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Cinema
Uma boa causa Diamante
de Sangue, com Leonardo DiCaprio, expõe
o sofrimento que as pedras ilegais compram na África 
Isabela Boscov
Divulgação  |
| DiCaprio e Hounsou: muita ação, ótimas
interpretações e consciência limpa |
Diamante de Sangue
(Blood Diamond, Estados
Unidos, 2006), desde sexta-feira em cartaz no país, é um thriller
movimentado e um entretenimento vigoroso. E é também um filme com
uma missão declarada: a de instruir a platéia no sofrimento que
as reservas de diamantes impõem ou impuseram aos países africanos
que as possuem. Os chamados "diamantes de conflito" são pedras brutas garimpadas
em regiões dominadas por guerrilhas. Extraídas quase sempre à
base de trabalho escravo, são entregues por meio de subterfúgios
aos classificadores de Londres ou Antuérpia, e então despejadas
no comércio regular em todo o mundo. Financiam, neste momento, a mortandade
na Costa do Marfim (veja quadro). Em Serra Leoa,
o cenário escolhido pelo diretor Edward Zwick para Diamante de Sangue,
a Frente Revolucionária Unida (FRU) usou as gemas clandestinas para pagar
mais de uma década de violência, entre 1991 e 2002. Muitos países
do continente vivem legitimamente de seus diamantes como Angola e Serra
Leoa mesmo, desde que saíram da guerra civil. Mas, onde caem nas mãos
de guerrilheiros, as pedras compram por atacado as mazelas típicas do continente:
violência, fome, corrupção e a expulsão de populações
inteiras de zonas cobiçadas.
Seria até possível suspeitar de oportunismo aqui, já que
filmes como Hotel Ruanda, O Jardineiro Fiel, o ainda inédito Em
Nome da Honra e o próprio Diamante de Sangue fazem da África
a causa da hora em Hollywood. Mas o thriller de Zwick conjuga o que há
de melhor nessa fórmula do divertimento com consciência. Leonardo
DiCaprio, em outra interpretação excelente, é Danny Archer,
cidadão do Zimbábue (que ele chama pelo nome colonial de Rodésia),
ex-soldado de elite sul-africano e atual traficante de armas para guerrilheiros
uma opção profissional nada incomum para africanos brancos
com as suas qualificações. Está-se em 1999, ano em que a
guerra civil em Serra Leoa atingiu um estado de paroxismo, e não é
ficção a "brincadeira" retratada no filme, em que os guerrilheiros
põem vilarejos inteiros em fila e, de machete na mão, fazem os civis
estender o braço e perguntam se eles preferem "manga curta" ou "manga comprida".
Por um acaso, o caminho de Danny vai se cruzar com o de um desses civis: Solomon
Vandy (Djimon Hounsou), pescador que perdeu um filho para a guerrilha e foi encaminhado
como escravo para um garimpo. Solomon encontra, e esconde, um fabuloso diamante
rosa. Mas os boatos sobre a pedra começam a correr, atraindo a atenção
de Danny e de Maddy (Jennifer Connelly), uma jornalista que vê no mercenário
a chance de um furo sobre a cumplicidade da indústria de diamantes com
a mineração clandestina. Danny, Solomon e Maddy são figuras
que têm mais a ver com o mundo do celulóide mas, graças
a um roteiro competente, agem como se estivessem no mundo real, usando uns aos
outros para atingir seus fins diversos.
Valendo-se desse casamento de aventura, drama e, claro, romance, Edward Zwick
faz um filme muito superior aos seus Estado de Sítio e O Último
Samurai. Não falta ação a Diamante de Sangue.
E não falta também clareza na maneira como ele pincela a crueza
da vida numa África volátil, com seus guerrilheiros meninos, os
soldados brancos sem função legítima, a peregrinação
pelos campos de refugiados, a devastação das cidades e do campo.
Sinal de que Diamante de Sangue toca num ponto sensível é
que a indústria de diamantes armou uma campanha de relações
públicas para alardear a eficiência do chamado Processo Kimberley
sistema que obriga os governos signatários a detalhar a trajetória
de cada pedra, desde seu garimpo de origem. Até Nelson Mandela, a autoridade
moral inconteste da África, manifestou preocupação com os
efeitos do filme. Um boicote indiscriminado aos diamantes do continente, defendeu
ele, faria ruir as economias que têm na extração legítima
sua maior fonte de renda, como as da África do Sul, Botsuana e Namíbia.
De acordo com a indústria, desde 2003 o Processo Kimberley reduziu de 4%
do total para 1% a circulação dos "diamantes de conflito". Num mercado
de 60 bilhões de dólares, isso significa que, a cada ano, ainda
sobram 600 milhões de dólares com os quais comprar violência
na África. É para eles que, muito apropriadamente, Diamante de
Sangue pretende chamar atenção. |