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Iraque
Os
xiitas são a chave da paz
Sinônimo
de fanatismo, os aiatolás
se revelam moderados no Iraque
Fotos AFP
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Funeral
de xiitas
mortos: matança entre muçulmanos
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Desde
a década de 70, quando tomaram o poder e impuseram ao Irã
uma teocracia de contornos medievais, os muçulmanos xiitas
são sinônimo de fanatismo. Para a maioria das pessoas,
esse ramo minoritário do islamismo está irremediavelmente
associado às carnificinas cometidas por terroristas suicidas.
Um temor dos americanos ao depor Saddam Hussein, no ano passado,
era que os aiatolás aproveitassem a confusão para
tentar instalar uma versão iraquiana do regime islâmico
do vizinho Irã. Onze meses depois, as previsões sombrias
não se concretizaram. Ao contrário, organizados e
pragmáticos, os xiitas, que representam 60% da população,
converteram-se num fator de estabilidade no país sacudido
pelo terrorismo. Eles possuem treze dos 25 postos do governo provisório
instalado pelas tropas de ocupação e participam ativamente
do processo de transição. O principal líder
espiritual xiita, o grão-aiatolá Ali Sistani, descarta
a criação de um regime teocrático. O que ele
exige não é um suposto mandato de Alá, e sim
algo que para os Estados Unidos é difícil negar: eleições
diretas. Num exemplo de moderação, até pediu
aos seguidores que não hostilizem as tropas americanas.
Os
Estados Unidos tiveram bons motivos para suspeitar dos xiitas. Na
década de 80, eles fizeram americanos de reféns no
Irã e explodiram fuzileiros navais em Beirute. Só
depois dos atentados de 11 de setembro Washington percebeu que tinha
confiado demais nos sauditas e em outros fundamentalistas sunitas.
Foram eles, e não os xiitas, que geraram a Al Qaeda e puseram
abaixo o World Trade Center. Longe de serem os terroristas, os xiitas
são agora as vítimas da intolerância de outros.
Na semana passada, uma combinação simultânea
de homens-bomba e outros dispositivos explosivos matou mais de 200
xiitas durante um festival religioso em duas cidades iraquianas,
Bagdá e Karbala. Que tipo de gente se aproveitaria de uma
manifestação de fé para cometer um massacre
dessas dimensões? É possível entender que a
ocupação de um país por tropas estrangeiras
cause rancor e alimente a resistência armada. O que se vê
no Iraque é diferente. Uma investida de muçulmanos
contra muçulmanos.
Os
suspeitos óbvios são os extremistas islâmicos
inspirados em Osama bin Laden, o terrorista-mor da Al Qaeda. Numa
carta endereçada a essa organização, que foi
interceptada pelos órgãos de segurança, um
figurão do terrorismo fala do perigo de que a maioria xiita
do Iraque venha a ver a democracia como uma boa forma de ganhar
o controle do país. Impressiona como os líderes xiitas
mantiveram a frieza apesar dos massacres. Se tentassem fazer alguma
retaliação contra os sunitas, provavelmente haveria
uma guerra civil. O Iraque é um colcha de retalhos étnica
e religiosa. Os curdos, muçulmanos mas não árabes,
representam 15% da população e vivem basicamente num
enclave no norte. Os sunitas são 20% e governaram o Iraque
até a queda de Saddam Hussein. O ramo majoritário
do Islã é o sunita, com 1 bilhão de fiéis.
Uma dissidência surgida na disputa pela sucessão de
Maomé, no século VII, os xiitas somam apenas 10% do
rebanho de Alá e são vistos como hereges pela maioria.
Apesar de estarem presentes por todo o mundo muçulmano, só
são maioria no Irã e no Iraque.
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Pôster
do aiatolá Sistani em manifestação xiita:
separação de mesquita e Estado
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A
escola de pensamento majoritária do xiismo, que o grão-aiatolá
Sistani representa, prega a separação entre a mesquita
e o Estado. Entre os sunitas, tal idéia soa como blasfêmia.
Para Sistani, os contatos de clérigos com o governo devem
se limitar à discussão de temas como o ensino do Corão
nas escolas e a construção de mesquitas. A convivência
pacífica entre a maioria xiita e as tropas estrangeiras repousa
em bases frágeis: a vontade de Sistani. Aos 73 anos e com
a saúde fragilizada, o aiatolá não põe
o pé para fora de casa, na cidade de Najaf. Ele raramente
faz pronunciamentos públicos ou recebe estrangeiros. Até
hoje não falou diretamente com os americanos. Durante a ditadura
de Saddam, ele também se recusou a negociar com representantes
do regime e passou quase todo o tempo em prisão domiciliar.
Mesmo assim, exerce papel decisivo neste período de transição.
Seu
maior teste ocorreu após a explosão de um carro-bomba
em Najaf, em agosto, que matou oitenta pessoas e gerou uma onda
de ódio contra as tropas americanas, semelhante ao que aconteceu
na semana passada. Entre os mortos estava o aiatolá Mohammed
Bakir Al-Hakim, líder do Conselho Supremo para a Revolução
Islâmica no Iraque, a maior organização política
dos xiitas. Coube a Sistani pedir calma à população
e pacientemente reconstruir o caminho do diálogo com os americanos.
Ao perceber as manobras da Casa Branca para adiar o processo de
transição, há um mês, Sistani mostrou
firmeza e exigiu a convocação de eleições
diretas até o fim do ano. Por enquanto, o líder religioso
conseguiu tudo o que queria da Casa Branca. Horas antes dos atentados
da semana passada, as autoridades americanas anunciaram a conclusão
do texto de uma Constituição provisória para
o Iraque. Ela foi acertada entre representantes dos três grupos
majoritários xiitas, sunitas e curdos e garante
liberdade de expressão e religiosa, além de um quarto
de representação parlamentar para as mulheres. O documento
era para ter sido assinado na última sexta-feira, mas os
xiitas decidiram adiar a decisão. O próximo lance
está nas mãos dos aiatolás.
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