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Renda
Está
doendo no
bolso
As
pesquisas agora mostram o que
muita gente
já sabia: a renda dos
brasileiros está em
queda livre. De
todos os brasileiros

Monica Weinberg
As
crises políticas no Brasil se sucedem com estardalhaço,
enquanto a degeneração econômica segue fazendo
estragos com o silêncio dos cupins. Um silêncio que
só é quebrado quando são divulgados estudos
que apontam o tamanho do problema. O mais recente deles veio à
tona na semana passada. Segundo uma pesquisa com base em dados do
IBGE, somente entre 2002 e 2003 a renda das famílias brasileiras
viu-se reduzida em 14%, a maior taxa média registrada nos
últimos quinze anos. O desastre é tão mais
grave quando se verifica que a perda do poder de compra é
constante desde 1997 e, no acumulado, chega a abismais 25%. Os cupins
da degeneração econômica não roem apenas
o dinheiro de quem está na base da pirâmide social.
Agora, eles agem também no topo dela e com uma voracidade
ainda maior. Entre os 50% mais pobres, a redução dos
rendimentos das pessoas ocupadas ficou na casa dos 2,5%, entre 1997
e 2002. Já entre os 30% mais ricos, faixa em que se encontram
os emergentes, a classe média e os ricos, as perdas registradas
no mesmo período foram de 13%. Em função disso,
o professor Waldir de Quadros, da Universidade Estadual de Campinas,
um dos maiores especialistas no assunto, constatou que a população
no topo da pirâmide está diminuindo. Há dez
anos, 6% dos brasileiros ganhavam, em média, 5 100 reais
por mês. Atualmente, esse número é de 4,5%.
Outro trabalho divulgado há poucos dias, do sociólogo
Marcelo Medeiros, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
(Ipea), surpreendeu ao mostrar como é infimíssima
a porcentagem dos brasileiros considerados ricos. De acordo com
ele, apenas 0,003% da população tem rendimentos individuais
superiores a 22 600 reais por mês.
Vários
motivos podem ser elencados para explicar o sufoco vivido também
pelos mais abastados. Não bastasse a renda estar em queda,
as despesas continuam crescendo desmesuradamente. Um levantamento
feito pelo Dieese revela que, desde 1997, enquanto o custo de vida
aumentou 72%, os gastos com educação e saúde,
itens obrigatórios da cesta de consumo da classe média,
subiram 92% e 147%, respectivamente. E não se vislumbra uma
nesga rósea que seja no horizonte. Outros números
ilustram como está mesmo difícil manter o padrão
de vida no meio dessa tempestade. Nos anos áureos do real,
metade dos carros vendidos no Brasil eram populares. Hoje, eles
correspondem a 63% das vendas das montadoras. O setor de eletroeletrônicos,
que tem um volume significativo de suas vendas dirigido aos mais
ricos, também acusou o golpe. De 1997 até o momento,
os fabricantes registraram uma queda de 30% nas vendas de artigos
como geladeiras, microondas e aparelhos de som.
Embora
exista muita polêmica nesse campo, a maioria dos pesquisadores
aceita que a classe média brasileira seja formada por aproximadamente
45 milhões de pessoas, com renda familiar mensal de 1.800
a 7.200 reais. É um grupo relativamente
pequeno, mas seu impacto na economia é enorme. Calcula-se,
por exemplo, que a classe média seja responsável por
mais de 50% das vendas dos supermercados, 90% da comercialização
dos aparelhos de televisão e por 97% do movimento das empresas
aéreas. O poder de compra dessas pessoas interessa a toda
a sociedade, pela razão elementar de que quem está
embaixo depende de quem está em cima. "O efeito da perda
de renda na classe média desencadeia um ciclo vicioso", diz
o cientista político Sérgio Abranches. Com a retração
do consumo, setores inteiros da economia ficam estagnados ou encolhem,
as empresas demitem, há mais desemprego e a renda cai ainda
mais. Para todo mundo.
