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Edição 1990 . 10 de janeiro de 2007

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Genética
Bife de clone

Os EUA respondem à maior dúvida sobre
animais clonados: a carne e o leite deles
são bons para o consumo humano


Duda Teixeira

 

Jamil Bittar/Reuters
OS FILHOS DO CLONE
A carne dos primeiros rebentos de touros clonados no Brasil deve chegar aos açougues em 2008. Ao lado, Vitória, a primeira vaca clonada no país, em 2001, com sua filha, Glória

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Em Profundidade: Genética

Afinal, temos uma resposta científica para uma grande incerteza a respeito dos animais clonados: esses frutos da engenharia genética podem ser comidos sem risco para a saúde humana? Depois de quatro anos de estudos, a Food and Drug Administration (FDA), órgão do governo americano que regula a venda de medicamentos e alimentos nos Estados Unidos, deu luz verde para o consumo de produtos provenientes de animais clonados. Para chegar ao veredicto, foram analisados treze estudos científicos independentes que rastrearam as propriedades nutricionais e o potencial de toxicidade da carne e do leite de bovinos, suínos e caprinos clonados. A conclusão é a de que são idênticos aos produtos tradicionalmente à venda nos supermercados e nos açougues. Dessa forma, diferentemente do que ocorre com os alimentos transgênicos no Brasil, nem sequer há necessidade de rótulos para diferenciar produtos clonados de não clonados.

Num mundo movido à velocidade de internet, pode parecer um acontecimento distante do século passado. Mas faz apenas dez anos que os estudos com espécies clonadas começaram a dar resultados, com o nascimento da ovelha Dolly, produzida num laboratório da Escócia a partir de células somáticas de animais adultos. Depois disso, o plantel de duplicatas não parou de crescer, com touros, cavalos, camundongos e até gatos de estimação. A decisão da FDA abre uma nova porta no caminho do uso comercial dessas criaturas de laboratório. A aprovação definitiva da venda de alimentos clonados nos Estados Unidos deve sair a partir de abril. De qualquer forma, a decisão já tem repercussão internacional, pois governos do mundo inteiro costumam inspirar-se na agência americana para tomar suas próprias decisões.

Para o consumidor, o uso dos clones para alimentação pode significar produtos com maior garantia de qualidade. A razão para isso é que em lugar de um pasto repleto de animais com características variadas (como peso ou nível de gordura na carne), a clonagem permite um rebanho formado apenas por réplicas de um animal de alta qualidade, capaz de gerar as mais suculentas fatias de filé. Para os pecuaristas, a clonagem é um método eficaz para replicar animais que ganham peso rapidamente, têm grande porte ou são resistentes a doenças. Isso porque a clonagem tem pelo menos uma vantagem em relação a outras técnicas de reprodução assistida: na fertilização in vitro e na inseminação artificial, embora se conheçam a origem e a qualidade genética do touro e da vaca, não se tem controle total sobre as características que o bezerro apresentará, como ocorre na clonagem. Durante os quatro anos em que a FDA passou analisando a questão, as fazendas e indústrias de laticínios americanas não puderam colher os benefícios da clonagem. Agora, a porteira se abrirá.

Vai levar mais tempo, no entanto, para que o primeiro filé clonado chegue ao prato dos consumidores. A razão é simples: ainda custa muito caro replicar um animal. O clone de um touro ou de uma vaca custa no Brasil entre 50.000 e 60.000 reais. "Por isso, abater um touro clonado para fazer churrasco seria um imenso desperdício de dinheiro", diz a bióloga Yeda Watanabe, sócia da empresa Vitrogen, de Cravinhos, em São Paulo, que nos últimos dois anos vendeu doze animais clonados para pecuaristas brasileiros. O custo alto faz com que, tanto aqui como nos Estados Unidos, a clonagem seja usada preferencialmente para duplicar reprodutores de alta linhagem, com excelente carga genética, que chegam a ser vendidos por mais de 500.000 reais em leilões de gado. São os rebentos desses touros que em breve poderão ser vendidos nos açougues e supermercados. No Brasil, que não possui legislação específica sobre o assunto, a clonagem comercial de animais é realizada por empresas privadas desde 2004. Considerando que os primeiros touros clonados para fins comerciais no Brasil nasceram em meados de 2005, em tese a carne dos filhos desses primeiros clones já estará na mesa dos brasileiros no próximo ano.

O custo da clonagem deverá cair quando a técnica for aprimorada. Atualmente, fracassam nove de cada dez tentativas para obter o clone de um touro. "Em cinco anos, estimamos que o custo de uma clonagem caia para a metade, o que vai ajudar a popularizar a técnica", disse a VEJA o americano Blake Russell, diretor de novos negócios da ViaGen, companhia de biotecnologia em Austin, no Texas, que clona touros, vacas premiadas e cavalos de raça sob encomenda de criadores. Os alimentos derivados de clones, no entanto, ainda precisam enfrentar o preconceito. Em pesquisas de opinião feitas nos Estados Unidos, um em cada três americanos afirmou que não consumiria produtos clonados mesmo com o parecer favorável da FDA. Muitos ainda associam a clonagem com a transgenia, técnica que permite alterar o código genético de animais ou plantas. "A comunidade científica aguardava com ansiedade a avaliação da FDA. Falta agora convencer a opinião pública das vantagens da clonagem", afirma o veterinário Rodolfo Rumpf, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que em 2001 gerou a vaca Vitória, o primeiro mamífero clonado da América Latina.

 
 
 
 
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