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Ética Criança
para sempre A dramática
decisão dos pais: interromper o crescimento da filha deficiente para
poder cuidar melhor dela  Denise
Dweck AFP
 | | Ashley,
9 anos e mente de um bebê de 3 meses: hormônios e cirurgias para deter
a puberdade |
Os limites da
ética pareciam já ter sido testados de todas as maneiras. O caso
da americana Terri Schiavo, dois anos atrás, levantou a discussão
sobre a morte digna para uma mulher condenada a uma existência em estado
vegetativo. Agora, há um novo e surpreendente limite: a interrupção
do crescimento de uma criança deficiente para que ela permaneça
pequena e possa receber cuidados com mais facilidade. Ashley, uma americana de
9 anos, sofre de encefalopatia estática, doença que provoca retardo
mental profundo. O desenvolvimento mental de Ashley parou aos 3 meses de idade.
Ela não fala, não anda e não se senta. Depende de ajuda para
tudo e alimenta-se por tubos. Quando a garota começou a apresentar sinais
de puberdade precoce, há três anos, os pais se questionaram sobre
como seria cuidar da filha quando ela fosse maior, mais pesada e iniciasse seu
ciclo menstrual. Antecipando as dificuldades para carregá-la, optaram por
um tratamento radical: os médicos restringiram o crescimento de Ashley
com altas doses de hormônio, removeram seu útero e retiraram suas
glândulas mamárias para evitar o desenvolvimento dos seios. Com isso,
a menina não vai mais crescer (ela tem 1,34 metro de altura e 30 quilos),
mas seu rosto será o de uma adulta.
O tratamento tornou-se público com a publicação de um artigo
numa revista médica. Em um blog criado na semana passada para explicar
a decisão, os pais, sem se identificar, alegam que fizeram o tratamento
para dar melhor qualidade de vida à filha. Eles explicam que a retirada
dos seios e do útero evita a possibilidade de ela ser vítima de
abuso sexual e engravidar. O que para os pais foi uma decisão fácil,
como afirmam no site, é um caso sem precedentes e recheado de dilemas éticos.
Até que ponto os pais podem modificar de maneira irreversível o
corpo de uma criança a pretexto de protegê-la de problemas hipotéticos
no futuro? O tratamento de Ashley, por seu ineditismo, passou pelo crivo do comitê
de ética do Hospital de Crianças de Seattle. "Para darmos o aval,
fizemos questão de assegurar que Ashley nunca sairia da condição
em que estava", disse a VEJA Doug Diekema, diretor do Centro Treuman Katz para
Bioética Pediátrica, de Seattle.
Uma das críticas feitas aos pais de Ashley é que, ao acreditarem
na premissa de que a função da ciência é melhorar a
qualidade de vida das pessoas, eles partiram do pressuposto de que é justificável
recorrer a qualquer medida médica para atingir o que consideravam o melhor
para a filha. "Submeter uma criança a anestesia geral para a retirada das
glândulas mamárias e do útero, por exemplo, é um procedimento
de risco para uma finalidade pouco clara", diz o cardiologista Reinaldo Ayer,
coordenador da Câmara Técnica Interdisciplinar de Bioética
do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo. "O mais indicado
é tratar os problemas à medida que eles vão aparecendo." |