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Cultura
Ele era ou não
era? Eis a questão
Uma versão para cinema de O Mercador
de Veneza reacende o debate sobre
o anti-semitismo de Shakespeare

Isabela Boscov
"Três mil ducados!"
essa é a fala com que Shylock, o usurário judeu, entra
em cena em O Mercador de Veneza, e a quantia pela qual o
cristão Antônio vai penhorar 1 libra, ou exatos 453
gramas, de sua própria carne. Antônio, claro, não
supõe que essa dívida tétrica será cobrada:
seus vários navios mercantes devem lhe trazer riquezas em
breve, e ele é um cidadão preeminente de Veneza (ao
contrário de Shylock, que numa ocasião anterior levou
uma cusparada de Antônio apenas por ser o que é
judeu e agiota). O credor e o devedor, porém, vão
se enfrentar no tribunal, onde Shylock, amparado num contrato e
na lei, se mostra irredutível na idéia de recolher
o pagamento não em moeda, mas em carne, ainda que sua extração
mate Antônio. Shylock quer sangue, e sangue cristão.
Ainda que nos dias de hoje isso pareça inconcebível,
a peça escrita por William Shakespeare no fim dos anos 1500
foi durante quase toda sua existência uma comédia
e Shylock, um vilão burlesco, que deleitava as platéias
com seus cachos ruivos, sua avareza e seus trejeitos. Desertado
pela filha Jessica, que casou com um cristão e fugiu com
a fortuna paterna, Shylock brada que preferia tê-la morta
a seus pés, mas adornada com os brincos de diamante surrupiados
e com seu esquife repleto de ducados. Em inglês, shylock
virou um verbo (que ninguém usa hoje em dia), que significa
emprestar dinheiro a juros extorsivos. Não há dúvida,
portanto, de que a peça e seu protagonista fazem parte da
história do anti-semitismo. Mas será que ela é,
na essência, anti-semita? Há décadas os estudiosos
de Shakespeare se batem em torno dessa questão, que ganha
novo fôlego a cada vez que alguém é ousado (ou
tolo) o bastante para encená-la como o diretor inglês
Michael Radford, cuja versão cinematográfica de O
Mercador de Veneza (The Merchant of Venice, Inglaterra/Itália/Estados
Unidos, 2004), estrelada por Al Pacino, está desde sexta-feira
em cartaz no país.
Os judeus foram expulsos da Inglaterra
em 1290, e só seriam readmitidos em 1655. No reinado de Elizabeth
I, havia no país uma centena de marranos judeus convertidos,
que secretamente conservavam seus costumes , mas não
existe nenhuma pista sólida de que Shakespeare tenha travado
contato com eles. É provável, assim, que ele tenha
escrito O Mercador sem nunca ter visto de perto um judeu.
Mas certamente ouvira falar muito deles, e sempre em contextos deletérios.
Em 1593, o português Roderigo Lopez, judeu batizado e médico
de Elizabeth, foi acusado de tentar envenenar a rainha. Condenado
por alta traição, foi enforcado e esquartejado, enquanto
a multidão gritava insultos anti-semitas. Na época,
corriam crenças de que os judeus tinham um odor peculiar,
que usavam sangue cristão em rituais profanos e que sacrificavam
crianças. No teatro, eles eram os vilões du jour
como na horrenda peça O Judeu de Malta, de
Christopher Marlowe. Quaisquer que fossem as informações
de Shakespeare sobre os judeus, portanto, elas eram as mais caricaturais
possíveis, e não é de estranhar que seu Shylock
fosse também ele em boa medida uma caricatura, na qual toda
vilania advém especificamente de ele ser judeu. O dramaturgo,
contudo, não podia escapar de seu próprio talento
e artesania dramática, e fez de Shylock também um
homem completo, com dores e paixões. Fosse ele uma figura
de cartolina, não haveria polêmica. Mas são
essas janelas pelas quais se pode entrever sua humanidade que alimentam
a polêmica em torno do anti-semitismo de Shakespeare, e que
permitem que O Mercador seja utilizado de formas opostas
pelos nazistas, como doutrinação em favor do
extermínio, ou, em montagens modernas, para obrigar a platéia
a confrontar seu preconceito.
O diretor Michael Radford e Al
Pacino, numa atuação excelente, fazem amplo uso dessas
janelas. Shylock, no filme, exige sua libra de carne como quem cobra
por séculos de perseguição e segregação.
A clemência estendida a ele no fim do julgamento não
é caridade, mas opressão deliberada, um último
e doloroso prego no caixão do seu judaísmo. Desconstruir
Shakespeare dessa forma é hoje uma prática mais do
que estabelecida mas não torna menos chocante a experiência
de ouvir ofensas como "cão judeu" ecoando na sala de cinema.
Por isso a ambivalência permanece até nos mais altos
escalões do estudo de Shakespeare. O inglês John Gross,
autor de um livro cardeal sobre o tema Shylock: a Legend
and Its Legacy , argumenta que a peça é
culpada de ter preparado o terreno para catástrofes como
o Holocausto, mas julga que é impossível avaliar as
crenças pessoais do dramaturgo. O americano Harold Bloom,
que conquistou o posto de voz indispensável em tudo o que
se refira a Shakespeare, é mais duro: "É preciso ser
cego, surdo e mudo para não reconhecer que O Mercador
é uma obra profundamente anti-semítica", disse ele.
Eis, portanto, o valor da insensatez de Radford em adaptá-la:
o de dar ao público uma rara oportunidade de arbitrar sobre
um debate clássico e sobre si mesmo.
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AS FACES DE
SHYLOCK
1596 a 1740
Popular desde sua estréia, o protagonista
da comédia O Mercador de Veneza era tradicionalmente
mostrado como um vilão bufo, dedicado a arrancar
gargalhadas do público
1741 a 1813
Uma interpretação antológica
do ator Charles Macklin (que faria o papel até
a década de 1780) transformou Shylock num vilão
repulsivo, física e mentalmente deformado por
uma vida inteira de usura e pela sede de vingança
1814 aos anos
1930
Graças ao ator Edmund Kean, emergiu um novo
Shylock, em que a maldade passou a ser temperada por
sentimentos mais humanos, como perda, solidão
e uma certa medida de dignidade
Anos 30 e 40
O Mercador de Veneza torna-se a mais popular
das peças de Shakespeare em território
nazista, com pelo menos 55 produções distintas
a partir de 1933. Em 1943, o ator Werner Krauss, de
O Gabinete do Dr. Caligari, ajudou a reforçar
a atitude popular pró-extermínio dos judeus
com uma caracterização horripilante de
Shylock no teatro de Viena
Anos 40 em diante
No mundo pós-Holocausto, encenar O Mercador
só é possível com algum tipo de
"desconstrução" do texto como numa
montagem repleta de referências modernas protagonizada
no início da década de 70 por Laurence
Olivier, em cujas palavras O Mercador era a mais
cruel das peças
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