Edição 1844 . 10 de março de 2004

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Estados Unidos
É ele o anti-Bush

O senador John Kerry vence as prévias do
Partido Democrata e mostra força para o
duelo nas urnas com o presidente americano

 
Reuters
Kerry: promessa de só usar o porrete com o apoio da ONU e dos países aliados

Perguntas e Respostas: Eleições nos EUA

Ele é o homem pelo qual o mundo esperava: John Forbes Kerry, o anti-Bush. Na terça-feira passada, o Partido Democrata sacramentou sua candidatura à Presidência dos Estados Unidos. A tradição política que Kerry representa em seu país, sua sofisticação pessoal e a promessa de recolocar a política externa da superpotência nos trilhos do multilateralismo sinalizam colossal mudança em relação ao governo de George W. Bush. Essa configuração explica por que a candidatura do senador de Massachusetts tem a simpatia dos países da Europa – aliados que o atual presidente tratou com maus modos – e também da diplomacia brasileira. O tamanho da torcida internacional dá a dimensão da impopularidade de Bush no exterior. Dentro dos Estados Unidos, por enquanto, as pesquisas indicam equilíbrio nas intenções de voto. Faltando oito meses para as eleições, essa será a campanha mais longa da história americana. Será também, ninguém espera outra coisa, tremendamente suja e impiedosa.

O candidato democrata já deu mostras do que é capaz. Seu primeiro trunfo foi ter liquidado de forma rápida e rasteira a disputa interna com os outros nove pretendentes e emergir das convenções como um candidato consistente, capaz de unir o partido em torno de seu nome – feito que nem o mais otimista dos democratas poderia imaginar há três meses. Ao sair praticamente ileso dessa fase inicial, ele evitou o desgaste político e financeiro de prolongar a briga com outro democrata antes da disputa com o presidente. Uma piada de campanha diz que, contrariando sua fama de causador de cizânias, Bush concorre desta vez como um unificador, pois teve sucesso em unir os democratas. Kerry pode bater Bush? A resposta honesta é que se trata da melhor escolha possível aos democratas. Aos 60 anos, dezenove deles como senador, ele encarna aquilo que os marqueteiros e políticos americanos estão chamando de "electability" (elegibilidade). Isso significa que, devido a seu currículo e moderação ideológica – ele é um liberal da Nova Inglaterra ao estilo do clã Kennedy, que lhe dá total apoio –, tem chances de atrair apoio dos eleitores independentes e dos republicanos insatisfeitos com Bush.

AP
Bush: economia lenta ameaça reeleição


Nas pesquisas sobre preferência partidária, os democratas batem os republicanos por 3 ou 4 pontos – ou seja, há empate estatístico. O momento, contudo, é de fraqueza para o presidente. A maré da opinião pública começou a virar contra ele depois que ficou evidente que o Iraque não tinha armas de destruição em massa, o motivo alegado pela Casa Branca para depor Saddam Hussein. A campanha contra o terrorismo também não garantiu a segurança dos americanos. Osama bin Laden e seus assassinos continuam à solta e os Estados Unidos vivem em estado de alerta à espera de novos atentados. Por outro lado, até as hostes conservadoras estão incomodadas com o aumento do déficit público (Bush recebeu o caixa zerado e hoje o buraco é de 500 bilhões de dólares) e com a lentíssima recuperação da economia – se é que existe um processo de recuperação, pois não há consenso nesse ponto. Desde a posse de Bush, em 2001, sumiram 2,8 milhões de postos de trabalho no país.

Kerry não teme bater de frente com Bush nas áreas de assuntos militares e de política externa, que o atual presidente considera os pontos fortes de seu governo. Nesse aspecto, ele é perfeito como contraponto. Herói no Vietnã, voltou desiludido e militou contra a guerra. Já seu adversário se alistou na Guarda Nacional para escapar do campo de batalha no Sudeste Asiático, como fizeram outros filhos de ricaços. No Senado, o democrata ocupou-se bastante de assuntos de defesa e de relações exteriores. Diferentemente do presidente, que aparenta não conhecer seus aliados na Europa nem se preocupar com eles, Kerry estudou numa escola suíça quando seu pai era diplomata em Berlim. Fala com fluência alemão e francês e é nessa língua que muitas vezes conversa com a mulher, Teresa, nascida na colônia portuguesa de Moçambique. Dona de uma fortuna pessoal de meio bilhão de dólares e bem conhecida pela atividade filantrópica, ela é uma candidata a primeira-dama bem mais interessante que a insossa Laura Bush.

