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Estados
Unidos
É
ele o anti-Bush
O
senador John Kerry vence as prévias do
Partido Democrata e mostra força para o
duelo nas urnas com o presidente americano
Reuters
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| Kerry:
promessa de só usar o porrete com o apoio da ONU e dos
países aliados |
Ele
é o homem pelo qual o mundo esperava: John Forbes Kerry,
o anti-Bush. Na terça-feira passada, o Partido Democrata
sacramentou sua candidatura à Presidência dos Estados
Unidos. A tradição política que Kerry representa
em seu país, sua sofisticação pessoal e a promessa
de recolocar a política externa da superpotência nos
trilhos do multilateralismo sinalizam colossal mudança em
relação ao governo de George W. Bush. Essa configuração
explica por que a candidatura do senador de Massachusetts tem a
simpatia dos países da Europa aliados que o atual
presidente tratou com maus modos e também da diplomacia
brasileira. O tamanho da torcida internacional dá a dimensão
da impopularidade de Bush no exterior. Dentro dos Estados Unidos,
por enquanto, as pesquisas indicam equilíbrio nas intenções
de voto. Faltando oito meses para as eleições, essa
será a campanha mais longa da história americana.
Será também, ninguém espera outra coisa, tremendamente
suja e impiedosa.
O
candidato democrata já deu mostras do que é capaz.
Seu primeiro trunfo foi ter liquidado de forma rápida e rasteira
a disputa interna com os outros nove pretendentes e emergir das
convenções como um candidato consistente, capaz de
unir o partido em torno de seu nome feito que nem o mais
otimista dos democratas poderia imaginar há três meses.
Ao sair praticamente ileso dessa fase inicial, ele evitou o desgaste
político e financeiro de prolongar a briga com outro democrata
antes da disputa com o presidente. Uma piada de campanha diz que,
contrariando sua fama de causador de cizânias, Bush concorre
desta vez como um unificador, pois teve sucesso em unir os democratas.
Kerry pode bater Bush? A resposta honesta é que se trata
da melhor escolha possível aos democratas. Aos 60 anos, dezenove
deles como senador, ele encarna aquilo que os marqueteiros e políticos
americanos estão chamando de "electability" (elegibilidade).
Isso significa que, devido a seu currículo e moderação
ideológica ele é um liberal da Nova Inglaterra
ao estilo do clã Kennedy, que lhe dá total apoio ,
tem chances de atrair apoio dos eleitores independentes e dos republicanos
insatisfeitos com Bush.
AP
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| Bush:
economia lenta ameaça reeleição |
Nas pesquisas sobre preferência partidária, os democratas
batem os republicanos por 3 ou 4 pontos ou seja, há
empate estatístico. O momento, contudo, é de fraqueza
para o presidente. A maré da opinião pública
começou a virar contra ele depois que ficou evidente que
o Iraque não tinha armas de destruição em massa,
o motivo alegado pela Casa Branca para depor Saddam Hussein. A campanha
contra o terrorismo também não garantiu a segurança
dos americanos. Osama bin Laden e seus assassinos continuam à
solta e os Estados Unidos vivem em estado de alerta à espera
de novos atentados. Por outro lado, até as hostes conservadoras
estão incomodadas com o aumento do déficit público
(Bush recebeu o caixa zerado e hoje o buraco é de 500 bilhões
de dólares) e com a lentíssima recuperação
da economia se é que existe um processo de recuperação,
pois não há consenso nesse ponto. Desde a posse de
Bush, em 2001, sumiram 2,8 milhões de postos de trabalho
no país.
Kerry
não teme bater de frente com Bush nas áreas de assuntos
militares e de política externa, que o atual presidente considera
os pontos fortes de seu governo. Nesse aspecto, ele é perfeito
como contraponto. Herói no Vietnã, voltou desiludido
e militou contra a guerra. Já seu adversário se alistou
na Guarda Nacional para escapar do campo de batalha no Sudeste Asiático,
como fizeram outros filhos de ricaços. No Senado, o democrata
ocupou-se bastante de assuntos de defesa e de relações
exteriores. Diferentemente do presidente, que aparenta não
conhecer seus aliados na Europa nem se preocupar com eles, Kerry
estudou numa escola suíça quando seu pai era diplomata
em Berlim. Fala com fluência alemão e francês
e é nessa língua que muitas vezes conversa com a mulher,
Teresa, nascida na colônia portuguesa de Moçambique.
Dona de uma fortuna pessoal de meio bilhão de dólares
e bem conhecida pela atividade filantrópica, ela é
uma candidata a primeira-dama bem mais interessante que a insossa
Laura Bush.
