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Cinema
Um gosto a adquirir
Em Mais Estranho que a Ficção, Will Ferrell
afinal mostra a que veio 
Isabela Boscov
Em 1995, na sua primeira temporada
no Saturday Night Live, Will Ferrell foi votado pelo público como
o pior comediante da história do programa. Sete anos depois, quando deixou
o posto, foi eleito pelo voto popular o melhor nome de todos os que passaram pelo
humorístico, tirando do páreo concorrentes como John Belushi e Steve
Martin. Há duas explicações possíveis para essa discrepância,
e uma não exclui a outra: Ferrell é um gosto que se adquire; e ele
é capaz de se adaptar, se aprimorar e aprender. Em Mais Estranho
que a Ficção (Stranger Than Fiction, Estados Unidos, 2006),
que estréia nesta sexta-feira no país, a validade da segunda hipótese
fica especialmente evidente. Pela primeira vez, Ferrell se mostra menos um cômico
e mais um ator. No filme dirigido por Marc Forster, de A Última Ceia
e Em Busca da Terra do Nunca, ele interpreta Harold Crick, um descolorido
fiscal da Receita que, na falta de qualquer outro sentido mais claro para a vida,
o substitui por números e método. Harold escova os dentes 36 vezes
na vertical, e outras 36 vezes na horizontal. Cronometra até a casa dos
segundos o horário em que deve estar no ponto do ônibus, e dá
na gravata um nó Windsor simples, porque o nó duplo consumiria todo
um outro minuto do seu dia. A razão pela qual esses hábitos se tornam
tão transparentes para ele e para a platéia é que, em dado
momento, Harold começa a ouvir uma voz dentro da sua cabeça
uma voz de mulher, inglesa, que narra cada um dos seus gestos com mais estilo,
e melhor escolha de palavras, do que ele próprio estaria apto a empregar.
Com a ajuda de um professor de literatura
(Dustin Hoffman), Harold descobre que passou a ser o personagem de um romance
que está sendo escrito por Kay Eiffel (Emma Thompson). Em grave crise existencial
e criativa, a novelista luta para terminar o trabalho da forma pela qual é
conhecida matando o protagonista. Harold, naturalmente, quer convencer
Kay a mudar o desfecho. E o filme, escrito com consideráveis esperteza
e doçura pelo roteirista Zach Helm, tem de mostrar então por que
ela deveria, ou não, alterar sua obra-prima para impedir o fim prematuro
de um homem tão insignificante. A resposta a esse impasse está acima
de tudo na atuação de Ferrell, que dá à sua persona
habitual, a do tolo que não sabe que é tolo (sua imitação
de George W. Bush é célebre), todo um novo sentido dramático:
o de que mesmo as pessoas das quais se costuma desdenhar podem conter lances insuspeitos
de grandeza. O que vale para o personagem, e também para seu ator.
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