O desafio é fazer isso funcionar no palanque. Como orador, Kerry é mais conhecido pelas frases empoladas. Ele precisa provar aos eleitores que tem as credenciais que faltam ao presidente para proteger os americanos do terrorismo e do desemprego. Se eleito, promete rever os pontos mais controversos da política externa atual. Vai privilegiar as relações dos Estados Unidos com os países aliados e não se meter em aventuras militares sem o aval das Nações Unidas. Planeja reabrir as negociações sobre o Protocolo de Kioto acerca da poluição global, rejeitado por Bush. Também vai propor conversações bilaterais com a Coréia do Norte e o Irã, combater a proliferação de armas nucleares e ajudar financeiramente países falidos. Por mais que pareça, não se trata da ascensão de um pacifista. O projeto de Kerry é estabelecer um balanço entre o multilateralismo e o uso do porrete nas questões internacionais. Seria uma volta à estratégia americana que deu certo durante a Guerra Fria. Quanto ao Iraque, ele diz que o pior erro de Bush foi não se preparar para o pós-Saddam. E que em seu governo as tropas vão continuar por lá pelo tempo que for necessário.

De qualquer forma, a política externa não será o coração da campanha. Kerry sabe que o que preocupa os americanos é a migração dos empregos para o exterior e o passo lento da economia. Ele promete restaurar antes do segundo ano de seu mandato os quase 3 milhões de empregos perdidos na era Bush. Faria isso com um ataque em duas frentes. A primeira consistiria de um pacote de 50 bilhões de dólares para aquecer a produção industrial. A segunda seria punir com a perda de subsídios as empresas que transferem seus empregos para o exterior. O dinheiro para o investimento sairia da anulação da lei de Bush que cortou impostos dos mais ricos. Por tradição, os presidentes democratas se mostraram mais protecionistas no comércio internacional que os republicanos, por causa das relações estreitas que mantêm com os sindicatos. Nesse aspecto, a eleição de Kerry dificilmente reduzirá as linhas de tensão entre os Estados Unidos e o Brasil no principal foco de divergência entre os dois países, que é a política comercial. Durante comícios no sul do país, região mais afetada pela sangria de empregos, Kerry denunciou os acordos de liberação comercial como formas de destruição do emprego. Ele prometeu revisar todos os tratados nos primeiros 120 dias de seu governo e defender o interesse dos trabalhadores americanos.

Na mira do democrata estão o Nafta, o acordo de livre-comércio com o Canadá e o México, e também as negociações para a formação da Alca, a Área de Livre Comércio das Américas. O candidato democrata diz que vai exigir que o acordo contenha garantias de respeito aos direitos trabalhistas e ao meio ambiente. São, por sinal, dois itens que o Brasil já rejeitou nas negociações. Nesse tema, prever o que vai acontecer após as eleições ainda não passa de futurologia. "Na campanha, todos se dizem protecionistas, é um discurso fácil de ser vendido", disse a VEJA o economista brasileiro José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade Princeton, nos Estados Unidos. Bill Clinton tinha um discurso protecionista na campanha de 1992 que acabou engavetado durante os oito anos em que ele esteve na Casa Branca. O que vai definir a eleição será o ritmo da economia. Se confirmar o aquecimento, Bush é o favorito. Num quadro de recessão, Kerry pode sair vencedor. Como vai governar é assunto para depois da eleição.

 

A cabeça do senador

Kerry pode vencer Bush?
As pesquisas apontam equilíbrio, mas o democrata pode ser favorecido pela desaceleração da economia e pelo aumento do desemprego

Se vencer, o que muda na estratégia de combate ao terrorismo?
Pretende investir na colaboração com serviços secretos de outros países. Intervenção militar, só com apoio internacional

O que ele faria no Iraque?
O candidato garante que as tropas americanas não vão abandonar o país de forma precipitada

A vitória de Kerry pode diminuir o antiamericanismo no mundo?
Sim. Ele acena com uma política externa multilateral, com estímulo à diplomacia para resolver conflitos regionais. Ao contrário de Bush, Kerry é popular na Europa

Kerry vai aumentar o protecionismo americano aos produtos brasileiros?
Vai depender do desempenho da economia. Ele promete rever acordos comerciais para evitar a concorrência desleal e aumentar a proteção aos trabalhadores e ao meio ambiente nos países exportadores. Isso vale também para as negociações para a formação da Alca, zona de livre comércio das Américas

O que vai fazer para estimular a economia?
Baixar um pacote de 50 bilhões de dólares para aquecer a produção industrial. Pretende anular a lei de Bush que cortou impostos dos mais ricos e usar o dinheiro para financiar obras públicas que gerem empregos

 

 
 
 
 
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