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Cinema Ninguém
é só o que parece Com Marcas
da Violência, David Cronenberg faz seu melhor (e mais acessível)
filme em décadas 
Isabela Boscov
Observada
a partir de uma proximidade tal que chega a ser invasiva, a intimidade de Tom
Stall (Viggo Mortensen) revela apenas um homem de bem um homem que ama
a mulher (Maria Bello) e demonstra seu amor por ela, que trata o filho adolescente
e a filha pequena com respeito e carinho, que sai do seu caminho para ser gentil
com conhecidos e desconhecidos. Quando dois homens entram na lanchonete de Tom
para roubar, estuprar e assassinar, espera-se, portanto, que ele se torne uma
vítima. Tom, porém, reage de forma surpreendente. Aproveitando-se
de um milissegundo de distração de um dos bandidos, ele mata ambos,
salvando todos ali dentro do pior. Tom vira um herói, e sua comunidade,
numa cidadezinha do interior de Indiana, cerra fileiras para protegê-lo
e à sua família da curiosidade de estranhos e da imprensa. Uma dúvida,
porém, começa a se esboçar como um homem tão
pacato pode ter instintos tão letais? A chegada à cidade de um trio
de gângsteres da Filadélfia fará essa dúvida se avolumar,
até se tornar o cerne de Marcas da Violência (A
History of Violence, Estados Unidos, 2005), o excepcional filme de David Cronenberg
que estréia nesta sexta-feira no país.
Segundo o líder do trio (Ed Harris), Tom se chama na verdade Joey Cusack,
é irmão de um dos chefes da máfia da Filadélfia e
é também um sádico, que tentou arrancar-lhe o olho esquerdo
com arame farpado antes de sumir no mundo, quase vinte anos atrás. Tom
e sua mulher reagem com medo e incredulidade à acusação,
garantem ao xerife que não, Tom não faz parte de nenhum programa
de proteção a testemunhas o que poderia explicar uma identidade
anterior, e secreta , e começam a lidar com os efeitos do episódio
sobre sua família, entre os quais se contam uma perturbadora tensão
sexual e as súbitas explosões de agressividade de seu filho mais
velho, que até ali demonstrava a mesma aversão à violência
que seus pais. O gângster, porém, tem uma cicatriz horrenda que prova
que alguém, de fato, tentou arrancar seu olho, e dificilmente ele se esqueceria
de quem a colocou no seu rosto. A questão, então, é se o
comportamento mortífero que Tom manifestou durante a invasão de
sua lanchonete é a sua segunda natureza ou se é a primeira.
E aí estão os três territórios por excelência
de Cronenberg. O primeiro trata dos limites incertos entre o ser e a criatura;
o segundo, do caráter fugidio e subjetivo da realidade; e o terceiro, decorrente
deste, de quanto a própria noção de identidade é arbitrária.
"Freqüentemente penso que, a cada manhã, quando saímos da cama,
temos de nos recriar, de lembrar quem somos", disse o diretor três anos
atrás, num comentário sobre Spider, o filme que estava lançando
à época. Pois esse é, novamente, o centro de Marcas da
Violência. Na sua longa
e singular carreira, o canadense Cronenberg, de 62 anos, não fez outra
coisa que não refletir sobre essas questões. De seus filmes mais
inacessíveis aos mais populares como A Hora da Zona Morta,
em que Christopher Walken vive numa espécie de terra de ninguém
entre o passado, o presente e o futuro, ou A Mosca, em que Jeff Goldblum
se funde física e mentalmente a um inseto , sempre as mesmas perguntas
estão em jogo. Por isso, justamente, a carreira de Cronenberg é
tão singular: porque ele a formulou como uma investigação
em andamento. Desde Gêmeos Mórbida Semelhança,
porém, essa prospecção da natureza humana vinha adquirindo
contornos cada vez mais intransigentes e bizarros. Apesar de sua originalidade
e qualidade, filmes como Crash, Mistérios e Paixões, eXistenZ
ou Spider não estavam chegando a mais do que um punhado de críticos
e cinéfilos, ao que parece os únicos dispostos a suportar imagens
tão incômodas quanto a utilização erótica das
mutilações de vítimas do trânsito (em Crash)
ou a metamoforse de um escritor em inseto rastejante (no literalmente kafkiano
Mistérios e Paixões). Segundo o diretor, falar para si mesmo
nunca foi sua intenção, e ele anda feliz como criança com
a recepção calorosa ao seu novo trabalho que até bilheteria
conseguiu fazer, com 38 milhões de dólares arrecadados até
aqui. É fácil imaginar
como Marcas da Violência, adaptado de uma graphic novel, poderia
ter se transformado num filme medíocre de pancadaria, desses estrelados
por, digamos, Antonio Banderas e Diane Lane e produzidos pelo Joel Silver de Máquina
Mortífera. Mas, sem abrir mão de uma narrativa convencional,
com suspense e reviravoltas, Cronenberg virou-o do avesso. Como sugere o título
brasileiro, ele trata aqui de um aspecto muito contemporâneo da vida americana:
até onde se pode usar a violência para proteger o modo de vida
e, uma vez tendo sido usada a violência, será que o modo de vida
resiste? Mas há um argumento que apenas o título original
"Uma História de Violência" abarca: a história da violência
talvez seja a própria história da trajetória humana; não
importa quão civilizado o ser se torne, a criatura está sempre pronta
a irromper. |