Edição 1844 . 10 de março de 2004

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Governo
A crise rouba a cena


Lauro Jardim e André Petry

 
Bruno Stuckert/Folha Imagem

DEPOIS DE UM LONGO SUMIÇO
Waldomiro Diniz, o ex-assessor flagrado pedindo propina, depôs na semana passada mas não disse nada aos investigadores



Entrevista exclusiva: José Dirceu
NA INTERNET
Notícias diárias sobre o governo Lula

Quem entra no amplo gabinete situado no 4º andar do Palácio do Planalto, de onde se avista a encantadora placidez do Lago Paranoá, experimenta uma sensação de calmaria. Esse estado de espírito é realçado pela paisagem e, também, pelo dono do gabinete, o ministro da Casa Civil, José Dirceu. Sentado a uma mesa redonda, ele mostra-se absolutamente confiante, tranqüilo, sereno. Ali, tudo transcorre com normalidade. Em duas horas de conversa com VEJA, o ministro José Dirceu explicou as razões de sua serenidade: o país está gradativamente resolvendo seus problemas de natureza econômica, tanto que já temos o juro real mais baixo dos últimos dez anos, e a cena política desenrola-se sem atropelos, à exceção de uma "crise artificial" que a oposição tenta criar a pretexto do escândalo protagonizado por Waldomiro Diniz, seu ex-assessor, que foi flagrado num vídeo achacando um contraventor. Ali, no gabinete do ministro, não existe crise. Existe apenas "um episódio político" que, no entanto, não maculou sua autoridade nem reduziu sua estatura política.

A sensação de calmaria acaba quando se deixa o gabinete do ministro José Dirceu. No Brasil que cerca o Palácio do Planalto, existe um governo atingido em cheio em sua mais propalada bandeira – o compromisso com a ética. O país está sendo convidado a acreditar que José Dirceu cometeu apenas um erro de procedimento ao contratar Waldomiro – ainda que o ex-assessor fosse seu amigo fazia mais de uma década, tendo ambos, inclusive, dividido o mesmo apartamento. "Eu tenho pelo menos o direito à dúvida", disse José Dirceu a VEJA. Numa pesquisa do instituto Datafolha, divulgada na semana passada, 67% dos entrevistados desejam que o ministro seja afastado do cargo – em definitivo ou apenas durante a investigação. Para 81%, deveria ser instalada uma CPI para investigar o caso. Governo, petistas e aliados não querem nem ouvir falar no assunto. Como se vê, há uma realidade de acordo com a interpretação oferecida dentro do Palácio do Planalto e outra baseada na visão que os brasileiros têm de fora do palácio. Prensada entre as duas visões, a vida política brasileira entrou num circuito esquizofrênico. Na semana passada, aprovou-se a CPI dos Bingos, com a quantidade necessária de assinaturas para que o assunto seja investigado no Congresso. Haverá a CPI dos Bingos? Não, quase certamente. Os governistas estão combinados no Congresso acerca disso. Boicotarão a CPI e ela, embora aprovada, não deverá sair do papel.

É compreensível que uma autoridade pública procure minimizar uma crise. Em alguns casos, talvez até seja seu dever, para evitar a disseminação da balbúrdia ou da instabilidade no país. No atual caso, porém, o governo não apenas procura minimizar a crise, como também se comporta como se o episódio estivesse 100% superado. A realidade mostra que as coisas estão longe dessa tranqüilidade. Na segunda-feira passada, o Brasil ficou com a respiração suspensa quando um senador do PDT de Sergipe, Almeida Lima, anunciou um discurso para o dia seguinte no qual apontaria ligações inconfessáveis entre Waldomiro Diniz e José Dirceu. Feito o discurso, constatou-se que era pura espuma. Irresponsável, Almeida Lima somente requentara velharias. Nas horas que precederam seu pronunciamento, no entanto, o Brasil contou os minutos. Mas há outro dado: Almeida Lima é um parlamentar folclórico, tem o hábito de anunciar bombas atômicas que não passam de traques e usa a tribuna como parlatório particular, fazendo longos e tediosos discursos que habitualmente esvaziam o plenário. Por que o país – a bolsa, o dólar, o Parlamento, o governo – ficou tão assustado com as bravatas de um notório parlapatão?

