Edição 1930 . 9 de novembro de 2005

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Cultura
Ele era ou não
era? Eis a questão

Uma versão para cinema de O Mercador
de Veneza
reacende o debate sobre
o anti-semitismo de Shakespeare


Isabela Boscov

"Três mil ducados!" – essa é a fala com que Shylock, o usurário judeu, entra em cena em O Mercador de Veneza, e a quantia pela qual o cristão Antônio vai penhorar 1 libra, ou exatos 453 gramas, de sua própria carne. Antônio, claro, não supõe que essa dívida tétrica será cobrada: seus vários navios mercantes devem lhe trazer riquezas em breve, e ele é um cidadão preeminente de Veneza (ao contrário de Shylock, que numa ocasião anterior levou uma cusparada de Antônio apenas por ser o que é – judeu e agiota). O credor e o devedor, porém, vão se enfrentar no tribunal, onde Shylock, amparado num contrato e na lei, se mostra irredutível na idéia de recolher o pagamento não em moeda, mas em carne, ainda que sua extração mate Antônio. Shylock quer sangue, e sangue cristão. Ainda que nos dias de hoje isso pareça inconcebível, a peça escrita por William Shakespeare no fim dos anos 1500 foi durante quase toda sua existência uma comédia – e Shylock, um vilão burlesco, que deleitava as platéias com seus cachos ruivos, sua avareza e seus trejeitos. Desertado pela filha Jessica, que casou com um cristão e fugiu com a fortuna paterna, Shylock brada que preferia tê-la morta a seus pés, mas adornada com os brincos de diamante surrupiados e com seu esquife repleto de ducados. Em inglês, shylock virou um verbo (que ninguém usa hoje em dia), que significa emprestar dinheiro a juros extorsivos. Não há dúvida, portanto, de que a peça e seu protagonista fazem parte da história do anti-semitismo. Mas será que ela é, na essência, anti-semita? Há décadas os estudiosos de Shakespeare se batem em torno dessa questão, que ganha novo fôlego a cada vez que alguém é ousado (ou tolo) o bastante para encená-la – como o diretor inglês Michael Radford, cuja versão cinematográfica de O Mercador de Veneza (The Merchant of Venice, Inglaterra/Itália/Estados Unidos, 2004), estrelada por Al Pacino, está desde sexta-feira em cartaz no país.

Os judeus foram expulsos da Inglaterra em 1290, e só seriam readmitidos em 1655. No reinado de Elizabeth I, havia no país uma centena de marranos – judeus convertidos, que secretamente conservavam seus costumes –, mas não existe nenhuma pista sólida de que Shakespeare tenha travado contato com eles. É provável, assim, que ele tenha escrito O Mercador sem nunca ter visto de perto um judeu. Mas certamente ouvira falar muito deles, e sempre em contextos deletérios. Em 1593, o português Roderigo Lopez, judeu batizado e médico de Elizabeth, foi acusado de tentar envenenar a rainha. Condenado por alta traição, foi enforcado e esquartejado, enquanto a multidão gritava insultos anti-semitas. Na época, corriam crenças de que os judeus tinham um odor peculiar, que usavam sangue cristão em rituais profanos e que sacrificavam crianças. No teatro, eles eram os vilões du jour – como na horrenda peça O Judeu de Malta, de Christopher Marlowe. Quaisquer que fossem as informações de Shakespeare sobre os judeus, portanto, elas eram as mais caricaturais possíveis, e não é de estranhar que seu Shylock fosse também ele em boa medida uma caricatura, na qual toda vilania advém especificamente de ele ser judeu. O dramaturgo, contudo, não podia escapar de seu próprio talento e artesania dramática, e fez de Shylock também um homem completo, com dores e paixões. Fosse ele uma figura de cartolina, não haveria polêmica. Mas são essas janelas pelas quais se pode entrever sua humanidade que alimentam a polêmica em torno do anti-semitismo de Shakespeare, e que permitem que O Mercador seja utilizado de formas opostas – pelos nazistas, como doutrinação em favor do extermínio, ou, em montagens modernas, para obrigar a platéia a confrontar seu preconceito.

O diretor Michael Radford e Al Pacino, numa atuação excelente, fazem amplo uso dessas janelas. Shylock, no filme, exige sua libra de carne como quem cobra por séculos de perseguição e segregação. A clemência estendida a ele no fim do julgamento não é caridade, mas opressão deliberada, um último e doloroso prego no caixão do seu judaísmo. Desconstruir Shakespeare dessa forma é hoje uma prática mais do que estabelecida – mas não torna menos chocante a experiência de ouvir ofensas como "cão judeu" ecoando na sala de cinema. Por isso a ambivalência permanece até nos mais altos escalões do estudo de Shakespeare. O inglês John Gross, autor de um livro cardeal sobre o tema – Shylock: a Legend and Its Legacy –, argumenta que a peça é culpada de ter preparado o terreno para catástrofes como o Holocausto, mas julga que é impossível avaliar as crenças pessoais do dramaturgo. O americano Harold Bloom, que conquistou o posto de voz indispensável em tudo o que se refira a Shakespeare, é mais duro: "É preciso ser cego, surdo e mudo para não reconhecer que O Mercador é uma obra profundamente anti-semítica", disse ele. Eis, portanto, o valor da insensatez de Radford em adaptá-la: o de dar ao público uma rara oportunidade de arbitrar sobre um debate clássico – e sobre si mesmo.

 

AS FACES DE SHYLOCK

1596 a 1740
Popular desde sua estréia, o protagonista da comédia O Mercador de Veneza era tradicionalmente mostrado como um vilão bufo, dedicado a arrancar gargalhadas do público

1741 a 1813
Uma interpretação antológica do ator Charles Macklin (que faria o papel até a década de 1780) transformou Shylock num vilão repulsivo, física e mentalmente deformado por uma vida inteira de usura e pela sede de vingança

1814 aos anos 1930
Graças ao ator Edmund Kean, emergiu um novo Shylock, em que a maldade passou a ser temperada por sentimentos mais humanos, como perda, solidão e uma certa medida de dignidade

Anos 30 e 40
O Mercador de Veneza torna-se a mais popular das peças de Shakespeare em território nazista, com pelo menos 55 produções distintas a partir de 1933. Em 1943, o ator Werner Krauss, de O Gabinete do Dr. Caligari, ajudou a reforçar a atitude popular pró-extermínio dos judeus com uma caracterização horripilante de Shylock no teatro de Viena

Anos 40 em diante
No mundo pós-Holocausto, encenar O Mercador só é possível com algum tipo de "desconstrução" do texto – como numa montagem repleta de referências modernas protagonizada no início da década de 70 por Laurence Olivier, em cujas palavras O Mercador era a mais cruel das peças

 

 
 
 
 
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