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Genética
Bife de clone Os
EUA respondem à maior dúvida sobre animais clonados: a carne
e o leite deles são bons para o consumo humano  Duda
Teixeira
Jamil
Bittar/Reuters
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FILHOS DO CLONE A carne dos primeiros rebentos
de touros clonados no Brasil deve chegar aos açougues em 2008. Ao lado, Vitória,
a primeira vaca clonada no país, em 2001, com sua filha, Glória |
Afinal, temos uma resposta científica
para uma grande incerteza a respeito dos animais clonados: esses frutos da engenharia
genética podem ser comidos sem risco para a saúde humana? Depois
de quatro anos de estudos, a Food and Drug Administration (FDA), órgão
do governo americano que regula a venda de medicamentos e alimentos nos Estados
Unidos, deu luz verde para o consumo de produtos provenientes de animais clonados.
Para chegar ao veredicto, foram analisados treze estudos científicos independentes
que rastrearam as propriedades nutricionais e o potencial de toxicidade da carne
e do leite de bovinos, suínos e caprinos clonados. A conclusão é
a de que são idênticos aos produtos tradicionalmente à venda
nos supermercados e nos açougues. Dessa forma, diferentemente do que ocorre
com os alimentos transgênicos no Brasil, nem sequer há necessidade
de rótulos para diferenciar produtos clonados de não clonados.
Num mundo movido à velocidade de internet, pode parecer um acontecimento
distante do século passado. Mas faz apenas dez anos que os estudos com
espécies clonadas começaram a dar resultados, com o nascimento da
ovelha Dolly, produzida num laboratório da Escócia a partir de células
somáticas de animais adultos. Depois disso, o plantel de duplicatas não
parou de crescer, com touros, cavalos, camundongos e até gatos de estimação.
A decisão da FDA abre uma nova porta no caminho do uso comercial dessas
criaturas de laboratório. A aprovação definitiva da venda
de alimentos clonados nos Estados Unidos deve sair a partir de abril. De qualquer
forma, a decisão já tem repercussão internacional, pois governos
do mundo inteiro costumam inspirar-se na agência americana para tomar suas
próprias decisões. Para
o consumidor, o uso dos clones para alimentação pode significar
produtos com maior garantia de qualidade. A razão para isso é que
em lugar de um pasto repleto de animais com características variadas (como
peso ou nível de gordura na carne), a clonagem permite um rebanho formado
apenas por réplicas de um animal de alta qualidade, capaz de gerar as mais
suculentas fatias de filé. Para os pecuaristas, a clonagem é um
método eficaz para replicar animais que ganham peso rapidamente, têm
grande porte ou são resistentes a doenças. Isso porque a clonagem
tem pelo menos uma vantagem em relação a outras técnicas
de reprodução assistida: na fertilização in vitro
e na inseminação artificial, embora se conheçam a origem
e a qualidade genética do touro e da vaca, não se tem controle total
sobre as características que o bezerro apresentará, como ocorre
na clonagem. Durante os quatro anos em que a FDA passou analisando a questão,
as fazendas e indústrias de laticínios americanas não puderam
colher os benefícios da clonagem. Agora, a porteira se abrirá.
Vai levar mais tempo, no entanto, para que o primeiro filé clonado chegue
ao prato dos consumidores. A razão é simples: ainda custa muito
caro replicar um animal. O clone de um touro ou de uma vaca custa no Brasil entre
50.000 e 60.000 reais. "Por isso, abater um touro clonado para fazer churrasco
seria um imenso desperdício de dinheiro", diz a bióloga Yeda Watanabe,
sócia da empresa Vitrogen, de Cravinhos, em São Paulo, que nos últimos
dois anos vendeu doze animais clonados para pecuaristas brasileiros. O custo alto
faz com que, tanto aqui como nos Estados Unidos, a clonagem seja usada preferencialmente
para duplicar reprodutores de alta linhagem, com excelente carga genética,
que chegam a ser vendidos por mais de 500.000 reais em leilões de gado.
São os rebentos desses touros que em breve poderão ser vendidos
nos açougues e supermercados. No Brasil, que não possui legislação
específica sobre o assunto, a clonagem comercial de animais é realizada
por empresas privadas desde 2004. Considerando que os primeiros touros clonados
para fins comerciais no Brasil nasceram em meados de 2005, em tese a carne dos
filhos desses primeiros clones já estará na mesa dos brasileiros
no próximo ano. O custo da
clonagem deverá cair quando a técnica for aprimorada. Atualmente,
fracassam nove de cada dez tentativas para obter o clone de um touro. "Em cinco
anos, estimamos que o custo de uma clonagem caia para a metade, o que vai ajudar
a popularizar a técnica", disse a VEJA o americano Blake Russell, diretor
de novos negócios da ViaGen, companhia de biotecnologia em Austin, no Texas,
que clona touros, vacas premiadas e cavalos de raça sob encomenda de criadores.
Os alimentos derivados de clones, no entanto, ainda precisam enfrentar o preconceito.
Em pesquisas de opinião feitas nos Estados Unidos, um em cada três
americanos afirmou que não consumiria produtos clonados mesmo com o parecer
favorável da FDA. Muitos ainda associam a clonagem com a transgenia, técnica
que permite alterar o código genético de animais ou plantas. "A
comunidade científica aguardava com ansiedade a avaliação
da FDA. Falta agora convencer a opinião pública das vantagens da
clonagem", afirma o veterinário Rodolfo Rumpf, da Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que em 2001 gerou a vaca Vitória,
o primeiro mamífero clonado da América Latina. |