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Música Muita
pose. E até que funciona A
banda Cansei de Ser Sexy mostra que há vida nos porões do pop
 Sérgio
Martins Otavio
Dias
 | | Cansei
de Ser Sexy: a música não é tudo |
Em 2003, depois de fazer seu show de estréia numa festa que reunia gente
do mundo da moda, artistas plásticos e formadores de opinião, a
banda paulistana Cansei de Ser Sexy foi saudada por um crítico como a nova
sensação do pop brasileiro. Eles tinham só três músicas
duas delas, versões de hits de Madonna e Jennifer Lopez. Mas isso
era o de menos: a força do grupo paulistano, formado por cinco garotas
e um rapaz na faixa dos 20 aos 31 anos, estava na "atitude". Com o tempo, o Cansei
de Ser Sexy ampliou seu repertório e seu público idem, com
a ajuda do boca-a-boca. Quando a banda pôs suas canções na
internet, por meio do site de uma gravadora, tornou-se logo a recordista em downloads.
Com menos de um ano de estrada, eles abriram a apresentação dos
alemães do Kraftwerk, os papas da música eletrônica, num grande
festival. "Eu chamei o grupo e avisei: 'meninas, agora vocês vão
ter de tocar de verdade'", diz o baterista e líder Adriano Cintra.
O Cansei de Ser Sexy acaba de lançar o disco de estréia (que leva
seu nome), pela gravadora Trama. Na verdade, dois discos. O "oficial" tem catorze
faixas nos estilos mais variados do pop-besteirol que lembra Titãs
ao rhythm'n'blues que remete à diva negra Beyoncé, passando pelo
eletro e pelo punk. O outro tem só sete músicas e é difícil
imaginar que tenha sido gravado por uma banda brasileira. Tudo é mais pesado,
eletrônico e cantado exclusivamente em inglês. Alguns hits se repetem
nos dois CDs, mas com arranjos diferentes. É o caso de Meeting Paris
Hilton uma música cheia de sarcasmo em que a vocalista Luisa
Lovefoxxx finge estar seduzindo a milionária americana. Ou de Art Bitch,
cuja letra diz: "Eu não sou uma artista / eu sou uma vadia das artes
/ eu vendo os meus quadros para o homem com quem transo". A banda, é claro,
está louca para emplacar no exterior e a gravadora ajuda. O crítico
Peter Culshaw, do Observer, suplemento do jornal inglês The Guardian,
veio ao Brasil a convite da Trama e não recebeu o bilhete de volta antes
de ver o sexteto em ação. No fim, disse que gostou.
Alexandre
Schneider/4Press
 | | O
vocalista dos Strokes: do mundinho para o mundo |
Mais do que o som, o que torna o Cansei de Ser Sexy interessante é
ser prova da efervescência de uma certa cultura pop brasileira. A palavra
pop, nesse caso, engloba muito mais que música: tem a ver com moda, com
a leitura de algumas revistas, com o culto irônico a certos ícones
e celebridades e com o desejo de ser "transnacional". Assim como os Strokes, de
Nova York, o Chicks on Speed, de Munique, ou o Arctic Monkeys, de Londres, a banda
se alimentou, em São Paulo, da eletricidade produzida pela existência
de bons clubes noturnos, de gente que escreve sobre a vida noturna e a cena musical
e de um público ávido por novidades. Surgiu do nada e cresceu a
ponto de quase já ter uma carreira internacional (seus primeiros shows
na Europa serão ainda neste mês), pois, graças a fenômenos
como a internet, os produtos desse "mundinho" reverberam muito mais que os do
"underground" ou do "circuito alternativo" de décadas passadas. Existe
um pouco de armação num fenômeno como o Cansei de Ser Sexy?
A julgar somente por seus dotes de instrumentistas, sim. Mas não se se
levar em conta o domínio que as meninas têm do vocabulário
pop. Elas têm pose. Resta ver se não cansam. |