Edição 1844 . 10 de março de 2004

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Iraque
Os xiitas são a chave da paz

Sinônimo de fanatismo, os aiatolás
se revelam moderados no Iraque

 
Fotos AFP

Funeral de xiitas mortos: matança entre muçulmanos


Notícias diárias sobre o Iraque

Desde a década de 70, quando tomaram o poder e impuseram ao Irã uma teocracia de contornos medievais, os muçulmanos xiitas são sinônimo de fanatismo. Para a maioria das pessoas, esse ramo minoritário do islamismo está irremediavelmente associado às carnificinas cometidas por terroristas suicidas. Um temor dos americanos ao depor Saddam Hussein, no ano passado, era que os aiatolás aproveitassem a confusão para tentar instalar uma versão iraquiana do regime islâmico do vizinho Irã. Onze meses depois, as previsões sombrias não se concretizaram. Ao contrário, organizados e pragmáticos, os xiitas, que representam 60% da população, converteram-se num fator de estabilidade no país sacudido pelo terrorismo. Eles possuem treze dos 25 postos do governo provisório instalado pelas tropas de ocupação e participam ativamente do processo de transição. O principal líder espiritual xiita, o grão-aiatolá Ali Sistani, descarta a criação de um regime teocrático. O que ele exige não é um suposto mandato de Alá, e sim algo que para os Estados Unidos é difícil negar: eleições diretas. Num exemplo de moderação, até pediu aos seguidores que não hostilizem as tropas americanas.

Os Estados Unidos tiveram bons motivos para suspeitar dos xiitas. Na década de 80, eles fizeram americanos de reféns no Irã e explodiram fuzileiros navais em Beirute. Só depois dos atentados de 11 de setembro Washington percebeu que tinha confiado demais nos sauditas e em outros fundamentalistas sunitas. Foram eles, e não os xiitas, que geraram a Al Qaeda e puseram abaixo o World Trade Center. Longe de serem os terroristas, os xiitas são agora as vítimas da intolerância de outros. Na semana passada, uma combinação simultânea de homens-bomba e outros dispositivos explosivos matou mais de 200 xiitas durante um festival religioso em duas cidades iraquianas, Bagdá e Karbala. Que tipo de gente se aproveitaria de uma manifestação de fé para cometer um massacre dessas dimensões? É possível entender que a ocupação de um país por tropas estrangeiras cause rancor e alimente a resistência armada. O que se vê no Iraque é diferente. Uma investida de muçulmanos contra muçulmanos.

Os suspeitos óbvios são os extremistas islâmicos inspirados em Osama bin Laden, o terrorista-mor da Al Qaeda. Numa carta endereçada a essa organização, que foi interceptada pelos órgãos de segurança, um figurão do terrorismo fala do perigo de que a maioria xiita do Iraque venha a ver a democracia como uma boa forma de ganhar o controle do país. Impressiona como os líderes xiitas mantiveram a frieza apesar dos massacres. Se tentassem fazer alguma retaliação contra os sunitas, provavelmente haveria uma guerra civil. O Iraque é um colcha de retalhos étnica e religiosa. Os curdos, muçulmanos mas não árabes, representam 15% da população e vivem basicamente num enclave no norte. Os sunitas são 20% e governaram o Iraque até a queda de Saddam Hussein. O ramo majoritário do Islã é o sunita, com 1 bilhão de fiéis. Uma dissidência surgida na disputa pela sucessão de Maomé, no século VII, os xiitas somam apenas 10% do rebanho de Alá e são vistos como hereges pela maioria. Apesar de estarem presentes por todo o mundo muçulmano, só são maioria no Irã e no Iraque.

Pôster do aiatolá Sistani em manifestação xiita: separação de mesquita e Estado

A escola de pensamento majoritária do xiismo, que o grão-aiatolá Sistani representa, prega a separação entre a mesquita e o Estado. Entre os sunitas, tal idéia soa como blasfêmia. Para Sistani, os contatos de clérigos com o governo devem se limitar à discussão de temas como o ensino do Corão nas escolas e a construção de mesquitas. A convivência pacífica entre a maioria xiita e as tropas estrangeiras repousa em bases frágeis: a vontade de Sistani. Aos 73 anos e com a saúde fragilizada, o aiatolá não põe o pé para fora de casa, na cidade de Najaf. Ele raramente faz pronunciamentos públicos ou recebe estrangeiros. Até hoje não falou diretamente com os americanos. Durante a ditadura de Saddam, ele também se recusou a negociar com representantes do regime e passou quase todo o tempo em prisão domiciliar. Mesmo assim, exerce papel decisivo neste período de transição.

Seu maior teste ocorreu após a explosão de um carro-bomba em Najaf, em agosto, que matou oitenta pessoas e gerou uma onda de ódio contra as tropas americanas, semelhante ao que aconteceu na semana passada. Entre os mortos estava o aiatolá Mohammed Bakir Al-Hakim, líder do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, a maior organização política dos xiitas. Coube a Sistani pedir calma à população e pacientemente reconstruir o caminho do diálogo com os americanos. Ao perceber as manobras da Casa Branca para adiar o processo de transição, há um mês, Sistani mostrou firmeza e exigiu a convocação de eleições diretas até o fim do ano. Por enquanto, o líder religioso conseguiu tudo o que queria da Casa Branca. Horas antes dos atentados da semana passada, as autoridades americanas anunciaram a conclusão do texto de uma Constituição provisória para o Iraque. Ela foi acertada entre representantes dos três grupos majoritários – xiitas, sunitas e curdos – e garante liberdade de expressão e religiosa, além de um quarto de representação parlamentar para as mulheres. O documento era para ter sido assinado na última sexta-feira, mas os xiitas decidiram adiar a decisão. O próximo lance está nas mãos dos aiatolás.

 
 
 
 
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