O
desafio é fazer isso funcionar no palanque. Como orador,
Kerry é mais conhecido pelas frases empoladas. Ele precisa
provar aos eleitores que tem as credenciais que faltam ao presidente
para proteger os americanos do terrorismo e do desemprego. Se eleito,
promete rever os pontos mais controversos da política externa
atual. Vai privilegiar as relações dos Estados Unidos
com os países aliados e não se meter em aventuras
militares sem o aval das Nações Unidas. Planeja reabrir
as negociações sobre o Protocolo de Kioto acerca da
poluição global, rejeitado por Bush. Também
vai propor conversações bilaterais com a Coréia
do Norte e o Irã, combater a proliferação de
armas nucleares e ajudar financeiramente países falidos.
Por mais que pareça, não se trata da ascensão
de um pacifista. O projeto de Kerry é estabelecer um balanço
entre o multilateralismo e o uso do porrete nas questões
internacionais. Seria uma volta à estratégia americana
que deu certo durante a Guerra Fria. Quanto ao Iraque, ele diz que
o pior erro de Bush foi não se preparar para o pós-Saddam.
E que em seu governo as tropas vão continuar por lá
pelo tempo que for necessário.
De
qualquer forma, a política externa não será
o coração da campanha. Kerry sabe que o que preocupa
os americanos é a migração dos empregos para
o exterior e o passo lento da economia. Ele promete restaurar antes
do segundo ano de seu mandato os quase 3 milhões de empregos
perdidos na era Bush. Faria isso com um ataque em duas frentes.
A primeira consistiria de um pacote de 50 bilhões de dólares
para aquecer a produção industrial. A segunda seria
punir com a perda de subsídios as empresas que transferem
seus empregos para o exterior. O dinheiro para o investimento sairia
da anulação da lei de Bush que cortou impostos dos
mais ricos. Por tradição, os presidentes democratas
se mostraram mais protecionistas no comércio internacional
que os republicanos, por causa das relações estreitas
que mantêm com os sindicatos. Nesse aspecto, a eleição
de Kerry dificilmente reduzirá as linhas de tensão
entre os Estados Unidos e o Brasil no principal foco de divergência
entre os dois países, que é a política comercial.
Durante comícios no sul do país, região mais
afetada pela sangria de empregos, Kerry denunciou os acordos de
liberação comercial como formas de destruição
do emprego. Ele prometeu revisar todos os tratados nos primeiros
120 dias de seu governo e defender o interesse dos trabalhadores
americanos.
Na
mira do democrata estão o Nafta, o acordo de livre-comércio
com o Canadá e o México, e também as negociações
para a formação da Alca, a Área de Livre Comércio
das Américas. O candidato democrata diz que vai exigir que
o acordo contenha garantias de respeito aos direitos trabalhistas
e ao meio ambiente. São, por sinal, dois itens que o Brasil
já rejeitou nas negociações. Nesse tema, prever
o que vai acontecer após as eleições ainda
não passa de futurologia. "Na campanha, todos se dizem protecionistas,
é um discurso fácil de ser vendido", disse a VEJA
o economista brasileiro José Alexandre Scheinkman, professor
da Universidade Princeton, nos Estados Unidos. Bill Clinton tinha
um discurso protecionista na campanha de 1992 que acabou engavetado
durante os oito anos em que ele esteve na Casa Branca. O que vai
definir a eleição será o ritmo da economia.
Se confirmar o aquecimento, Bush é o favorito. Num quadro
de recessão, Kerry pode sair vencedor. Como vai governar
é assunto para depois da eleição.
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A
cabeça do senador
Kerry
pode vencer Bush?
As
pesquisas apontam equilíbrio, mas o democrata
pode ser favorecido pela desaceleração
da economia e pelo aumento do desemprego
Se
vencer, o que muda na estratégia de combate ao
terrorismo?
Pretende
investir na colaboração com serviços
secretos de outros países. Intervenção
militar, só com apoio internacional
O
que ele faria no Iraque?
O
candidato garante que as tropas americanas não
vão abandonar o país de forma precipitada
A
vitória de Kerry pode diminuir o antiamericanismo
no mundo?
Sim.
Ele acena com uma política externa multilateral,
com estímulo à diplomacia para resolver
conflitos regionais. Ao contrário de Bush, Kerry
é popular na Europa
Kerry
vai aumentar o protecionismo americano aos produtos
brasileiros?
Vai
depender do desempenho da economia. Ele promete rever
acordos comerciais para evitar a concorrência
desleal e aumentar a proteção aos trabalhadores
e ao meio ambiente nos países exportadores. Isso
vale também para as negociações
para a formação da Alca, zona de livre
comércio das Américas
O
que vai fazer para estimular a economia?
Baixar um pacote de 50 bilhões de dólares
para aquecer a produção industrial. Pretende
anular a lei de Bush que cortou impostos dos mais ricos
e usar o dinheiro para financiar obras públicas
que gerem empregos
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