Edição 1930 . 9 de novembro de 2005

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Com Marcas da Violência, David Cronenberg faz
seu melhor (e mais acessível) filme em décadas


Isabela Boscov

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Observada a partir de uma proximidade tal que chega a ser invasiva, a intimidade de Tom Stall (Viggo Mortensen) revela apenas um homem de bem – um homem que ama a mulher (Maria Bello) e demonstra seu amor por ela, que trata o filho adolescente e a filha pequena com respeito e carinho, que sai do seu caminho para ser gentil com conhecidos e desconhecidos. Quando dois homens entram na lanchonete de Tom para roubar, estuprar e assassinar, espera-se, portanto, que ele se torne uma vítima. Tom, porém, reage de forma surpreendente. Aproveitando-se de um milissegundo de distração de um dos bandidos, ele mata ambos, salvando todos ali dentro do pior. Tom vira um herói, e sua comunidade, numa cidadezinha do interior de Indiana, cerra fileiras para protegê-lo e à sua família da curiosidade de estranhos e da imprensa. Uma dúvida, porém, começa a se esboçar – como um homem tão pacato pode ter instintos tão letais? A chegada à cidade de um trio de gângsteres da Filadélfia fará essa dúvida se avolumar, até se tornar o cerne de Marcas da Violência (A History of Violence, Estados Unidos, 2005), o excepcional filme de David Cronenberg que estréia nesta sexta-feira no país.

Segundo o líder do trio (Ed Harris), Tom se chama na verdade Joey Cusack, é irmão de um dos chefes da máfia da Filadélfia e é também um sádico, que tentou arrancar-lhe o olho esquerdo com arame farpado antes de sumir no mundo, quase vinte anos atrás. Tom e sua mulher reagem com medo e incredulidade à acusação, garantem ao xerife que não, Tom não faz parte de nenhum programa de proteção a testemunhas – o que poderia explicar uma identidade anterior, e secreta –, e começam a lidar com os efeitos do episódio sobre sua família, entre os quais se contam uma perturbadora tensão sexual e as súbitas explosões de agressividade de seu filho mais velho, que até ali demonstrava a mesma aversão à violência que seus pais. O gângster, porém, tem uma cicatriz horrenda que prova que alguém, de fato, tentou arrancar seu olho, e dificilmente ele se esqueceria de quem a colocou no seu rosto. A questão, então, é se o comportamento mortífero que Tom manifestou durante a invasão de sua lanchonete é a sua segunda natureza – ou se é a primeira. E aí estão os três territórios por excelência de Cronenberg. O primeiro trata dos limites incertos entre o ser e a criatura; o segundo, do caráter fugidio e subjetivo da realidade; e o terceiro, decorrente deste, de quanto a própria noção de identidade é arbitrária. "Freqüentemente penso que, a cada manhã, quando saímos da cama, temos de nos recriar, de lembrar quem somos", disse o diretor três anos atrás, num comentário sobre Spider, o filme que estava lançando à época. Pois esse é, novamente, o centro de Marcas da Violência.

Na sua longa e singular carreira, o canadense Cronenberg, de 62 anos, não fez outra coisa que não refletir sobre essas questões. De seus filmes mais inacessíveis aos mais populares – como A Hora da Zona Morta, em que Christopher Walken vive numa espécie de terra de ninguém entre o passado, o presente e o futuro, ou A Mosca, em que Jeff Goldblum se funde física e mentalmente a um inseto –, sempre as mesmas perguntas estão em jogo. Por isso, justamente, a carreira de Cronenberg é tão singular: porque ele a formulou como uma investigação em andamento. Desde Gêmeos – Mórbida Semelhança, porém, essa prospecção da natureza humana vinha adquirindo contornos cada vez mais intransigentes e bizarros. Apesar de sua originalidade e qualidade, filmes como Crash, Mistérios e Paixões, eXistenZ ou Spider não estavam chegando a mais do que um punhado de críticos e cinéfilos, ao que parece os únicos dispostos a suportar imagens tão incômodas quanto a utilização erótica das mutilações de vítimas do trânsito (em Crash) ou a metamoforse de um escritor em inseto rastejante (no literalmente kafkiano Mistérios e Paixões). Segundo o diretor, falar para si mesmo nunca foi sua intenção, e ele anda feliz como criança com a recepção calorosa ao seu novo trabalho – que até bilheteria conseguiu fazer, com 38 milhões de dólares arrecadados até aqui.

É fácil imaginar como Marcas da Violência, adaptado de uma graphic novel, poderia ter se transformado num filme medíocre de pancadaria, desses estrelados por, digamos, Antonio Banderas e Diane Lane e produzidos pelo Joel Silver de Máquina Mortífera. Mas, sem abrir mão de uma narrativa convencional, com suspense e reviravoltas, Cronenberg virou-o do avesso. Como sugere o título brasileiro, ele trata aqui de um aspecto muito contemporâneo da vida americana: até onde se pode usar a violência para proteger o modo de vida – e, uma vez tendo sido usada a violência, será que o modo de vida resiste? Mas há um argumento que apenas o título original – "Uma História de Violência" – abarca: a história da violência talvez seja a própria história da trajetória humana; não importa quão civilizado o ser se torne, a criatura está sempre pronta a irromper.

 
 
 
 
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