso, por sinal, que
permite que o planeta esfrie e aqueça sem ficar todo congelado.
A
água é a substância mais abundante no corpo
humano e corresponde a aproximadamente 70% da composição
de um homem adulto. É o componente essencial de todos os
tecidos do organismo e desempenha papel fundamental em quase todas
as funções do corpo. É utilizada para a digestão,
a absorção e o transporte dos nutrientes. Serve de
solvente para os resíduos do corpo e também os dilui
para reduzir a toxicidade. Ajuda ainda a manter a temperatura corporal
e, sob a forma de líquido amniótico, protege o feto
em gestação. Apesar de a água não conter
nenhuma caloria ou outros nutrientes, sem ela o corpo humano só
continuaria funcionando por poucos dias. A perda de 20% de água
corpórea pode levar à morte, e uma perda de apenas
10% causa distúrbios graves. Em temperaturas moderadas, os
adultos podem viver por aproximadamente dez dias sem o líquido.
Crianças dificilmente agüentariam a metade desse tempo.
Já sem alimento uma pessoa saudável pode sobreviver
durante várias semanas. O mesmo acontece com praticamente
todos os seres vivos. A Nasa prepara uma nova missão, prevista
para 2013, com uma nave capaz de trazer amostras de rochas para
a Terra e talvez esclarecer se a água de Marte produziu vida.
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