Edição 1930 . 9 de novembro de 2005

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Música
Muita pose.
E até que funciona

A banda Cansei de Ser Sexy mostra
que há vida nos porões do pop


Sérgio Martins

 

Otavio Dias
Cansei de Ser Sexy: a música não é tudo

Em 2003, depois de fazer seu show de estréia numa festa que reunia gente do mundo da moda, artistas plásticos e formadores de opinião, a banda paulistana Cansei de Ser Sexy foi saudada por um crítico como a nova sensação do pop brasileiro. Eles tinham só três músicas – duas delas, versões de hits de Madonna e Jennifer Lopez. Mas isso era o de menos: a força do grupo paulistano, formado por cinco garotas e um rapaz na faixa dos 20 aos 31 anos, estava na "atitude". Com o tempo, o Cansei de Ser Sexy ampliou seu repertório – e seu público idem, com a ajuda do boca-a-boca. Quando a banda pôs suas canções na internet, por meio do site de uma gravadora, tornou-se logo a recordista em downloads. Com menos de um ano de estrada, eles abriram a apresentação dos alemães do Kraftwerk, os papas da música eletrônica, num grande festival. "Eu chamei o grupo e avisei: 'meninas, agora vocês vão ter de tocar de verdade'", diz o baterista e líder Adriano Cintra.

O Cansei de Ser Sexy acaba de lançar o disco de estréia (que leva seu nome), pela gravadora Trama. Na verdade, dois discos. O "oficial" tem catorze faixas nos estilos mais variados – do pop-besteirol que lembra Titãs ao rhythm'n'blues que remete à diva negra Beyoncé, passando pelo eletro e pelo punk. O outro tem só sete músicas e é difícil imaginar que tenha sido gravado por uma banda brasileira. Tudo é mais pesado, eletrônico e cantado exclusivamente em inglês. Alguns hits se repetem nos dois CDs, mas com arranjos diferentes. É o caso de Meeting Paris Hilton – uma música cheia de sarcasmo em que a vocalista Luisa Lovefoxxx finge estar seduzindo a milionária americana. Ou de Art Bitch, cuja letra diz: "Eu não sou uma artista / eu sou uma vadia das artes / eu vendo os meus quadros para o homem com quem transo". A banda, é claro, está louca para emplacar no exterior – e a gravadora ajuda. O crítico Peter Culshaw, do Observer, suplemento do jornal inglês The Guardian, veio ao Brasil a convite da Trama e não recebeu o bilhete de volta antes de ver o sexteto em ação. No fim, disse que gostou.

Alexandre Schneider/4Press
O vocalista dos Strokes: do mundinho para o mundo


Mais do que o som, o que torna o Cansei de Ser Sexy interessante é ser prova da efervescência de uma certa cultura pop brasileira. A palavra pop, nesse caso, engloba muito mais que música: tem a ver com moda, com a leitura de algumas revistas, com o culto irônico a certos ícones e celebridades e com o desejo de ser "transnacional". Assim como os Strokes, de Nova York, o Chicks on Speed, de Munique, ou o Arctic Monkeys, de Londres, a banda se alimentou, em São Paulo, da eletricidade produzida pela existência de bons clubes noturnos, de gente que escreve sobre a vida noturna e a cena musical e de um público ávido por novidades. Surgiu do nada e cresceu a ponto de quase já ter uma carreira internacional (seus primeiros shows na Europa serão ainda neste mês), pois, graças a fenômenos como a internet, os produtos desse "mundinho" reverberam muito mais que os do "underground" ou do "circuito alternativo" de décadas passadas. Existe um pouco de armação num fenômeno como o Cansei de Ser Sexy? A julgar somente por seus dotes de instrumentistas, sim. Mas não se se levar em conta o domínio que as meninas têm do vocabulário pop. Elas têm pose. Resta ver se não cansam.

 
 
 
 
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