A resposta é inequívoca: porque existe uma crise, a crise rouba a cena, e não tem nada de artificial. Por mais que, do ponto de vista do Palácio do Planalto, a crise pareça uma marola, ela pode ainda ter energia política para provocar uma tsunami, a onda gigante que se forma silenciosamente no fundo do mar e, de repente, irrompe varrendo a costa. Para segurar a onda, o governo petista, um partido orgulhoso de sua ética, sua história e sua independência, está ficando refém de velhas agremiações, lideradas por raposas cabeludas, algumas das quais representam o que há de mais negativo na política brasileira. Até Jader Barbalho, aquele do Banpará, do ranário, da Sudam, até ele está de volta à vida. No governo, o PT tem reproduzido com espantosa similaridade os comportamentos menos recomendáveis de antigas legendas. Por exemplo: por que o governo barra a CPI? "A CPI não é para investigar, é para me tirar da Casa Civil, é para desgastar o governo, é para imobilizar o governo", reage o ministro José Dirceu. A oposição, sabe-se, tem por hábito fazer isso, e o PT, aliás, foi exemplar nesse tipo de atuação. Mas sabe-se também que exploração política não se faz com perfumaria. É preciso base sólida, pois do contrário a manobra cai no descrédito. Das inúmeras CPIs que o Congresso já instalou, a maioria ficou no vazio exatamente porque só fazia barulho.

Em conversas com seus aliados mais próximos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz que só considera a hipótese de José Dirceu deixar o governo na eventualidade da instalação da CPI de Waldomiro Diniz. O presidente acha que a CPI dos Bingos, que os aliados estão boicotando, não tem potencial para inviabilizar a permanência de Dirceu no governo. O Palácio do Planalto trabalha para que se materialize no cenário um elemento que costuma ser o grande desarmador de crises – o crescimento econômico. A estratégia é barrar todas as CPIs e segurar José Dirceu no cargo até que sejam divulgados os salvadores "números de abril". Fala-se aqui do desempenho trimestral do PIB – que, pela avaliação atual do governo, será um índice que pode variar entre 3% e 4%. Caso as estimativas se materializem, os números do crescimento, mesmo não sendo empolgantes, tendem a reforçar o otimismo e a diminuir o fôlego da crise política. É uma aposta. Apenas isso. Por ora, o que sobressai nos bastidores do governo é uma certa irritação do presidente, que, na semana passada, ficou particularmente amuado com o escasso destaque dado às suas conversas telefônicas com líderes internacionais – dos Estados Unidos, França, Alemanha, Inglaterra, Espanha – para flexibilizar algumas normas do Fundo Monetário Internacional. "Na Argentina, deram mais valor para isso do que aqui no Brasil", reclamou. São os ossos da crise.

"Não vou sair do governo", garante José Dirceu, na entrevista a VEJA, ao contar que, no auge do caso Waldomiro, colocou o cargo à disposição, mas o presidente não o aceitou – e não se falou mais no assunto. No núcleo duro do governo, composto pelos auxiliares mais prestigiados do presidente, não há cogitação sobre a saída do ministro. "Isso, simbolicamente, seria um desastre para o governo e para o PT", diz um desses ministros, explicando que a demissão de José Dirceu acabaria por confirmar a perda do "patrimônio ético" do partido. O "patrimônio ético" do PT não foi extinto pelo caso Waldomiro, mas nunca é demais lembrar que essa riqueza, por sua natureza, é difícil de amealhar e fácil de perder. Há sinais fortes de que algumas administrações do PT podem ter se envolvido de forma heterodoxa com bicheiros e, agora, descobre-se uma conexão petista com donos de casas de bingo. Fica-se com a impressão de que esses episódios talvez não sejam isolados e estejam, portanto, sugerindo que um setor do partido tem o hábito de arrastar uma asa para a jogatina – ou melhor: para o dinheiro da jogatina, o que não faz bem à ética de nenhum partido. O problema maior, na verdade, é simbólico. Vai além dos fatos narrados nas histórias recentes. Esse problema é a suspeita, por parte de muita gente, de que o PT não é o que dizia ser – e nisso se enfiaria, como farinha azeda, no mesmo saco de todos os partidos.

Waldomiro Diniz era um cardeal do governo. Representava o ministro José Dirceu nas negociações com o Congresso. Era tratado por alguns parlamentares como "ministro". Depois da fita em que ele aparece pedindo propina a um bicheiro, Carlinhos Cachoeira, o Planalto tratou de apresentá-lo apenas como um funcionário contratado por erro de avaliação. Era mais do que isso. Na semana passada, descobriu-se que também tinha ligação com José Orcirio dos Santos, o Zeca do PT. Uma correspondência, de julho de 2000, assinada por Hélio de Lima, assessor executivo do governador, informa aos secretários estaduais que qualquer projeto encaminhado ao governo federal seria centralizado pelo escritório de Mato Grosso do Sul em Brasília. Na carta, o assessor do governador dá a identidade de Waldomiro Diniz como um dos contatos autorizados e o número de seu celular. Isso não significa irregularidade alguma. Mas mostra que o ex-assessor era um homem mais enfronhado com o partido do que se imaginava.

 
 
 
 
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