O
principal vilão dessa tragédia é o Estado brasileiro,
um aspirador de recursos que, apesar de toda a discurseira em Brasília
em prol da diminuição do aparato governamental, permanece
ligado no máximo. No Brasil, as pessoas são obrigadas
a trabalhar quatro meses por ano somente para pagar impostos. Cerca
de 40% do PIB é recolhido aos cofres estatais. A cifra é
aceitável em países cujos governos devolvem o dinheiro
que arrecadam em forma de serviços de boa qualidade para
seus cidadãos. Mas aqui, francamente, falar em bons serviços
do Estado é como acreditar que se verá um espetáculo
do crescimento em 2004. Seria uma piada se não fosse de extremo
mau gosto. Quase 80% do crédito disponível nos bancos
é sugado pelo governo, para financiar a dívida pública.
O que sobra para os bancos emprestarem às pessoas e às
empresas é exorbitantemente taxado. Cerca de 30% do custo
total de um empréstimo bancário é puro imposto.
E o enredo não pára por aí. Como não
consegue abater a dívida pública, o governo é
obrigado a pagar juros estratosféricos a fim de conseguir
dinheiro. É por isso que os brasileiros têm a maior
taxa de juro real do mundo, cerca de 10%. Em países mais
organizados, o crédito bancário é usado para
financiar novos negócios, imóveis e bens de consumo,
o que ajuda a girar a economia, gerar empregos e produzir riqueza.
Aqui, é para financiar o inchaço do Estado e, conseqüentemente,
escorchar os cidadãos.
O
quadro é de uma perversidade sem tamanho. Um cálculo
do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT),
divulgado na última sexta-feira, mostra que, apesar de 2003
ter fechado com uma queda de 0,2% do produto interno bruto, o total
de riquezas produzidas no país, a arrecadação
de impostos teve um aumento real de 3,75%. Isso significa que o
governo embolsou, sem dó nem piedade, mais 64 bilhões
de reais no ano passado, em relação a 2002. Quando
esses números são analisados de perto, verifica-se
que o imposto que mais contribuiu para essa festa foi o imposto
sobre circulação de mercadorias e serviços
(ICMS). "Como a economia esteve em retração, o fato
de o ICMS ter aumentado tanto é muito preocupante. É
sinal de que o Estado brasileiro está longe de amainar sua
fome tributária", diz Gilberto Luiz do Amaral, que coordenou
o trabalho do IBPT. Por que o ICMS cresceu? Porque se elevou principalmente
a tributação da energia elétrica, dos combustíveis
e dos serviços telefônicos. Imposto mais alto significa
inflação maior, já que o aumento acaba sendo
repassado ao consumidor. Por falar em inflação, ao
decompor o índice projetado para 2004, da ordem de 5,5%,
vê-se que as tarifas públicas e os preços administrados
pelo Estado representam 2,8 pontos porcentuais do total. Traduzindo,
se é que é preciso: mais da metade da inflação
brasileira é causada pelo governo. Um espanto.
Renda
em queda, crescimento econômico medíocre e o Estado
brasileiro permanece inchando e tributando. O cenário é
desalentador. Mesmo que a economia brasileira cresça entre
3% e 4% em 2004, não há garantia de que o jogo será
virado em favor do país nos próximos anos. Para que
isso ocorra efetivamente, é preciso que o Estado diminua
seu aparato e suas atribuições, passando a concentrar-se
naquilo que importa, como a educação, um dos pilares
de qualquer nação desenvolvida. Também é
preciso acabar com os entraves burocráticos que anuviam o
ambiente das relações comerciais. É difícil
abrir e fechar empresas, a Justiça é lenta e as regras
não costumam ser claras. Por todas essas razões, muitos
investidores desistem de trazer seu dinheiro para cá. Deixam
de criar empregos e de gerar renda no Brasil, para fazê-lo
em países onde o leão, aquele, é menor e mais
manso.
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