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Livros
Caça aos gurus
A auto-ajuda está sob ataque. Até
autores do gênero agora a renegam

Paula Aoyagui
Roberto Setton
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| Shinyashiki: o Hamlet da auto-ajuda |
O psiquiatra Roberto Shinyashiki é o Hamlet da auto-ajuda
brasileira. Assim como o célebre personagem de Shakespeare,
ele se debate num dilema: aceitar ou não um lugar no panteão
do gênero. Nos últimos vinte anos, Shinyashiki conquistou
um latifúndio nesse mercado: vendeu 6,5 milhões de
exemplares de obras de aconselhamento como O Sucesso É
Ser Feliz. Ao mesmo tempo, ele se esforça para se diferenciar
dos concorrentes. Em seu novo livro, Heróis de Verdade,
que aparece em terceiro lugar na lista dos mais vendidos de VEJA,
Shinyashiki fala de uma certa "depressão das aparências"
a preocupação com o marketing pessoal e a necessidade
de parecer sempre vencedor estariam na raiz das frustrações
modernas. Em paralelo, ele aproveita para denunciar os "modelos
de sucesso" propagados pela auto-ajuda. Em entrevista a VEJA, Shinyashiki
reforçou suas críticas. Ele coloca em dúvida
as credenciais dos gurus. "A auto-ajuda é exercida por muitas
pessoas sem formação, que fazem psicologia barata",
comenta. Questiona ainda a eficácia desses livros. "Vende-se
a mesma solução para todos os problemas: se você
tiver garra, vai obter sucesso. É uma ilusão que só
gera angústia nas pessoas", diz.
Um livro recém-lançado
nos Estados Unidos desfere um ataque semelhante à auto-ajuda.
Só que o autor de SHAM How the Self-Help Movement
Made America Helpless (Sham Como o Movimento da Auto-Ajuda
Deixou a América Desamparada), o jornalista Steve Salerno,
faz críticas ainda mais devastadoras. O objetivo dele é
provar que o gênero não tem salvação.
Nos EUA, o setor movimentou 8,5 bilhões de dólares
em 2004 e cresceu 50% nos últimos cinco anos (no Brasil,
foram 2,9 milhões de livros vendidos em 2003, último
dado disponível). Tudo o que esse mercado deseja, sustenta
Salerno, é que as pessoas não resolvam seus
problemas e continuem devorando livros, vídeos, palestras
e outros produtos. "Qual a resposta da auto-ajuda quando seus métodos
falham? É simples: consuma mais auto-ajuda", escreve ele.
O autor até reconhece que ela pode ser uma ferramenta útil
em casos pontuais. Estatisticamente, contudo, nunca se provou que
funcione. Se a auto-ajuda resolvesse mesmo os males da alma, diz
Salerno, por que as vendas de antidepressivos explodiram ao mesmo
tempo que as desses livros? Além disso, o típico consumidor
de auto-ajuda é alguém que recorreu a outras obras
do gênero nos dezoito meses anteriores o que seria
um indício de que não conseguiu resolver seus problemas.
Salerno coloca em xeque a reputação
de vários gurus (veja
quadro). O americano John Gray, autor de manuais
de relacionamento como Homens São de Marte, Mulheres São
de Vênus, declara-se "doutor", mas não é
médico: obteve só um título por correspondência.
O também americano Dr. Phil vive dando palpite sobre casamentos
infelizes sem dizer que o dele só durou três
anos, em boa medida por causa de sua infidelidade. O jornalista
questiona ainda as soluções propostas pelos livros
de auto-ajuda. O título de seu libelo brinca com isso: SHAM
é a sigla que designa o mercado de auto-ajuda nos Estados
Unidos, mas também é a palavra inglesa para algo que
é falso ou enganoso. Para Salerno, cada novo guru nada mais
faz que reciclar as mesmíssimas fórmulas. Uma delas
é o discurso da vitimização: os problemas das
pessoas decorreriam de fatores alheios à sua vontade, e por
isso elas devem aceitar as coisas como são para ser felizes.
Há, por outro lado, o discurso do "você pode tudo"
ou seja, bastaria elevar a auto-estima para que a pessoa
conseguisse chegar aonde deseja.
As críticas de Salerno
não se aplicam apenas aos gurus americanos. No Brasil, as
fórmulas feitas também dão o tom nessa área.
Shinyashiki alega que o fato de ter diploma de psiquiatra lhe confere
uma autoridade no assunto que boa parte dos concorrentes não
tem. "O que faço é dar conselhos como psiquiatra,
assim como Freud aconselhava seus pacientes e até
hoje ninguém o tachou de autor de auto-ajuda", diz. Ele tem
razão quanto a suas credenciais. Quanto a comparar qualquer
de seus livros com A Interpretação dos Sonhos
bem, nem em sonho. Diante de Heróis de Verdade, acaba-se
deduzindo que não há nada mais próximo da auto-ajuda
do que a atual cruzada anti-auto-ajuda. Shinyashiki não passa
uma linha sem despejar lugares-comuns do tipo "não se deixe
enganar: você é importante porque é você"
e "o problema das pessoas que só valorizam a aparência
é que a alma não tem silicone". Até Salerno,
em meio a seu ensaio contra os gurus, às vezes trai um certo
pendor para vender suas próprias fórmulas de felicidade.
Ao narrar como uma amiga só teria se realizado depois de
abandonar a auto-ajuda, ele deixa escapar: "No fim das contas, ela
é um ser humano adorável".
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FAÇA
O QUE EU DIGO...
Num livro recém-lançado
nos Estados Unidos, o jornalista Steve
Salerno questiona a eficácia da auto-ajuda
e expõe os podres de alguns gurus
Dr. PHIL
Quem é:
ganhou fama no programa da apresentadora americana Oprah
Winfrey e hoje comanda sua própria atração.
Dá conselhos sobre tudo, de relacionamentos a
dietas para emagrecer
Obra mais conhecida:
A Dieta do Dr. Phil
Deslizes:
no início da carreira, foi acusado de assédio
por uma paciente e acabou enquadrado pelo conselho de
psicologia do Texas. Seu casamento fracassou em três
anos a ex não se convenceu com sua desculpa
de que ter amantes era normal num relacionamento
Dra. LAURA
SCHLESSINGER
Quem é:
autora de livros de aconselhamento para casais em tom
moralista, nos quais prega contra o sexo fora do casamento,
o aborto e os homossexuais
Obra mais conhecida:
Dez Coisas Idiotas que os Homens Insistem
em Fazer
Deslizes:
embora se intitule "doutora", não tem formação
em psicologia nem em psiquiatria. A imagem de pilar
do conservadorismo caiu por terra quando um ex-amante
divulgou fotos dela nua na internet
Dr. JOHN GRAY
Dov Friedmann/AP
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Quem é: o guru defende que homens e mulheres
vêm de "planetas diferentes" e já
vendeu milhões de livros que oferecem fórmulas
para superar o problema
Obra mais conhecida:
Homens São de Marte, Mulheres São
de Vênus
Deslizes:
o título de "doutor" de Gray é enganoso:
ele não é médico. Só fez
um doutorado por correspondência, numa universidade
que foi multada e fechada sob a acusação
de ser uma fábrica de diplomas
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